O QUE O TEMPO LEVOU SEM BARULHO

 

Há uma cadeira na cozinha

que ainda guarda o jeito do teu peso.

Não a movo.

Mover seria admitir

que o corpo some e o móvel fica,

e eu já aprendi demais

sobre o que fica.

 

Os anos não chegaram como ladrões.

Vieram como a umidade nas paredes,

devagar, sem ofensa,

até que um dia o reboco da lembrança

cedeu na minha mão

e era só pó com o formato do teu nome.

 

Preciso ser preciso:

não é que eu sinta a tua falta.

Faltar é verbo de quem espera,

e eu habito o lugar exato

onde a espera se cansou de mim.

 

Há tardes em que a luz entra torta

e deita na parede

a sombra de alguém que já não há.

Eu cumprimento a sombra

com a cortesia dos que perderam tudo

e ainda guardam as boas maneiras.

 

Talvez a saudade seja isto:

um relógio que continua certo

numa casa onde ninguém mais pergunta as horas.

 

Envelheci dez anos nesta noite,

e a noite, mais velha que eu,

nem me deu os pêsames.

 

 

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Kleber Luis Antônio Pinheiro
Poeta e educador social.
Atuo com educação social e escrita, desenvolvendo projetos e textos que aproximam arte, escuta e transformação comunitária.

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Comentários

  • Ave! Kleber: Boa tarde, poeta! Admirei ostensivamente a tua  poesia que fala, com sabedoria de quem viveu a experiência,  sobre aquilo que permanece quando a pessoa já não permanece — os objetos, os hábitos, a casa, o tempo e, sobretudo, a memória. 10 pra ti. ab

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