INCERTEZAS DAS VERDADES
Há verdades que chegam tarde.
Outras chegam cedo demais e, por isso, passam a vida esperando que nós as compreendamos.
Talvez a certeza seja apenas uma dúvida bem-vestida.
Caminhamos acreditando conhecer o chão,
mas o chão também se move.
Silenciosamente.
Há dias em que penso saber quem sou.
Em outros, encontro dentro de mim corredores que jamais percorri, portas sem maçanetas e janelas abertas para lugares que não existem.
E, estranhamente, existem.
A razão exige provas.
O sentimento coleciona vestígios.
Entre ambos,
A consciência acende pequenas lanternas
A procura alguma coisa que possa chamar de verdade.
Mas quem garante?
O tempo, às vezes, desmente aquilo que jurávamos definitivo.
Um amor muda de nome.
Uma ausência ganha presença.
Uma lembrança modifica o passado.
E aquilo que ontem era certeza amanhece interrogativo.
Somos também aquilo que não sabemos.
Talvez por isso o pensamento seja tão inquieto:
ele não aceita morar definitivamente em nenhuma resposta.
Pergunta.
Desconfia.
Retorna.
Há um tribunal invisível dentro de nós onde a memória depõe, a razão interroga e o desejo falsifica documentos.
A lua assiste e o silêncio também.
E ninguém consegue pronunciar a sentença.
Porque certas verdades possuem a estranha geometria das nuvens: parecem inteiras quando vistas de longe, mas se desfazem quando tentamos segurá-las.
Então compreendo que duvidar não é necessariamente negar.
Às vezes,
DUVIDAR é APROFUNDAR…
É retirar das certezas os ornamentos,
despir os conceitos,
abrir as gavetas secretas das convicções
e perguntar ao pensamento
se ele ainda acredita naquilo que afirma.
Nem sempre acredita.
Há certezas herdadas.
Certezas aprendidas.
Certezas impostas.
E existem aquelas que inventamos apenas para conseguir atravessar a noite.
A madrugada conhece esse segredo.
Enquanto dormimos,
os relógios desaprendem as horas,
as paredes conversam com nossas sombras
e alguma pergunta sem rosto
passeia descalça pelos pensamentos.
Ao amanhecer, chamamos tudo de realidade.
Mas será?
Talvez a realidade seja apenas o acordo provisório que fizemos com aquilo que conseguimos compreender.
O restante...
é imensidão sem legenda.
Por isso já não procuro verdades absolutamente imóveis.
Prefiro aquelas que suportam perguntas.
As outras me assustam.
Toda certeza que proíbe a dúvida começa, pouco a pouco, a construir uma prisão.
E eu prefiro a janela.
Mesmo que do outro lado exista neblina.
Mesmo que o horizonte esteja indeciso.
Porque talvez viver seja exatamente isto:
carregar algumas respostas,
perder outras pelo caminho,
inventar perguntas melhores
e admitir, dia
nte do inexplicável,
que até a verdade
pode ter suas incertezas.
Fim
A Domingos
1º de outubro de 2025
Comentários
UAU! Show! Saudações das Sagas! Prezado amigo Antônio que baita poemas! Incrível! Impressionado! Encantador suas profundas e belas reflexões. Parabéns!
Gratidão por sua gentileza e generosidade e apoio ao nosso trabalho...
Muito obrigado de Fernanda e Antonio Domingos
Lindíssimo poema, Antônio! Parabéns.
DESTACADO
Abraços
Agradecemos demais sua atenção e apreciação prezada Poetisa Marcia...Uma honra para nós aqui em casa..ter este Destaque
Fernanda e Antonio Domingos
"Há verdades que chegam tarde.
Outras chegam cedo demais e, por isso, passam a vida esperando que nós as compreendamos.
Talvez a certeza seja apenas uma dúvida bem-vestida.
Caminhamos acreditando conhecer o chão,
mas o chão também se move. " vejo Sócrates na tua poesia, uma das grandes verdades da vida! Parabéns, foi muito lindo ler essa poesia!
Gratidão por valiosa atenção e leitura e apreciação...
Você está certo quanto a semelhanças com Sócrates.
" Só sei que nada seu" Sócrates
" Conhece -te a ti mesmo" Sócrates
" Uma vida não examinada não vale a pena ser vivida" Sócrates
Nossos abraços fraternos prezado Poeta.. Obrigado