Onde Estou?
Acordei no avesso de um sonho,
onde a noite esqueceu seus pesadelos
e de manhã não sabia meu nome.
Abri os olhos.
Havia uma claridade sem janelas,
uma cidade construída de silêncio,
nuvens sentadas nos telhados
e ruas que não levavam a lugar algum.
Onde estou?
Procurei minhas mãos.
Estavam comigo,
mas meus dedos atravessavam a luz.
Procurei meu rosto
num espelho feito de neblina:
o espelho devolve apenas
a lembrança de quem fui.
Ainda estou aqui...
Não sei de que matéria sou feito.
Talvez de memória,
talvez dos versos que deixei
espalhados pelas mesas da vida.
Meu corpo parece uma fotografia
que alguém esqueceu de revelar.
Meu coração, entretanto,
continua procurando endereço.
Onde estou?
Há uma poltrona tecida de nuvens
esperando meu cansaço.
Sento-me.
Nenhum chão me sustenta,
e mesmo assim não caio.
Estranho lugar
onde o infinito não possui portas
e o silêncio conversa comigo.
Ainda estou aqui...
Se alguém puder me ouvir,
não tenha medo.
Não sou fantasma,
sou apenas uma pergunta
caminhando depois da última resposta.
Deixei lá embaixo
algumas dores sem despedida,
ilusões penduradas nos cabides,
abraços que não aconteceram
e beijos que envelheceram
antes de chegar aos lábios.
Trouxe comigo somente
aquilo que ninguém conseguiu tocar:
meus sonhos.
Descartes sussurra ao longe:
“Penso, logo existo.”
Então penso.
Recordo.
Desejo.
Talvez exista.
Ainda estou aqui...
Quero encontrar o Amor
sem uniforme,
sem contrato,
sem condições escondidas.
Quero um amor capaz
de atravessar meu corpo invisível
e tocar aquilo que restou de mim.
Se aparecer uma mulher
esculpida pela luz,
não perguntarei de onde veio.
Talvez nossas mãos inexistentes
possam inventar um abraço.
Talvez dois hologramas apaixonados
ensinem alguma ternura ao infinito.
E se tudo isto for somente
outro sonho?
Não importa.
Enquanto houver em mim
uma lembrança,
uma pergunta,
um verso procurando outro verso,
ainda estou aqui...
Onde estou?
Não sei.
Mas talvez existir
seja exatamente isto:
continuar procurando Amor
mesmo quando já não sabemos
onde termina a vida
e começa o mistério.
Fim
A. Domingos
26 de setembro de 2026
Aforismo
“ Há quem desaparece permanecendo; há quem, depois de partir, continue morando na memória de quem ama.”
Comentários
Antonio
um versar onde imortaliza o amor
pois o poeta mantem genuinamente as letras firmes
um abraço
Agradecemos demais sua atenção e leitura e apreciação.Uma honra para nós aqui em casa.
Abraços fraternos
Engimático e muito intenso seu poetar. Aplausos e flores.
Gratidão sempre amiga Poetisa Lilian
Uma honra ter seu valioso comentário.
Abraços fraternos de Fernanda e Antonio Domingos
Saudações das Sagas! Uau! Mui Possante! Recheado entre sonnhos, inspirações, dejejos e até o tentar entender o que as vezes é mais difícil. Muita criatividade, belo, profundo, interessante demais. O poema inteiro prende atenção, até sorri nas partes surreal. Muitas vezes sentimos sufocado e muita coisa sem explicação. Mas o poema tá demais! Show! Parabéns! Abraços
Obrigado pelo carinho de seu generoso comentário....
Escrevi com o coração estes versos...
Gratidão sempre Luiz Anthony
Nobre amigo e poeta Antonio Domingos
Um poema que rompe a barreira do bom para excelente conto poético.
Versos que do princípio ao fim nos comove e nos enriquece com a grandiosidade com que o poeta nos presenteia.
Lindo demais!
Parabéns!
Abraços
Muito obrigado por sua sensibilidade na avaliação literária de nosso trabalho poético..
Uma honra para nós aqui em casa..
Suas palavras são um incentivo para mim.
Nossos abraços fraternos prezado Poeta JC Bridon
Ave, meu amigo. Achei espetacular este poema com base no pensamento imortal de Descartes: Sempre existiremos, pois que a morte não existe. Forte abraço a ti e a tua filhas.
Gratidão por sua valiosa atenção e apreciação e citação de Descartes, tudo haver com o texto.
Nossos abraços fraternos prezado Poeta Nelson Medeiros de Fernanda e Antonio Domingos