A FERRUGEM TEM MEMÓRIA

 

O portão não esqueceu a mão que o empurrava.

Guarda, no vermelho que lhe come as dobradiças,

o nome de cada inverno que atravessou

sem pedir licença nem óleo.

 

Ninguém a ensinou a lembrar.

Foi pouco a pouco, na umidade das madrugadas,

que o ferro aprendeu a fazer da perda

um ofício de paciência.

 

Eu também enferrujo, e o faço em silêncio,

com a discrição das coisas sérias.

Há em mim uma dobradiça que range

quando passa o nome de certas pessoas,

e um parafuso de domingo

que nunca mais girou direito.

 

Preciso ser preciso:

a ferrugem não é o fim do ferro,

é o ferro lembrando

que já foi forja, que já foi fogo,

que já foi, antes de portão,

um desejo de durar.

 

Passo a mão na grade.

Fica na palma um pó de laranja triste,

fina assinatura do tempo

em quem não soube defender-se.

Limpo na calça, e a calça guarda.

 

Talvez a memória seja isto:

não o que a gente conta,

mas o que o corpo oxida em segredo

e entrega, sem aviso,

ao primeiro toque de chuva.

 

Fico diante do portão

como diante de um velho parente

que perdeu a fala e conserva o gesto.

Nenhum de nós abre.

Nenhum de nós fecha.

Ambos sabemos de cor o que custa durar.

 

 

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Kleber Luis Antônio Pinheiro
Poeta e educador social.
Atuo com educação social e escrita, desenvolvendo projetos e textos que aproximam arte, escuta e transformação comunitária.

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Comentários

  • Belo versificar, caro Kleber. Muitíssimas ferrugens são o retorno cíclico de ferrugens telúricas, após vivenciarem a impermanência dos lumes de metal. Assim,  por vezes, a humana arca dos desejos.

    Abraço.

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CPP