Posts de Edvaldo Rofatto (42)

FILHO

FILHO            (Plêiades - CPP)

Forjo em mim seu semblante,
Fôlego de amoroso sentimento
Fecundando o sentido da vida
– Frêmito vibrando o diapasão
Fulcral da sintonia pretendida:
Força do que sou na sua floração,
Fruto serei do que o Vô foi semente.

(E. Rofatto)

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DICOTOMIAS

DICOTOMIAS

Sol desmanchado
No céu das águas.
Eu olhava longe,
Catando sonhos
Como se catam conchas
À beira do mar cantante
Com suas manadas desabaladas
Agitando brancas franjas
E resfolegando ventas iradas
Em espasmos de fúria
Dissoluta em bolhas de espumas.
Eu ficava carregado de nadas.
Os sonhos eram conchas vazias.
Eu supunha reinos de fadas
Onde só canto do caos havia.
Outras manadas abriram asas noturnas,
Galoparam de encontro à luz,
Sacudiram franjas escuras,
E o mar sobreposto jorrou
Pérolas sustenidas
Sobre as areias
Onde caíram
Promessas
Partidas.

(E. Rofatto)

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Carpe Diem

CARPE DIEM*

Vençamos os muros,
Sem voos, sem asas,
Sem pejo que atrasa
O prazer que te juro.

Vivamos o agora
Sem aceitar pôr
Entre folha e flor
As longas demoras.

Sussurro e gemido
De dor ou de gozo
É bem duvidoso
Durar nos ouvidos,

Mas ficam na mente
Gravados a fogo,
À força dos brotos
De velhas sementes.

(E. Rofatto)

* carpe diem: expressão latina cujo significado é "aproveite o dia", viva o presente intensamente.

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VOAR

VOAR       (Plêiades - CPP)

Viajante em voo sem asas,
Vejo a imagem que penso.
Várzea e planalto múltiplo
Venço de olhos fechados.
Volante nos quatro elementos,
Voltei ao meu reino rútilo,
Vasto Eldorado de dentro.

(E. Rofatto)

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DESAPEGO

DESAPEGO

Porque a vida
Mostrou-me
Seu ritmo absoluto,
Já não me satisfaz
Postulado do mundo.
Quero alcançar a inefável
Harmonia regente de tudo,
Até de quem, a qualquer revelia,
For extravagante contrassenso
À disposição anímica de ser mero,
Ínfimo, desimportante até o cerne,
Para que, a seu tempo, venha saber
Que, do fim ao começo, se mais humilde,
No todo recompõe-se de modo mais imenso
Quem se aproxima de Deus, Que se apresenta só
Quando se profana a insustentável arrogância humana.
E, depois, nessa alta condição mínima, ter por mais bonita
Sua nova história se escrita por outra mão que não a própria
Para vivê-la com a aceitação dos que rejeitam qualquer presunção.

(E. Rofatto)

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Inefable.
.
Lo inefable se muestra
en el silencio de la mirada
profunda, dialéctica, encantada
desatando experiencias y certezas
que sabemos raramente comprendidas.
Ya no asusta la carencia ni la duda apasionada,
no nos mueve el temor blasfemo de otra increencia,
porque la Certeza desvanece por completo la inocencia
y la fe es solo eso: otra empinada y larga cuesta innecesaria.
Se hace piel en nuestra piel, sin ser locura, ceguera ni aislamiento
No es confianza en lo que dicen, cierta o incierta filosofía trasnochada
en parábolas , imágenes, cuentas y cuentos embebidos con parlanchines.
Es sencillo, es coherente. Es la Paz con el Amor y nos habita en los adentros
sin dudarlo, sin temores obsoletos ni acuciantes. Timoratos. Es sonrisa permanente.
...
Nieves Merino Guerra
07-09-2017

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(Deixo meu abraço e gratidão a Nieves, que muito me honrou fazendo parceria comigo

ao colocar o seu talento e a sua sensibilidade nesses versos de apurada sintonia.)

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ÚMIDO

ÚMIDO*
(Plêiades - CPP)

Úmido olhar do céu derrama
Unção da prece noturna.
Utopias hão de nascer
Ultimando de beleza
Usinas de amanheceres
Urdindo o cotidiano
Unânime na luz do seres.

(E. Rofatto)

* texto advindo de uma interação com Edith Lobato, a quem deixo meu abraço!

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CHAMADO

CHAMADO

Não existirá nos dias,
Sucessão de bois em fila
Quando a vida vai escoando
Amorfa, imemorial, agônica,
Nos corredores estreitos
De abatedouros cruentos.
Os meses dos calendários
Vindo e tombando de janeiro
A janeiro como as reses
Dobradas a golpes de aço
Por bruta força numismata
De capital ação mecânica.
Não estará nas ruas
Entre burla e dispersão
Nas esquinas que repetem
Rotas de vícios e enganos
Dos bêbados sedentos.
Não estará nas fábricas
Entre sirenes e ordens
Acordando opressão
Com firma reconhecida
Fabricando pobrezas.
Com brados e sussurros,
Não estará nas igrejas
Para remir das sombras
Tantos filhos obscuros,
Sem lucidez, só desatinos
De quem, cego, vislumbra
Vário rumo ou destino
Seguindo contábil suma
Ou simulado catecismo.
Longe estará das aras
Erguidas nos três reinos
Ao relento da matéria
Em inumerável estado.
Inumerável, pois o divino
Só se oferece além
Da forma que se expõe
Àqueles cinco sentidos.
Nem pode ser seu o nome
Que lhe deram os homens,
Porque a palavra humana,
Frágil escultura de sopro,
Ruiu sob o peso do cinismo;
Frágil corpo de tinta,
Manchou-se de impurezas.
Então, o silêncio se impõe,
Definitiva e única reza.
Todo o resto é insano,
Um total vezes mil nadas.
Bênção? Não precisar crer.
Alguém crê no que existe?
Mas quando eu o chamo,
Apenas me responde:

Alcançá-lo é sair
Para dentro de mim.

(E. Rofatto)

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A ESTRUTURA DA BOLHA DE SABÃO

A ESTRUTURA DA BOLHA DE SABÃO
(oficina:Desafio Poético)

Frágil, como só o amor pode ser,
Na memória, resiste ele, insistente,
Mais que a si mesmo sobrevivente,
Pois vive mais, se lhe é dado morrer.

Massiva estrela sem força a reter
A luz de que ela, cega, se ressente,
Lança no sem-fim clarão já ausente
Do corpo que não o pôde conter.

Em transposto cenário, a imagem
Fixa no olhar globo de água e sabão
No desgosto da própria desmontagem.

E a esfera multicor vira um vão,
Buraco negro do tempo em voragem
Do amor que é supernova em explosão.

(E. Rofatto)

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FILIAÇÃO

FILIAÇÃO

Entra pelos seus olhos a mesma luz
Dos meus tenros dias gloriosos
Num tempo que não se conta,
Impregnado de êxtase-agonia,
Homeostase a encher a vida de tudo
De que o coração já está cheio.
Repasse de geração a geração,
Meu filho se reencontra comigo
Vivendo longe de mim análogo enredo.
Ao pisar um chão todo desconhecido,
Leva como atávico destino
Telúrica herança do descanso da vista
Em ribeira de pálpebras
Cheias de memoriosas pastagens.
Foi arar seu futuro num eito ancestral,
Que sangue e suor de parentescas veias
Percorreram muito antes dele.
Eu e os meus em semelhante senda
Cumprimos a nossa caminhada
Por campos iguais a esses,
Onde agora ele deixa, sobre
As nossas, a sua pegada.

(E. Rofatto)

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ÂMBAR

ÂMBAR

Sumo
É o que escorre
Não só do fruto sempre mordido,
Como também do pensamento
Raras vezes moído
Por ser rala a coragem.
Líquida, quando há fome,
A vida escorre,
Represado rio entre represas
De tempo e sentimento.
Fio de água e sal.
O fluir sem fruição.
O amar – o gosto
Do que é mais sumo
(E nele, a verdade)
que seiva doce
(o suco do beijo)
Com sabor de não saber
O quanto é sumarento
O amor em seu curso.
E o amargo fica
A travar a face,
E se multiplica
No sumo,
Que vira âmbar,
Uma gema a guardar,
Em essência,
Dentro do ocre,
O que foi amor
E que não some.

(E. Rofatto)

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ANEL DE NOIVADO

ANEL DE NOIVADO

O tempo é um rio que deságua em nada.
Em seu leito adormece toda pedra
Rolada na correnteza das horas
À espera de quem resgata lembranças.

Esta aljava de luz cristalizada,
Neste momento em que o amor medra
Posturas de cortesia, Senhora,
Ela, eu vos entrego no anel das esperanças.

Aqui me tens, um cavaleiro vindo
A teus pés, como nos tempos de antanho,
A ofertar-vos prenda de amor tamanho,

Que, já velhos, de dentro do rio surgindo,
Hei de vos trazer desse tempo findo
Brilho de joia ao que vos for estanho.

(E. Rofatto)

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CONSTRUÇÃO

CONSTRUÇÃO

Vossa memória, pai,
É uma casa de taipa,
Símbolo de permanência,
A despeito das intempéries
Que chegam e passam.
Metafísica, sobreleva-se
A tudo que não é conchego
E, tão simples, persiste
Em toda paisagem minha,
Com janelas e portas abertas.
Mais que natural, etérea.
Vosso barro e vosso sangue
Compuseram a argamassa
Para erguer esta morada, taipa
Sobrevivente à morte dos momentos.
Ainda me encosto a estas paredes
E me sustento no vosso amparo
Feito do que se fez eterno, pai:
Vosso barro e vosso sangue
Para além do tempo raro.

(E. Rofatto)

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ESTIMATIVA

ESTIMATIVA

Talvez o destino assim determine,
Que do verso eu não seja um virtuose,
Mas, se nele houver o que me define,
Toda falta se encherá dessa dose.

Sem moralismo em dourada vitrine
Que da madeira oculta a necrose,
Quem sabe só em meus olhos se ilumine
Meu heroísmo sem apoteose.

Venci a mim mesmo nas lutas sem clavas.
Sem troféus, eu venci o escuro dos dias.
Só não venci a distância a que irias.

Eu fui porta fechada, sem aldravas.
Não pude ser o que tu desejavas,
Mas fui bem mais do que tu merecias.

(E. Rofatto)

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Escrituras

ESCRITURAS

No derrame de verbo e ação,
Repete o inquieto coração
A suma escrupulosa de um rito
Dos velhos livros em que debito
A paixão crescente a letras de ouro 
Tornadas lírio e chumbo: tesouro.

Gargantas de antigas ampulhetas
Ecoam sons de muitas facetas
Na velada alquimia dos monges, 
Que sabiam evocar dos longes
Os espíritos das letras mortas
Renascidos com força em aortas

De sintaxes pulsantes de dor
E gozo, rebentando em clamor,
Comunhão de corpo e espírito.
No meu miserere ficam escritos 
Os arcanos que acompanharão
Os cruzamentos da minha mão.

Às minhas perguntas sem respostas,
No reverso do que a vida aposta,
Um cicio pode encontrar a foz,
Um grito talvez comova algoz.
Assim, apresento-me à Esfinge,
Que desafia mão e laringe

E exige, para salvo-conduto,
O verbo conformado em tributo:
– Decifra-me em doce mistério,
Ou devoro-te, no ministério
Em que dúvidas tu enclausuras,
Para triunfo das minhas usuras!

(E. Rofatto)

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Cinzas

CINZAS

Se nosso desejo negar quem fomos,
A verdade nos abrasará as córneas
De onde lava correrá sobre o amor.
Calcinado, ele se espalhará no ar,
Altares e deuses pulverizados
Em meio a densas nuvens de rancor.

Nem sobrarão promessas ressequidas
Pela temperatura dos olhares
– Tudo que seríamos para sempre
Cremado com certezas provisórias.
Mas, entre arquiteturas de saudades,
Serei morada da sua lembrança.

E, de quando em vez, virá a essa casa
Para ver deposto em salas e quartos,
Amortalhando móveis e objetos,
O sentimento reduzido a pó,
Que também cobrirá o vazio das horas
Em que ficará olhando as paredes.

(E. Rofatto)

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CPP