CARTA NO PRESENTE IMPERFEITO DOS INDICATIVOS

CARTA NO PRESENTE DO IMPERFEITO DOS INDICATIVOS

Há muito, bate-me o pêndulo da dívida de um abraço, aquele que não pude lhe dar na hora exata.

Como você, eu vou também por esses mares de distanciamento a cada lembrança – e toda vez me vejo menino na minha suscetível meninice, a despeito dos meus aniversários já sem festas nem parentes – daí a minha dificuldade para abraçá-lo na sua hora mais tempestuosa. Você é tão jovem e já está à mercê das marés dos dias que levantam sentidas ausências num azul que se sobrepõe a azul num líquido deserto. Mais nada.

Por várias vezes, depois da partida dela, eu tenho o olhar à escuta de uma verdade reiterada sem tribuna, no decreto tácito da gritante disfunção dos objetos. Um terço exausto sobre o criado-mudo, e ninguém para aconchegá-lo nas mãos. Uma poltrona sempre, respeitosamente, desocupada desde aquele dia. Dois sapatos estáticos esperando, esperando no canto do quarto. Um vaso súbita e definitivamente estéril de qualquer flor. Uma caixa de remédios lamentando, há tanto tempo, a usual desnecessidade numa gaveta da cômoda. Irresponsáveis e indiferentes, esses indícios encontrados aqui e ali pela casa vão me apalpando na pele do cotidiano as contundências da separação, essas que atingem você com a força de uma onda desabando violentamente – e a chance de uma enseada, perdida. Sem apelação.

Porque está devastado o futuro, ficamos assim: navegantes absortos entre água e céu que azulejam os absurdos. À deriva, os olhos navegam por oceanos de paralela visão. E eu sei aonde a sua saudade o leva quando seu olhar cobre-se de névoa. Eu também frequento essas mesmas águas. Salgadas.

Preciso deixar-lhe esse mapa que chega tardiamente, mas isento de qualquer impiedade. Minhas palavras tentam navegar à volta do seu coração do mesmo modo que meus braços quiseram ser remos, naquela vez, para levá-lo a transpor o azul da distância – e não conseguiram porque eu já a sabia irremediável. E lhe teria dado esta medida no seu momento nebuloso, não fossem meu retraimento e silêncio. Hoje, eu a entendo, eu a respeito. De um jeito bonito, na outra margem, um farol vela o seu futuro brilhando através dos olhos dela postos em você!

Sente o carinho intangível? Você ainda é abençoado por esse amor que o acolhe desde o seu nascimento, como eu também sou, e assim há de ser enquanto estamos mirando o horizonte onde elas estão... Longe... longe...

Com meu abraço e minha esperança no seu perdão, só agora, que você já sabe,

E. Rofatto

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Comentários

  • Caro Edvaldo
    Fiquei deveras emocionado com seu plangente texto evocando o rompimento irreversível e dolorido da convivência amorosa com sua veneranda mãe. Você escreve divinamente bem. Usa luvas de pelica. Sua prosa é plena de lirismo. Ela fez-me retornar ao passado e relembrar  minhas perdas igualmente doídas, teimosamente presentes em minha lembrança na forma de saudade hoje acordada com o encanto de seus versos. Parabéns. Continue a inspirar-se e a exercitar a sua sensibilidade e o seu talento para brindar-nos com magníficos textos de poesia em forma de prosa. 
    • Grato, Francisco! Sua leitura e comentário chegam-me como o abraço de um grande amigo.

      A admiração que tenho pelo poeta que você é equipara-se a que tenho pela pessoa que você revela ser nesse comentário: generoso, empático e respeitoso para com sua história. É bom estar próximo de quem resguarda nobreza de sentimentos. Sou um privilegiado!

  • Edvaldo, sua carta me levou às lágrimas! Disse tantas coisas

    que serviram para mim também! São lembranças que não se apagam,

    não se diluem com o tempo! Os objetos, simples objetos de uso,

    agora sem serventia, tocam os nossos sentimentos, como falassem

    para nós: estou aqui! Eu bem sei o que é tudo isso! É a saudade doída!

    • Grato, Mena! Os objetos passam a conversar conosco realmente

      - tudo que não era importante ganha diferente e imenso significado ao denunciar uma ausência tão querida.

      É a "saudade doída" representada nas pequenas coisas, não é?

      Sua empatia manifesta na sua mensagem mais um motivo de minha gratidão: obrigado! 

  • Poça Edvaldo, você me pôs triste agora.

    Lembrei-me da poltrona do meu pai, que faleceu há 2 anos, quanto saudade!!!

    Que podia ter-lhe dito que o amava, ele sabia, mas eu podia ter demonstrado mais.

    Fez-me chorar...

    Fico por aqui.

    Beijinhos

    • Quando um pensamento amoroso se apresenta firmemente, ele chega a quem é de direito. 

      Tenho certeza de o seu pensamento ter sido sentido: ele recebeu suas emanações de amor, Livita.

      Grato, pela visita e comentário! 

      Um bj, minha amiga de lindo sotaque!

  • que emoção ler estas belas linhas, realmente poeta não tem como não se emocionar. esta é a verdadeira "saudade doida"

    Porque está devastado o futuro, ficamos assim: navegantes absortos entre água e céu que azulejam os absurdos. À deriva, os olhos navegam por oceanos de paralela visão. E eu sei aonde a sua saudade o leva quando seu olhar cobre-se de névoa. Eu também frequento essas mesmas águas. Salgadas.

    parabénsssssssss muita emoção poeta

    • Safira, minha mãe usava essa expressão: "saudade doída"... Fiquei feliz e saudoso em recordar.

      O trecho que você destacou é um reforço à identificação que temos uns com os outros. É bom quando nos reconhecemos próximos: passamos a ver no outro uma face de nós mesmos.

      Obrigado pela presença e pela fala solidária.

  • Edvaldo, ao ler fui tomada por uma emoção tão forte, lembrei minha mãe...parecia que era eu a dizer isso tudo a ela. Confesso que não consegui reter as lágrimas.

    Ao final estava arrepiada, soluçando de tanto chorar. Amigo, consegui descarregar a dor que estava sufocando. Me senti você!  

    Ás vezes penso que sou muito forte, aguento tudo sozinha, mas sou uma manteiga derretida, choro por tudo. 

    A dor da ausência de um ente querido, principalmente, a mãe, é uma falta que não tem o que preencha.

    Resta, uma saudade sem fim...Seu texto é maravilhoso! ....Parabéns!

    • Fico agradecido, Márcia, pela leitura e compartilhamento das emoções. Seu relato traz a marca da sua fina sensibilidade.

      Às vezes, quando releio, parece que acabei de escrever este texto: a ressonância ainda é a mesma de quando foi escrito. É bom que seja assim.

      Fico agradecido, mesmo, pela empatia. A solidariedade carrega a fala dos melhores sentimentos. Obrigado!

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CPP