ALBA D'AMOR SOÑADO

ALBA D’AMOR SOÑADO

– Enquanto o dia non vem,
Pregunta-me, Senhora miña,
Sobre tôdalas aves que non chegarom
E eu as farei cantar a teu coraçom.

– Cóntame-me, Amigo meu,
Enquanto é noite aínda,
Que cantares ouve quem soña en silêncio
O amor tardio em lembrado tempo.

(– Cala teu alaúde de piño!
Non cantes, bom cabaleiro,
Amores dun romanceiro!
Ay, Deus, há flor e espiños.)

– Enquanto o dia non vem,
Pregunta-me, Senhora miña,
Sobre tôdolos matices que non nascerom
E eu os deitarei nessas tuas mãos.

– Cóntame-me, Amigo meu,
Enquanto é noite aínda,
Quantas colores ten o olhar húmido
De paixão sedenta do ente querido.

(– Cala teu alaúde de piño!
Non cantes, bom cabaleiro,
Amores dun romanceiro!
Ay, Deus, há flor e espiños.)

– Enquanto o dia non vem,
Pregunta-me, Senhora miña,
O que será de tôdala sombra a que te unires
E eu a farei lucir nos soños de tuas íris.

– Cóntame, Amigo meu,
Enquanto é noite aínda,
Se nesta face a coita medrará afã
Indo à foz em que se afogan tôdolos que aman.

(– Cala teu alaúde de piño!
Non cantes, bom cabaleiro,
Amores dun romanceiro!
Ay, Deus, há flor e espiños.)

(E. Rofatto)

*Cantiga com vocabulário aproximado ao galego-português, livremente.

*A saber: "alba" equivale a cantiga medieval com tema de alvorecer; "amigo",  a amante; e "coita", a sofrimento amoroso.

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Respostas

  • Ainda que meio encantada e enfeitiçada, procurando decifrar versos tão primorosos,

    venho deixar meus aplausos e atos de cumprimentos, quando tão bem nosso amigo....

    descreveu tão inusitado poema.

    Edvaldo é com galhardia de Mestre que compõe seus textos com muita sabedoria da Literatura em

    seu todo.

    Parabéns e nos brinde mais com essa diferença de texto que vemos aqui.

    Abraços poéticos e carinhosos de Veraiz Souza

    • Grato, Veraiz! Recebo os seus cumprimentos com grande satisfação: sabe da admiração que tenho por você, que consegue falar de amor com uma naturalidade e uma verdade tocantes! Um abraço igualmente poético e carinhoso!

  • Nossa!!! Hipnotizada pela cantiga! Me veio a mente um jovem enamorado a cantar para a amada uma linda serenata! Mas talvez nao tenha sido correspondido e foi cantar as magoas a um amigo! Belissimo!!
    • Ô Angélica! Essa imagem de noites, jovens e serenatas - e desabafos - está mesmo no contexto da cantiga! E muito particularmente gosto dessas situações "de outrora"! Que feliz associação! Grato!!!

  • Sua poesia, caro Edvaldo, com a inclusão de vocabulos do português arcaico falado em época remota na península ibérica, adquire uma sonoridade deslumbrante. Deixa de ser apenas uma linda poesia e passa a constituir uma esplendorosa canção poética. Forma e conteúdo se equiparam mercê de sua fina erudição associada ao extraordinário talento para escrever lindas obras poéticas.
    • Grato, Francisco, meu amigo! Erudição se confirma na mestria da sua redação! Um motivo de orgulho para mim ter a sua apreciação do meu texto!

    • Grato, Elzana! Um privilégio ter a sua visita e comentário!

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