PREMONIÇÃO

PREMONIÇÃO

 

Noite retrasada, a coruja piou no telhado de casa.

Na hora do pio, todo mundo estacou.

A gente sabia que coruja era bicho agourento, mensageiro do Mal, sem dó de ninguém. Vai ver nem era de Deus.

Minha mãe dizia que, quando a coruja piava, alguém da casa iria morrer.

Fiquei com medo. Fui dormir rezando as rezas que eu conhecia.

“Ave, Maria, cheia de graça...” Mãe tem de cuidar, só pode morrer bem velhinha. “Salve Rainha, mãe de misericórdia, vida e esperança nossa...”Minha vó já era muito velha, bem capaz que virasse defunta, coitada, e eu nunca mais ia comer as coisas que ela fazia. Nossa! “Assim como era no princípio e por todos os séculos...” Pai não morria, que era forte. “Santo Anjo do Senhor, meu zeloso...” Meu irmão, muito novo. Eu não morri porque tô contando essa história -  foi minha professora que disse que escrever desafoga. “Pai nosso, que estais no céu...” Podia ser alguém da família que não morasse com a gente. “Senhor, fazei-me um instrumento da vossa fé!” Minha cachorra nunca pegou doença, não saía na rua...

Nem conseguia dormir de tanto pensar. Queria ser adivinho! Mas não coruja.

Se alguém morresse, teria um caixão de defunto no meio da sala, um cheiro forte de flor murchando – acho que a morte deve ter esse cheiro. Ou esse é cheiro de velório?

Teria muita gente chorando, a viúva mais que todos, se não, ficava má impressão. Já escutei falar dessas coisas: ela tinha que abraçar o morto abraçando o caixão. Deus me livre!

Depois ainda teria velório, gente andando atrás do caixão, debaixo de sol, até ver o defunto baixar dentro da cova pra ser coberto de terra. Deus me livre! Nessa hora, a viúva devia querer se atirar na cova também para todo mundo vê que sofria. Se não, ia ter falatório...

E se o morto, nem tão morto assim, acordasse? E se não tivesse morrido de verdade? Se acordasse antes do enterro, menos mal, mas garanto que todo mundo ia sair correndo pedindo perdão dos pecados. Mas, se acordasse depois de enterrado, Minha Nossa Senhora!

Minha mãe dizia que teve um artista, o Sérgio Cardoso, que foi enterrado vivo. Passaram dias, foi desenterrado. Ele estava de bruços no caixão. Crendeuspadre! Já pensou o desespero do homem, lá embaixo, no escuro, trancado, sem ar? Deus me livre!

Não dormi direito. Acordei com os olhos vermelhos e já comecei a rezar de novo, porque, depois da coruja, vai saber? Me aprontei, despedi da vó, que ia para a casa da minha tia, beijei a mãe, o pai já tinha saído, e a minha cachorra foi comigo e meu irmão até o portão.

De tarde, quando nós chegamos da escola, em frente da minha casa tinha agitação, vizinhos entravam e saíam. Vi homens que trabalham com meu pai. Um carrão preto estava estacionado perto. 

Minha mochila ficou muito pesada! Ou os ombros é que pesaram? Mas não peso de cadernos. Pesava outra coisa que eu não sabia o nome. A gente só vai sabendo das coisas devagarinho... Foi difícil olhar pra cima pra ver o telhado...

Tinha acontecido! Tinha acontecido!

Ô Deus, por que o Senhor deixou? Eu não rezei direito?

Então era por isso que as viúvas precisavam chorar? E os homens, e as crianças.

Se não chorassem, o peso aumentava até não poderem mais.

Daí eles morriam também?

Quem falou das viúvas não sabia sofrer. A gente vai aprendendo. A chorar. Seco. Imóvel. Silencioso.

Difícil, mesmo, foi a gente voltar pra casa depois do enterro.

Só nós quatro... A coruja tinha avisado.

A minha mãe morreu.

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(E. Rofatto)

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Comentários

  • Pois É Poeta Sorriso...

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    Certamente que o 'mal falar" das Corujas - hoje em dia foi sepultado... Resgatado como o de u'a Mãe Amorosa... Pai Amoroso... Assim como... Sim... ELE - O Pai-Maior também podemos dizer que È Coruja! SIM se é...

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    Mas... também em minha infância - vivenciei o medo das Corujas... De passar por debaixo das Frondosas Arvores (Figueiras) - principalmente na Roça onde morei e estas costumavam ficar nas beiradas dos "Corguinhos" onde sempre tinha uma Porteira (mal assombrada) para nos assustar.

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    MAS... Embora hoje (quando faço estes coments) seja Halloween - nem de longe logicamente - está minimizando o sentir da - aí sim - quem sabe Espiritualidade contida nua Coruja - mas não de agouro - e penso que - o contrário - como que de Despedida - que no caso teu vivenciado - DESPEDIDA de u'a Mãe - Coruja que é a Mãe das Mães (simbolicamente) de outra Mãe que iria (e foi) viajar...

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    E tanto NÃO É AGOURO, que basta imaginar no caso: - Para onde foi viajar Tua Amada Mãe?? - Ah - Não precisa ser Poeta nem advinho para TER CERTEZA de que não foi de modo algum para pior... E sim - para infinitamente melhor sem a menor comparação que é o sonhado Paraiso. Certo é que qual Mãe Coruja que tua Amada Mãe devia ser - desejaria ficar "chocando" os Filhotes por inúmeras eternidades...

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    Assim é que não senti a musica linda de fundo como Funebre - Ah... Como dizem o Povo da América - como um "Miss You" que no nosso caso - é muitooooo mais sensibilizado pela nossa índole pacífica-amorosa. Tua Mãe certamente sorri feliz vendo o teu sorriso nas Redes a alegrar a tantas Almas!!!

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    Abraços HEMOcionados - gaDs

    • Emocionado (até o sangue!) fico eu, Zeka, com seu comentário consolador! Emocionado e agradecido: obrigado!

      Realmente, na roça, as histórias corriam, inclusive, sobre a porteira, a ponte, assombradas, e o "corguinho"!. Li sorrindo, porque pensei que era apenas mais uma das histórias da minha mãe, não sabia do domínio popular! (Li com um sorriso alegre e triste, como a música).

      Uma vez, uma amiga, professora de piano, explicou-me a "Marcha Fúnebre": o primeiro andamento é tedioso e monótono, pois sugere a dor da separação, uma dor que parece não terá fim; mas depois muda-se o andamento e vem uma suavidade encantatória, porque a dor só é deflagrada pela felicidade já sentida, que se lhe opõe -  em meio ao maior sofrimento, lembra-se a alegria vivida ao lado da pessoa querida -  depois volta o andamento melancólico... Então, comecei a bendizer todas as tristezas! A Vida é dádiva amorosa!

      A amizade também! 

      Meu abraço em você!

    • Um Céu de Flores para Ti Poeta Sorriso!!!

  • Nossa!!! Não sei o que é mais triste, a morte de sua mãe ou o "engano" de dizer que corujas trazem mau agouro??!! Mas são crenças e folclores que há muito estão enraizadas na cultura popular !!! Não é culpa sua rsrsrsrsrs!!! Amei seu texto, do começo ao fim... fui vislumbrando a cena pedaço por pedaço!!! Parabéns Edvaldo!!!

    • E que folclore! Angélica também acho uma pena a fama que deram para a coruja, que grita estridente e desesperadamente - será que foi esse o motivo?

      Mas, quando criança, a crença no aviso da coruja foi passada para todos nós, com olhares preocupados e voz respeitosa - éramos da roça...

      Grato, pela visita e comentário! Um abraço!

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