Posts de Edvaldo Rofatto (56)

QUANDO A LEMBRANÇA COM VOCÊ FOR MORAR

 

formatado por Safira

QUANDO A LEMBRANÇA COM VOCÊ FOR MORAR

Incólume juventude
Dos dias sem luz de espelhos,
Até que um poente ameno
Trouxe uma noite que viu
Meu rosto em outra face,
À feição do meu feitio.

Na madrugada, sozinho,
Num quarto estranho, fiquei
Deitado, a varar paredes
Com olhos largos e estáticos,
Para vencer labirintos
Sem barbante salvador
Marcando trilhas nos mapas
De dois esquivos amantes.

Ainda que o tempo apague
O brilho de algum setembro,
Fazendo escuro o jardim,
Não se apagarão meus rastros
Indo ao seu encontro em mim.

Lembro que adiantei os passos
Buscando o mítico lago,
Nascente do meu narciso
Abotoado em seus olhos,
Paixão na qual indiviso
Sensível de Inteligível,
O que é forma ou ideia.

Sonho? Fascínio? Destino?
Quimera.

Foi assim naquela tarde
Quando meu olhar espreitou
Por duas fendas douradas
As águas em que viria,
Mal chegando, já partindo,
O Amor envolto em luto.

Em tão breve travessia,
Pagou óbolo de prantos
– Passageiro de Caronte*,
Contou poucas alegrias
E dobrados desencantos.

(E.Rofatto)

(*Caronte: ente mitológico que transpunha a alma dos mortos para o mundo subterrâneo do deus Hades/Plutão)

 

Saiba mais…

HERMETISMO

hermetismo-Vejo frutas de cera na mesa, E me vem nos ares aroma de manga Do quintal da velha casa da infância Para sempre liberta da canga do tempo. Não há engano: quintessencial, Impõe-se no meu pensamento O etéreo mundo abstrato e real. Reconheço…
Saiba mais…

CORDIAL

CORDIAL

Deixa-me como tributo um abraço,
Que o beijo moço o tempo desconta
Da velhice deste coração lasso
Devoto ao sonho que a razão confronta.

Em silêncio e distância é que refaço
Canto e comunhão do que foi sem conta,
E exuma o passado o futuro passo
Que irá do escuro ao claro que desponta.

Depois, braços em curvas paralelas
Para o traço de outra geometria
Formarão quatro luas nas janelas

Dos olhos abertos a um novo dia
E eis que luz solar entrando por elas
Fará do peito ateu uma abadia.

(E. Rofatto)

Saiba mais…

REMINISCÊNCIAS

REMINISCÊNCIAS

     Mais clara a manhã que a sala, quando ela chegou.
     A senhora no sofá. Cabeça e ombros baixos. Álbum no colo. 
     Ergueu pesadamente o rosto.
     - Gosto das suas fotografias antigas... Tudo tão real...
     A moça, muito pintada, pouco vestida, perturbou-se.
     Dobrou os joelhos, aflita, apertou o braço da velha.
     - Eu fui uma boa menina, não fui? Não fui?
     E o seu reino de ilusões ruíu no colo da sua mãe.

(E. Rofatto)

Saiba mais…

FILHO

FILHO            (Plêiades - CPP)

Forjo em mim seu semblante,
Fôlego de amoroso sentimento
Fecundando o sentido da vida
– Frêmito vibrando o diapasão
Fulcral da sintonia pretendida:
Força do que sou na sua floração,
Fruto serei do que o Vô foi semente.

(E. Rofatto)

Saiba mais…

DICOTOMIAS

DICOTOMIAS

Sol desmanchado
No céu das águas.
Eu olhava longe,
Catando sonhos
Como se catam conchas
À beira do mar cantante
Com suas manadas desabaladas
Agitando brancas franjas
E resfolegando ventas iradas
Em espasmos de fúria
Dissoluta em bolhas de espumas.
Eu ficava carregado de nadas.
Os sonhos eram conchas vazias.
Eu supunha reinos de fadas
Onde só canto do caos havia.
Outras manadas abriram asas noturnas,
Galoparam de encontro à luz,
Sacudiram franjas escuras,
E o mar sobreposto jorrou
Pérolas sustenidas
Sobre as areias
Onde caíram
Promessas
Partidas.

(E. Rofatto)

Saiba mais…
CPP