Posts de Mario Sergio de Souza Andrade (68)

ATMOSFERA DO MEDO

ATMOSFERA DO MEDO

Estava no colo de Deus, questionando minhas culpas.

Aos olhos do mundo foram julgadas e sentenciadas.

Perguntei aonde estava o perdão, clamando absolvição.

Minhas mãos são culpadas pelos erros,

Mas incapazes de ferir.

Sou filho do mar e da Lua,

Minha alma é nua.

Ergui meus olhos ressabiados

Procurando então a semente do meu pecado.

Deus estava calado.

Eu, em meus sonhos,

Transitando na vastidão do universo,

Clausura celestial.

Meu corpo equilibrando-se entre a paz e o castigo,

Chagas nos pensamentos.

Mas o tempo de Deus é diferente do meu,

Passa nas lágrimas das chuvas.

Às vezes a discórdia adormece no silêncio.

Tento não sucumbir sobre o Seu manto,

Ainda preciso do perdão.

Meu coração responde em palpitares espaçados,

Sorvo o humor da atmosfera.

A Terra me condena.

Levanto-me do seu colo

E carrego minhas culpas para outra dimensão.

 

Mário Sérgio de Souza Andrade – 26/07/2017

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DESLUMBRE

DESLUMBRE

 

Como sob a sombra de uma árvore,

Sentindo a brisa bater no rosto,

Sabendo a tarde que se aproxima,

Querendo a Lua,

Que tudo ilumina.

 

Como o silêncio da própria vida,

Como se as mãos

Estivessem estendidas,

Como se fosse uma oração

Que chega ao mais profundo do coração.

 

Como a imitação das cores

Cobrindo a azul de todo o céu,

Como o papel que chora uma poesia.

 

Como a verdade ainda secreta,

O que se esconde dentro da alma,

O que se revela na calma,

O que surge suavemente

E se sente elevar

Até fazer agitar o próprio mar.

 

Como uma curva no horizonte

Que não se sabe o que esconde

Depois do anoitecer.

 

Como o desconhecido

Que se torna querendo,

Mesmo sem saber porque.

 

Como a promessa nunca feita

E é cumprida por si só,

Como o pó que se espalha na estrada,

Quando nada nos faz parar.

 

Como a incerteza do destino

Que disfarça as aparências

E com paciência

Nos torna cada vez melhores.

 

Como a sorte que sorri de repente,

Como o abraço que chega espontâneo,

Como o beijo que estala na pele,

Como a força de querer

Cada vez mais e mais,

 

Como quem nunca, jamais

Pensou ser capaz de sentir

O universo se abrir à hora

Do amor chegar.

 

Mário Sérgio de Souza Andrade – 21/07/2017

 

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SÚPLICA


VOLTA

Não importa quantas vezes não,
A frequência do tom,
A insistência do som,
Se é outono ou verão,
Se o mundo desistiu de nós,
Se apesar de tudo não chover,
Se A Lua brilhar,
Se o bem querer viver,
Estar, ser, permanecer, ficar,
Quantos obstáculos teremos de superar
Ou quem nos dará razão,
Para quais ouvidos poderemos dizer
O tanto que nos faz pensar,
Por que devemos ser
O que realmente não somos.

Não somamos ao universo
Uma gota da perplexidade
De um olhar apaixonado.

O que ou quem estará contra nós,
O calar da nossa voz,
O atroz castigo de viver
Dentro do que não somos,
A soma da nossa vergonha,
A desculpa da nossa desonra,
O castigo ao nosso pecado,
Sem nunca termos pecado.

Não nos interessa estarmos inebriados
Nesta solidão solene,
As taças quebrarão sem as nossas mãos.
O coração que reclama dentro do peito,
Bate por que ama.

Neste mundo invisível
Vestimo-nos apenas
Com a pele coberta de alma.

Neste mundo invisível
Vestimo-nos apenas
Com a pele coberta de alma.
Sem artifícios, o sacrifício
É ceder ao que não faz sentido.

Viver por apenas ter vivido,
Mesmo com o sofrimento
Deste amor que teima
Em resistir aos ventos da saudade.

                                                                                                                                                                                Mário Sérgio de Souza Andrade - 09-07-2017


"Quantas vezes o poeta erra nas palavras, somente por sentir mais do se pode dizer"

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CICLOS

CICLOS

 

O mundo é redondo, mas a vida é quadrada...

Se eu tivesse que tabular minha vida, entre tantos encontros e desencontros, encantos e desencantos, ter vivido em tantos cantos, tantos risos e prantos... meu mapa astral teria mais céus do que estrelas.

Toda vida no princípio é monótona, nove meses flutuando em líquidos, sem ao menos saber nadar, recinto fechado, sem grandes aventuras, marcada por sucessivos afagos maternos e o incômodo da questão: é menino ou menina?

É mais sensato pular para os dez anos, quando minha bochecha era alvo das tias de bigode grosso e meus pés escravos da lama. Sorria com fartura e fazia da arte de viver a expressão maior de felicidade, porque eu iria me incomodar com o amanhã? Bastavam dois gravetos para fazer o gol, ou uma forquilha de goiabeira para o estilingue. Não, não havia pecado, era parte da composição homem/natureza o sentimento de caçar.

Por falar em caçar, avancemos para os quatorze anos, tempo de guerra, tempo de luta, uma menina para cada sorriso, um beijo para cada dedo, uma aventura para cada pedacinho do corpo, des-co-bri-men-to, palavra chave para a adolescência, não o julgo sórdido dos adultos, adúlteros, adulterados, que faziam tudo errado e queriam nos ensinar o que era certo, justo nós, que amávamos livre e sinceramente cada criatura, e em cada romance colocávamos toda força de nossos corações.

Mas os corações crescem após os vinte, momento em que Deus sorteia quem será o que e a quem deverá pertencer. Hora de se virar sozinho, em todos os sentidos, batalhar por cada grama de tempo e cada pedaço de sentimento que vingar dentro desse tempo, hora de cuidar de si e de quem você ama, de prover mais do que viver, de saber mais do que sentir e terminar com a certeza de que não era exatamente aquilo que deveria ter sido feito.

Mas só nos lembraremos disso aos quarenta, quando a distância entre ser jovem ou velho é cada vez próxima, só dependendo do estado de espírito de cada um. É quando nasce a dificuldade de se lidar com o passado, mesmo ele estando tão presente em cada segundo dos dias que vivemos, ou viveremos, ou viveríamos... Tão longe do que deveria estar próximo e tão perto do que deveria estar distante. O passado é a mola que impulsiona a nossa verdade neste período. Idade da resistência, da quase desistência, do entendimento do nada, questionamento de tudo, a inconsistente busca por respostas outrora adiadas pela juventude. Idade para se cuidar, não se deixar cair na soberba tentando adiar o relógio da vida, que anda cada vez mais rápido...

E rapidamente se chega aos cinquenta, tempo de relaxar, repensar suas atitudes, curtir a praia, a natureza, ir fundo no sorriso, usar havaianas, camisa larga, comer sem culpa, sentir sem medo, tornar-se cúmplice das estrelas, mesmo que o físico não corresponda às expectativas, somados os esforços, a lei da compensação perde a virgindade com você. Concordando ou não, foram cinco décadas descontinuadas, de múltiplas personalidades em uma só alma, um grande complexo de pensamentos, fábrica de ideias e ideais. Não importa, você ultrapassou a barreira dos trinta e venceu a teimosia dos quarenta. Nada mais consolador do que se enxergar no espelho como você realmente é, não como gostaria de ser, ou pior, como os outros gostariam que você fosse. Salvo os direitos autorais de Deus, nem todos foram feitos a sua imagem e semelhança... Renascimento do amor próprio e do próprio amor, face à proximidade do fim tudo se torna mais intenso e de indiscutível importância. O amor, que já era incalculável, torna-se aliado da almejada eternidade. Melhor tempo para ser amado e para amar, pois o amor chega vestido com as malhas da verdade e capaz de superar os limites do impossível. De difícil compreensão este vasto sentimento, que supera a luz do dia e a solidão das noites, que devolve a saudade ao colo de quem a criou, que reflete a transparência da alma e não impõe limite às palavras. Simples, e por ser tão simples de ser vivido, raramente é compreendido. Somente aos cinquenta é possível ter noção da coisas que o nosso coração inventa. O resto é tempo, o agora, o que virá e o que já foi, na inexpugnável muralha do destino.

 

 

Mário Sérgio de Souza Andrade – 07-07-2017 

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SUSPIRO

SUSPIRO

 

O adeus não é despedida.

É o ponto de partida

Para uma nova vida.

 

Acenar ao passado

É acender a fagulha da saudade,

Até que a chama do tempo se apague

No lago imenso da liberdade.

 

Chorar ao triste vento

Os lamentos do coração,

Tirar com as mãos

A ferida dos sentimentos.

 

Sonhar não faz ressuscitar,

E o que morre permanecerá

Apenas no espelho do olhar

Refletindo o desejo de voltar.

 

Mário Sérgio de Souza Andrade – 01-07-2017

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ÉTER

 

ÉTER

 

Não quero ser dono do mundo,

Minhas mãos não alcançam tal sonho.

Tenho meus versos, nada mais preciso,

Além de um amor verdadeiro.

Estou com a sorte ao meu lado

Por ter vivido pouco até então,

Meu coração irá mais longe

Do que as palavras que eu possa criar.

Aonde estarei, não importa,

Nenhuma distância é longe o bastante

Para a desistência da grande esperança.

Quero caminhar lentamente

E nesses caminhos observar

A flor que brota silenciosamente

Mas deixa um aroma de paz no ar.

Não sei o quanto é belo tudo o que verei,

Mas sei que entre o feio e o belo

Estão os olhos para crer

Que em cada ser dessa natureza

Algo de bom há de existir.

Não pereço sob a sombra de uma árvore frondosa,

Apenas vejo o vento soprar pétalas vermelhas

Mesclando à verde liberdade desse chão.

O que se sabe, é que pouco se sabe,

E a dúvida ainda está no meio,

O seio da vida alimenta o sonho da eternidade.

 

Mário Sérgio de Souza Andrade – 21/06/2017

 

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RETROCESSO

Você pode estar sorrindo agora,

Deve ter escovado os dentes,

Dobrado a roupa de cama,

Tirado dos pés as meias do inverno.

Com certeza deixou o café esfriar

Enquanto aquecia a água do banho.

Seus olhos verdes, às vezes azuis,

Vagam lentamente em pensamentos.

Seu carro está na garagem.

Por enquanto

Ainda há tempo para o último verso,

Outros olhos pequenos aguardam seus braços.

As pontas dos seus dedos massageiam suavemente seus cabelos,

Ainda se ouve a música que vem de dentro.

A água que escorre

No caminho dos seios ao colo

Excitam as melhores lembranças

Do amor de ontem.

O enrolar da toalha é uma dança

Que convida ao par,

Mesmo que seja apenas

Uma imagem no espelho para sonhar.

Caminhar até a beira do leito

É o jeito de enfeitar o dia e a face.

Intenso batom vermelho

Nos intensos lábios vermelhos.

O dia tem poucas horas a serem vividas.

O pão não tem tempo para a manteiga,

O verbo da próxima hora urge no papel.

O céu está bonito, combina com o vestido azul.

De louca, apenas o excesso de perfume

E um lume doido no olhar.

O cachorro late, o vizinho acorda, a música ainda toca,

A rotina pede desculpas,

Mas os dias nunca terminam.

O carro tem pressa, tudo é distante,

Tudo é tão longe, tão longe do amor que teve,

Tão longe do que poderia ter vivido

Se desse ouvido ao coitado do coração.

Mas o não da razão prevalece sobre o sim,

E o fim que nunca existiria

Termina quando as estrelas surgem com força

Num universo estonteante

Que não permite que tudo

Volte a ser como era antes.

 

Mário Sérgio de Souza Andrade -  10/06/2017

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EXANGUE

EXANGUE

 

Uma última vez

Vi tuas letras.

Senti tuas mãos trêmulas sobre o papel,

O véu de rimas descendo ao nível das linhas.

As mesmas mãos que sangram o esmalte

Sobre o espelho da alma.

Não severamente letras alinhadas em púrpura,

Curvas e sinais delineados na rubra face,

Mas letras ladrilhadas de saudade

De algo que jamais vai conhecer.

Vi o tecer de sonhos perdidos,

Escondidos sob uma vergonha inalada

Nos ares em que a poesia se espalha

Soprando uma nudez desconhecida.

Vi que a vida que tocaste em frente

Ficou atrás dos próprios pensamentos

Varrida pelos vários e constantes ventos.

Vi a cicatriz que trazes em tua mão esquerda

Causada por teus dentes

Saboreando o próprio sangue.

Morrerás exangue como todos nós

E terás teu pó

Infectando toda terra santa.

 

Mário Sérgio de Souza Andrade – 15/05/2017

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ÚLTIMO CICLO DA VIDA

ÚLTIMO CICLO DA VIDA

 

O que me resta.

Apoiar o cotovelo

sobre a mesa e

esperar a vida acabar.

 

Não sei voar,

Então meus sonhos

resumem-se a um

chão onde todos

pisam.

 

Meus pensamentos

são cupins da alma.

 

 A graça da Lua hoje

me machuca,

Estrelas pontiagudas

atravessam meu

peito.

 

Estaciono as horas

no pavilhão da

saudade e fecho a

porta atrás de mim.

 

Entre o fim e o

começo

a vírgula dominante

da dúvida surge

impiedosa como

a lâmina

da consciência.

 

São tantos desvios

no labirinto da vida

que não sei mais

onde podem

se cruzar antes da

morte.

 

Sem a sabedoria

dos astros, entrego a

luz que brilhava em

meus olhos e visto

a mortalha que me

devolverá ao lugar

onde tudo começou.

 

Aposto meus dedos

que vou perder,

Mesmo não tendo

nada a perder.

 

Mário Sérgio de Souza Andrade – 15/05/2017

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RESISTÊNCIA

Tenho joelhos frágeis,

Não me ajoelho.

Minhas mãos estão gastas

E meus olhos, secos.

 

Foram-se as curvas do caminho,

A vida tornou-se uma reta interminável.

 

Os sonhos se perdem no espaço,

Coitada da minha aorta...

 

É faca, foice,

Bisturi,

O último que ri.

 

São vorazes os ursos do paraíso,

Presas afiadas, pedras colocadas

Entre a mentira e a verdade.

 

Nada é verdade

Além da minha face avermelhada,

Luto nos olhos,

Vergonha na cara.

 

A tristeza remete à poesia,

A rara ciência do desconhecido,

O viver, mesmo sem valer a pena,

Apenas por ter vivido.

 

 

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DEPOIS DO TEMPO

DEPOIS DO TEMPO

 

Não há nada de moderno em usar cabelos compridos,

Nós já o fizemos.

Não há avanço nos protestos,

Nós já o fizemos.

Colocamos flores em bocas de canhões,

Servimos de café nossos algozes.

Caminhamos e cantamos,

Erguemos o nome da razão,

Em nossos corações,

A bandeira colorida,

Baluarte da vida...

Sangue derramado,

Heróis crucificados.

Intenções desvirtuadas,

Estradas perdidas.

Erguemo-nos em sinais,

Nossas mãos agitando-se ao vento,

A tempestade um momento

Que o tempo não pôde apagar.

Sonhávamos, como se sonha agora

Com a hora de termos a paz

Bem à frente dos nossos narizes,

Comparamo-nos aos outros países,

Julgamos a tantas pessoas,

Quais as boas ideias

Que nos trouxeram os idealistas?

Nossas vistas cansadas

Das pernadas que esta vida nos dá

Apenas no preparou para o novo futuro,

O problema é que mudaram as pedras,

Mas não destruíram os muros...

 

 

Mário Sérgio de Souza Andrade    01-05-2017

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TEMPO PERDIDO

O terno que eu vestia

Tinha o tamanho do seu abraço.

Meus sonhos

Davam nós na minha gravata.

Os sapatos lustrados

Refletiam o que seria o futuro.

Meus olhos quadrados

Iriam ver de tudo nesta vida.

Eu nem sabia da distância

Entre minhas mãos

E a fechadura da porta.

Não tinha medo,

Tinha esperança.

Nasci de uma criança

E me criei antes de um mês.

Tornei-me a rotina cansativa dos dias,

Ensimesmado no grampeador vermelho.

Eu já nasci velho,

Caminhava entre as janelas

Com medo do reflexo do Sol.

Meu arrebol era um aquário.

Sentia as dores que ninguém merece sentir,

E vivia as mentiras que jamais criei.

Pensava em ser grande, e não me tornei,

Ser grande era um pensamento~

De me tornar rei.

Errei todas as equações,

Tornei-me matematicamente indecifrável,

Um notável ninguém.

Nada se narrava em minha história

Que não fosse a parca memória

De quando eu ainda vestia azul.

As membranas de meus dedos

Tinham medo de se expor

Em um papel inexpressivo

E sem amor.

Quieto, como o sapo observador

Que espia a pedra

E sabe que ela tem sabor.

Mas os cordões dos meus sapatos

Juravam a minha queda ao chão,

Equilibrava-me apenas com uma mão

Sobre os móveis que não eram meus

E de nenhum dos meus irmãos.

Achava que o tempo me daria

A necessária sabedoria,

Mas o tempo passou,

Passou a minha infância,

E continuo na ignorância.

Sem muita relevância

A distância entre mim e os outros

Cresceu silenciosamente,

E eu só tinha na mente um pensamento,

Apenas um pedido,

Por favor,

Devolvam-me o tempo perdido...

 

 

Mário Sérgio de Souza Andrade       01-05-2017

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CPP