Ninguém morreu. Ninguém foi embora.
É só quarta-feira, e mesmo assim
carrego essa vontade estranha
de sentar no chão e perguntar ao teto
por que as coisas continuam funcionando
com essa disciplina toda,
essa pontualidade suspeita
de relógio que nunca duvidou de nada.
Não é luto. Juro.
É só que às vezes o café esfria
antes de eu decidir se mereço bebê-lo,
e isso, convenhamos,
diz mais sobre mim
do que qualquer discurso sobre a vida.
Sou um homem funcionando dentro do previsto:
acordo, calço os sapatos certos,
respondo "tudo bem" com a naturalidade
de quem já treinou a mentira
até ela ficar confortável.
A melancolia, hoje em dia,
nem precisa de motivo,
ela vem de fábrica,
embutida no sistema,
como aquelas funções do celular
que ninguém pediu
e ninguém consegue desligar.
Não sinto falta de ninguém.
Isso seria fácil demais,
teria nome, teria placa,
um túmulo onde eu pudesse
depositar flores de plástico
e dizer: "foi por causa disso."
Mas não. É mais sutil, mais chato:
é a suspeita silenciosa
de que a vida, meticulosamente,
está me entregando exatamente
o que eu disse que queria,
e isso, por algum motivo,
dói tanto quanto perder.
Comentários
Lindo texto! Parabéns.
DESTACADO
A rotina as vezes cansa, tudo muito previsível! Adorei os seus versos! Parabéns!
Me parece uma paz sem sabor! Muito bom o texto!