Anatomia de um Corpo Que Segura

 

Tenho uma dor que mora no lugar certo do corpo

sob a costela quinta, à esquerda,

onde os médicos dizem que fica o coração

e eu digo que fica tudo.

 

Não é metáfora.

É anatomia.

 

Aprendi a engolir sem que a garganta denuncie,

aprendi o rosto que não trai,

o pulso que se comporta

mesmo quando por dentro

alguma coisa está desabando

devagar,

como prédio velho que não faz escândalo,

só cede.

 

Preciso ser preciso:

não estou falando de tristeza comum,

essa que passa com o tempo e um copo de água.

Falo do tipo que cava,

que faz morada,

que aprende os hábitos da casa

e começa a pagar conta como se fosse sua.

 

Há dias em que sou só um corpo

segurando outro corpo por dentro

o que eu era

antes de aprender a mentir tão bem

pra minha própria pele.

 

Toco o peito e não sinto nada de estranho.

É isso que assusta:

o quanto o extraordinário

aprendeu a caber no ordinário,

o quanto a ferida

aprendeu a não sangrar visivelmente,

só por dentro,

só onde ninguém

precisa saber.

 

Não peço socorro.

Já não sei mais como se pede.

Só deixo aqui,

frio,

exato,

o registro de que existo

inteiro

e quebrado

ao mesmo tempo

 

e que isso,

de algum jeito bruto,

também é uma forma

de continuar vivo.

 

 

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Kleber Luis Antônio Pinheiro
Poeta e educador social.
Atuo com educação social e escrita, desenvolvendo projetos e textos que aproximam arte, escuta e transformação comunitária.

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