Tenho uma dor que mora no lugar certo do corpo
sob a costela quinta, à esquerda,
onde os médicos dizem que fica o coração
e eu digo que fica tudo.
Não é metáfora.
É anatomia.
Aprendi a engolir sem que a garganta denuncie,
aprendi o rosto que não trai,
o pulso que se comporta
mesmo quando por dentro
alguma coisa está desabando
devagar,
como prédio velho que não faz escândalo,
só cede.
Preciso ser preciso:
não estou falando de tristeza comum,
essa que passa com o tempo e um copo de água.
Falo do tipo que cava,
que faz morada,
que aprende os hábitos da casa
e começa a pagar conta como se fosse sua.
Há dias em que sou só um corpo
segurando outro corpo por dentro
o que eu era
antes de aprender a mentir tão bem
pra minha própria pele.
Toco o peito e não sinto nada de estranho.
É isso que assusta:
o quanto o extraordinário
aprendeu a caber no ordinário,
o quanto a ferida
aprendeu a não sangrar visivelmente,
só por dentro,
só onde ninguém
precisa saber.
Não peço socorro.
Já não sei mais como se pede.
Só deixo aqui,
frio,
exato,
o registro de que existo
inteiro
e quebrado
ao mesmo tempo
e que isso,
de algum jeito bruto,
também é uma forma
de continuar vivo.
Comentários
Aplaudo sempre, Kleber!
Reflexivo. Muito interessante.