Há uma cadeira na cozinha
que ainda guarda o jeito do teu peso.
Não a movo.
Mover seria admitir
que o corpo some e o móvel fica,
e eu já aprendi demais
sobre o que fica.
Os anos não chegaram como ladrões.
Vieram como a umidade nas paredes,
devagar, sem ofensa,
até que um dia o reboco da lembrança
cedeu na minha mão
e era só pó com o formato do teu nome.
Preciso ser preciso:
não é que eu sinta a tua falta.
Faltar é verbo de quem espera,
e eu habito o lugar exato
onde a espera se cansou de mim.
Há tardes em que a luz entra torta
e deita na parede
a sombra de alguém que já não há.
Eu cumprimento a sombra
com a cortesia dos que perderam tudo
e ainda guardam as boas maneiras.
Talvez a saudade seja isto:
um relógio que continua certo
numa casa onde ninguém mais pergunta as horas.
Envelheci dez anos nesta noite,
e a noite, mais velha que eu,
nem me deu os pêsames.
Comentários
Ave! Kleber: Boa tarde, poeta! Admirei ostensivamente a tua poesia que fala, com sabedoria de quem viveu a experiência, sobre aquilo que permanece quando a pessoa já não permanece — os objetos, os hábitos, a casa, o tempo e, sobretudo, a memória. 10 pra ti. ab