O portão não esqueceu a mão que o empurrava.
Guarda, no vermelho que lhe come as dobradiças,
o nome de cada inverno que atravessou
sem pedir licença nem óleo.
Ninguém a ensinou a lembrar.
Foi pouco a pouco, na umidade das madrugadas,
que o ferro aprendeu a fazer da perda
um ofício de paciência.
Eu também enferrujo, e o faço em silêncio,
com a discrição das coisas sérias.
Há em mim uma dobradiça que range
quando passa o nome de certas pessoas,
e um parafuso de domingo
que nunca mais girou direito.
Preciso ser preciso:
a ferrugem não é o fim do ferro,
é o ferro lembrando
que já foi forja, que já foi fogo,
que já foi, antes de portão,
um desejo de durar.
Passo a mão na grade.
Fica na palma um pó de laranja triste,
fina assinatura do tempo
em quem não soube defender-se.
Limpo na calça, e a calça guarda.
Talvez a memória seja isto:
não o que a gente conta,
mas o que o corpo oxida em segredo
e entrega, sem aviso,
ao primeiro toque de chuva.
Fico diante do portão
como diante de um velho parente
que perdeu a fala e conserva o gesto.
Nenhum de nós abre.
Nenhum de nós fecha.
Ambos sabemos de cor o que custa durar.
Comentários
Belo versificar, caro Kleber. Muitíssimas ferrugens são o retorno cíclico de ferrugens telúricas, após vivenciarem a impermanência dos lumes de metal. Assim, por vezes, a humana arca dos desejos.
Abraço.