Antes de sair de casa, eu ensaio não lembrar de você.
Repito os nomes dos objetos: porta, chave, janela, rua. São coisas que ficam. Ninguém perde uma porta para sempre.
No ponto de ônibus, pessoas esperam como se espera sem esperança. O ônibus não vem. O dia não vem. Eu também quase não venho.
Penso naquela tarde. Penso. Não, não penso. Deixo passar um cachorro. Sigo o cachorro com os olhos. É bom ter o que seguir.
No trabalho, sorrio para todos. Eles sorriem de volta. Somos assim: dois sorrisos se cruzando, e nem um de nós é verdadeiro.
À noite, a casa devolve meu tamanho. Sento na beirada da cama e tiro os sapatos devagar, como quem desiste de uma viagem.
Antes de dormir, rezo sem saber a quê. Não peço nada. Peço só que a manhã seja menos parecida comigo.
Não é. A manhã é exatamente igual. E eu, novamente, saio de casa, deixo a porta aberta um pouco, por um hábito antigo, por um talvez, por você, que não vem há tanto tempo que já virei uma coisa.
Comentários
Um belo texto, pleno de desdobramentos muitidimensionais (e multitemporais): uma espécie de furta-cor de reflexos existencialistas.
Parabéns!
Parabéns poeta Kleber! O seu poema é maravilhoso!
Editt, muito obrigado pelo carinho. 🌹
Há elogios que passam pelos olhos e há aqueles que chegam ao coração. O seu chegou. Recebo suas palavras com a mesma humildade com que entrego meus versos ao mundo. Que a poesia continue sendo esse encontro bonito entre quem escreve e quem sente. Muito obrigado por caminhar comigo por algumas linhas. ❤️
Espetacular!!!! Parabéns!
Márcia, muito obrigado por esse carinho tão generoso. 🌹
“Espetacular” é uma palavra que fica ainda maior quando vem acompanhada de afeto. Recebo seu comentário como um abraço em forma de palavras. Que meus versos possam continuar encontrando olhos dispostos a senti-los e corações dispostos a guardá-los. Minha gratidão por você. ❤️