Poesias

CHAMADO

CHAMADO

Não existirá nos dias,
Sucessão de bois em fila
Quando a vida vai escoando
Amorfa, imemorial, agônica,
Nos corredores estreitos
De abatedouros cruentos.
Os meses dos calendários
Vindo e tombando de janeiro
A janeiro como as reses
Dobradas a golpes de aço
Por bruta força numismata
De capital ação mecânica.
Não estará nas ruas
Entre burla e dispersão
Nas esquinas que repetem
Rotas de vícios e enganos
Dos bêbados sedentos.
Não estará nas fábricas
Entre sirenes e ordens
Acordando opressão
Com firma reconhecida
Fabricando pobrezas.
Com brados e sussurros,
Não estará nas igrejas
Para remir das sombras
Tantos filhos obscuros,
Sem lucidez, só desatinos
De quem, cego, vislumbra
Vário rumo ou destino
Seguindo contábil suma
Ou simulado catecismo.
Longe estará das aras
Erguidas nos três reinos
Ao relento da matéria
Em inumerável estado.
Inumerável, pois o divino
Só se oferece além
Da forma que se expõe
Àqueles cinco sentidos.
Nem pode ser seu o nome
Que lhe deram os homens,
Porque a palavra humana,
Frágil escultura de sopro,
Ruiu sob o peso do cinismo;
Frágil corpo de tinta,
Manchou-se de impurezas.
Então, o silêncio se impõe,
Definitiva e única reza.
Todo o resto é insano,
Um total vezes mil nadas.
Bênção? Não precisar crer.
Alguém crê no que existe?
Mas quando eu o chamo,
Apenas me responde:

Alcançá-lo é sair
Para dentro de mim.

(E. Rofatto)

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Comentários

  • Um caminho árduo a ser seguido, brilhante poema caro Edvaldo :)

    • Grato, Juliano! Em meio a tantos afazeres, atrasei esta resposta. Queira-me desculpar.

      Não obstante, reafirmo o prazer de ser lido por um amigo com a sua perspectiva espiritual, a qual admiro muito.quando expressa em versos

      Um abraço!

    • Grato, angélica! Grato pela visita, pelo destaque e pela mensagem incentivadora - e de muito bom gosto!.

  • Adm

    Eu fiz a leitura e fiquei parada, refletindo. Fiquei assim porque o texto exposto em tela convida à reflexão.
    Uma das reflexões que fiz sobre esta leitura é sobre não termos mais a visão servil, aquela que se assemelha à visão monocular (dos bois), entretanto, ainda carecemos de voltarmos para dentro de nós mesmos e soltarmos o ser humano que continua preso no desejo de ser, de possuir, de dominar. A sociedade esta cheia das mazelas que existem porque foram criadas por estes seres chamados de humanos. Sabe Edvaldo, dois meses atrás, uma menina de 12 anos foi morta pela própria mãe e seu padrasto, ela era estuprada por este homem e a mãe sabia, a mãe batia nesta menina porque ela não conseguia mais ter controle de seu corpinho e sujava os lençóis. Ela veio ao óbito, porque seus órgãos não suportaram a violência dos espaçamentos. Diz-me, isto é ação de ser humano? Mais difícil e nauseante é ver estas pessoas clamando por Deus, e aqui vou lá para teu ultimo verso: quem deseja alcançar Deus deve, primeiro, olhar para dentro de si.

    Não obstante, temos diante de nossos olhos os maiores ladrões governando o país, e nós? Nós estamos e vamos como diz Raul Seixas: com a boca escancarada e cheia de dentes, esperando a morte chegar. Gilberto Freyre disse, certa vez, quando lhe pediram para dizer uma das coisas que mais lhe desagradava e ele disse: a subserviência da massa.

    "E se um dia, hei de ser pó, ser nada, que seja a minha noite uma alvorada e que possa me perder pra me encontra" (Florbela Espanca)

    Parabéns ao momento, sublime, de composição deste poema.

    Perdão se nada do eu disse faz sentindo, mas, sabes bem que o leitor, como bem diz, José Carlos de Avelar, é um viajante dos universosdiversos.

    Leitura, deveras, gratificante. Muito obrigada.

    Destacado!

    • Grato, Edith! É uma satisfação imensa tê-la como co-autora: ao buscar um sentido para o texto, você torna-se minha parceira - e tudo o que lhe chega pela interpretação é válido como seu trabalho e esforço próprios somados aos meus. É muito bom tê-la como co-autora!.

      O caso trágico da menina, o qual você cita, mais a visão monocular que instituições diversas insistem em nos impor e, ainda, os descalabros dos nossos representantes políticos (alguns até invocando a esfera do divino para disseminar interesses mesquinhos) realmente nos trazem interrogações, como a sua: "isto é ação de ser humano?"

      Veja como nos encontramos no mesmo ponto, ao cruzarmos pontos de vista - o que, obviamente, não vem contrapor o dito do nosso amigo Zeka: somos leitores e viajantes de universos diversos, mesmo, que, ocasionalmente, podemos nos encontrar, inclusive.

      Já confesso aqui que o caso citado foi a inspiração para outro texto - pelo que lhe agradeço muito e também à Casa. A convivência com todos esses amigos é muito enriquecedora, tanto no sentido poético quanto no pessoal, pois trocamos ideias, inspirações, amizade e tantas coisas boas. 

      Um privilégio ter a sua leitura (mais o destaque!), a sua co-autoria (ao finalizar, tão cuidadosamente, o significado) e a sua amizade.

      Obrigado!

  • Parabéns, poeta amigo, poema lindo, reflexivo, primoroso, sua sabedoria é ímpar, fico honrado por escrever "ao seu lado nesta casa", é uma oportunidade única de aprendizado. Obrigado, por ter compartilhado conosco esta bela obra. Abraços, paz e Luz!!!

    • Grato, Ilário! Eu lhe digo o mesmo, sinceramente: uma honra estar aqui ao seu lado e de tantos outros amigos!

  • O Sam tem razão quando disse que temos que nos esforçar muito para tecer um comentário a altura de suas composições

    Parabéns Edvaldo pela inspiração profunda inteligente que expõe uma realidade sem muitos rodeios

    Mil aplausos pelo talento

    Gde abraço

    • Grato, Selda! É uma alegria ter a aprovação de quem admiramos!

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