Posts de Mario Sergio de Souza Andrade (96)

MORTE

MORTE

 

Morte, seja bem-vinda,

Porque não me levaste ainda?

Prefiro morrer à tua sorte

Do que saber-me morto em vida.

 

Deste-me o prematuro câncer

Para não me esquecer que existes,

Então, para onde olham

Esses teus olhos tristes?

 

Tive a sorte do amor perfeito,

Ainda que desfeito em feto

No ventre desconhecido.

 

O tempo me trouxe flores

De jardins que nunca pisei,

Hoje as flores do meu coração

Cobrirão o meu caixão.

 

Dá-me adora o riso

Do teu humor encardido,

Será meu último improviso

Na mentira de ter vivido.

 

 

Mário Sérgio de Souza Andrade – 01/11/2017

 

 

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A VIDA É ISSO

A vida é isso mesmo,

Uma porrada aqui, outra ali,

Tudo tem seu preço.

Mas às vezes é bom ser travesso,

Viver do avesso,

Começar do começo,

Terminar o que não terminou.

Você pode contar aos outros

Uma vida que você não leva,

Uma alegria que você não sente,

Uma riqueza que você não tem.

Ou vestir uma roupa que você não gosta,

Fazer regimes modernos,

Sem carboidratos, sem glúten,

Mas com glúteos bem torneados.

Comprar carro do ano,

Ter uma casa bacana

(ainda inacabada),

Viajar nas férias

Ou ter uma televisão cinquenta polegadas.

Pode até saber dois idiomas,

Ter alguns diplomas,

Entender a tecnologia

Que facilita o dia-a-dia.

Mesmo assim

Ainda faltará algo,

Algo que você não alcança,

Algo que você não sabe o que é,

Mas finge ser e ter.

De repente a meta não fecha,

O telhado da casa está coberto de limo,

O carro não é do ano,

O terno começa a puir,

Você engorda, a coluna dói,

Seus olhos não leem mais os jornais.

Apenas as linhas do tempo

Sabem aonde você errou,

Mas você nunca dirá_

O que passou,

Passou...

 Mário Sérgio de Souza Andrade – 24/09/2017

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INEVITÁVEL

Eu teria sido, quem sabe, um advogado,

Desses engravatados, cabelos penteados,

Que ganha muito dinheiro,

E nunca está feliz.

Seria, talvez, um engenheiro,

Construiria um mundo inteiro

E ainda assim não saberia onde morar.

Se funcionário público fosse,

Morreria de tédio.

Um agricultor até,

Plantaria um pé de mangas

E dormiria eternamente à sua sombra.

Motorista, eu não seria,

Não saberia a distância

Entre a terra e o céu.

Cardiologista, não,

Não poderia tratar o coração dos outros

Se não consigo tratar meu próprio coração.

Ainda se fosse um colecionador,

Ao invés de coisas,

Colecionaria amores.

Mas a vida quis

Que eu fosse poeta,

Pois só com poesia a vida se completa.

 

Mário Sérgio de Souza Andrade – 02/09/2017

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FIM DE UM MUNDO

O FIM DE UM MUNDO

sim, o mundo acaba amanhã.

acorde mais cedo ,

antes do fim da manhã,

escove os dentes e veja_

este no espelho é você.

arrume bem sua cama,

diga eu te amo para alguém

que compartilha o adeus

nas mesma casa dos seus.

em cima da mesa,

o leite o pão o café,

o beijo guardado da noite,

um jornal qualquer.

a Lua em cima do muro,

a flor pisada no chão,

o coração da palavra

sobre o papel do pão.

calce os sapatos depressa,

escolha o que vier,

se tiver sede, beba água,

o tempo está contra você.

para garantir

dê duas voltas

na gravata

sobre o pescoço.

junte as fotos guardadas

leve o terço e a cruz

reze tres vezes dobrado

abra a janela azul,

o céu não é mais,

ao longe,

nenhum oceano.

sinta o asfalto

ruir sob seus pés,

olhe fundo,

olhe a fenda,

defenda-se.

esqueça os planos

os donos da sua casa,

a aluguel,

o documento  assinado.

o compromisso é outro

que chamem de louco,

que acendam o fogo,

que seu corpo queime

na fogueira mística.

o mistério dos óculos escuros,

o que havia nas prateleiras,

as coisas que se espalhavam

como cobras cascavéis

bailando sobre os papeis...

Mário Sérgio de Souza Andrade – 27/08/2017

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CANDELABRO

não conheço seus pensamentos,
onde seus olhos se escondem,
mas aos ecos das lembranças
o passado responde

de repente brilha
o candelabro da noite

chove em algum lugar do mundo,
quebra o silêncio que morre
no canto esquerdo dos lábios

o assovio do vento
entoa madrugada,
nuvem cansada do dia
repousa em suave poesia

sua ânsia de me querer
entre os lírios e folhas
do amanhecer.

Mário Sergio de Souza Andrade - 26/08/2017

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OU NÃO...

OU NÃO

 

Porque dizer eu te amo se não te amo?

Se não te amo,

Porque disse eu te amo?

Se não amei,

Como pensei em amar?

O amor não era o mar

Que inundaria meu coração,

O amor não era a dádiva divina

De minha vida mesquinha,

O amor não chegou à minha janela,

O sol se escondeu nesse dia.

A Lua mentiu para as estrelas

E as belas coisas que existiam

Murcharam como as flores nuas do quintal.

A amor não era mal, mas não era normal,

Como o sal que ardia a ferida,

Como os dentes que mordiam as gengivas.

Mas eu não saberia amar,

Não consigo olhar sobre os muros

Para chegar ao teu quarto,

Quanto mais ao seu coração.

Coço as mãos para ter mais dinheiro,

Amarro patuá nos bolsos das calças,

Não tenho espelhos em minha casa,

Não passo sob escadas suspeitas,

Meus sonhos são tão ruins

Que acordo com medo de morrer,

Então porque

Ainda penso em te amar

Mesmo sem nunca

Ter te amado?

 

Mário Sérgio de Souza Andrade -  25/08/2017

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