Poesias

Anjo da Justiça

 

ANJO DA JUSTIÇA

 

Miguel Carqueija

 

 

“A coisa mais fácil para mim, seria te matar.”

(Hayley Stark)

 

“Pelos caminhos do mundo

nenhum destino se perde:

há os grandes sonhos dos homens

e a surda força dos vermes.”

(Cecília Meireles, “Romanceiro da Inconfidência”)

 

 

 

         Na grande cidade norte-americana de Los Angeles, Jeff Kohlver, de 32 anos, é um fotógrafo de modelos e também ambientalista, de boa reputação e bem de vida, que mora numa agradável e isolada casa de subúrbio. É bonitão, alto, charmoso e bom de papo. No entanto, apesar da sua aparência de profissional educado e respeitável, Jeff possui também uma tortuosa existência oculta. Sem que os seus conhecidos e vizinhos saibam, ele é um pedófilo predador, que além de seduzir adolescentes as maltrata e assassina, sumindo com os seus corpos.

         Uma semana após o rumoroso desaparecimento da menina Dona Mauer, Jeff é abordado no bate-papo do MSG por uma garota de 14 anos, que se identifica como Hayley Stark. É simpática, inteligente e atirada e durante três semanas ambos conversam pela internet a respeito de bandas, fotos e outros assuntos. Afinal, marcam encontro numa lanchonete onde, como por acaso, acha-se afixada a fotografia de Dona Mauer com a legenda “missing” (desaparecida). Hayley, que é pequena, sorridente e encantadora, e Jeff Kohlver, de óculos, fala mansa, ligeiramente barbado, enfim se conhecem pessoalmente. A menina usa um casaco vermelho com capuz. É uma metáfora da Chapeuzinho Vermelho (ou Capuchinho Vermelho) diante do Lobo Mau e seus olhares gulosos. Hayley não perde tempo e se convida para ir à casa de Jeff e deixar-se fotografar por ele. Em seguida ela embarca sorrindo no carro do bonitão e logo ambos estão a caminho.

         O que Jeff, no entusiasmo da conquista, não sabe e está muito longe de imaginar, é que tem diante dele o seu Nêmesis e que Hayley Stark é muito diferente de todas as meninas que ele abusou e mesmo matou.

         Em pouco tempo Jeff, já em casa, se vê diante de uma situação inacreditável: amarrado solidamente a uma cadeira e tendo diante de si a adolescente Hayley Stark que, já sem sorrir nem brincar e com a expressão fria, séria e contida, inicia o julgamento do pedófilo.

         Estamos diante de uma preciosidade como raras vezes o cinema produziu. “Hard  candy” (“O doce amargo”), co-produção americano-canadense, cuja ficha técnica segue em apêndice, é um filme obsedante, inesquecível, carregado pela interpretação avassaladora de Ellen Page, no papel da heroína adolescente Hayley Stark. Ellen, na ocasião, tinha 17 anos mas podia passar por 14, com seu tamanho pequeno (1,55m) e seu rostinho cheio de frescor e encanto. Patrick Wilson também está ótimo no difícil papel do tortuoso personagem Jeff Kohlver.

         Todo o tratamento dado à película pelos produtores e pelo diretor britânico David Slade é de cinema de arte. Desde a apresentação com figuras geométricas como velada alusão aos cômodos da casa isolada onde se passa a maior parte da ação, até os créditos finais ao som de “Elephant woman” — excelente canção composta e interpretada pela banda Blonde Redhead — tudo é feito de maneira artística, minimalista. No entanto, é uma história de suspense e terror psicológico. A trama é de tirar o fôlego, principalmente se o espectador optar por torcer pela justiceira, pois é evidente que ela está no fio da navalha, diante de um inimigo mortal, e que vai à casa do fotógrafo, disposta a tudo.

         Existe, em torno da personagem Hayley Stark, uma “pergunta que não quer calar”: quem é ela de fato? Hayley é a típica figura misteriosa que vem do nada e retorna para o nada após cumprir a sua missão: como a “Little Rita” de “Rita no Oeste” (Rita Pavone), como a Mary Poppins (Julie Andrews, no filme de Walt Disney, personagem dos livros de P.L. Travers). É claro, “Hard candy” é um gênero muito diferente, a história é tensa e sufocante. Há cenas antológicas do princípio ao fim, desde a descompostura que Hayley, tendo colocado óculos e assumido os ares de uma professora lidando com um aluno relapso, passa no fotógrafo, até as ocasiões em que Jeff contra-ataca. Destaca-se a furiosa luta que ambos travam na banheira, quando Jeff, tendo se libertado das cordas e pego um bisturi, tenta matar a garota, que se defende com unhas e dentes, utilizando um aparelho de dar choque elétrico.

         Seria Hayley Stark um anjo? Esta hipótese pode parecer estrambótica, mas a enigmática construção da personagem deixa em aberto esta possibilidade, já que ela parece saber tudo sobre o caso e dispor do poder de conduzir os acontecimentos. Aliás, nos créditos finais a banda Blonde Redhead executa “Elephant woman”, de autoria própria, e cuja letra repete várias vezes a palavra “angel”.    

 

HARD CANDY – Co-produção canadense-americana de 2005. Idéia original do produtor David Higgins. Roteiro de Brian Nelson. Direção de David Slade. Com Ellen Page (como Hayley Stark), Patrick Wilson (como Jeff Kohlver) e Sandra Oh (Sra. Tokuda).  

Lançado no Brasil com o título desvirtuado de “Meninama.com”, que dá uma idéia errada da personagem Hayley Stark, na verdade uma heroína.

 

(Rio de Janeiro, 17 a 20 de maio de 2012)

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Comentários

  • Me perdoe o atraso e mais ainda por não ter deixado (como dever - ia) meus e NOSSOS cumprimentos pelas tuas Obras Poeta e Escritor Miguel Carqueija.

    .

    Estamos pensando em criar algo (talvez um Quadro... Ou Grupo) onde os Escritores e Poetas - possam divulgar / ComPartilhar suas Obras na Área Ficcional - da qual sou Ardoroso Fã!

    .

    Aceitamos SUGESTÕES (sempre!!!)

    .

    ABRAÇOS COM NOSSOS APLAUSOS - Ao Escritor e Poeta e ao SER que És!

    gaDs

  • Bravo!

  • Parabéns, poeta, pela reflexão sobre o filme e por nos compartilhar tamanha informação, sapiência, adorei. Abraços, paz e Luz!!!

  • Adm

    Excelente trabalho, Miguel.

    Parabéns e bom fim de semana.

  • Nunca observei tanta coisa ilibada num só lugar. Saiba que você nos deixa uma autêntica obra prima!

  • Bom dia
    Sensacional o seu texto
    Meus parabéns
    Paz e luz sempre
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CPP