No fundo do quintal, onde ninguém olha,
o tempo fez morada numa cadeira,
velha, com os braços gastos de espera,
guardando uma tarde que ninguém recolhe.
Há coisas que a casa esquece
sem que isso pareça abandono.
Uma esponja adormecida junto à pia,
uma toalha secando a chuva do dia,
um telefone que já não toca
mas continua esperando alguma coisa.
O gato atravessa o quintal
com a tranquilidade de quem conhece
um segredo que não precisa de nome.
Eu o observo.
Talvez os animais saibam
o que nós perdemos quando aprendemos a explicar.
Preciso ser preciso.
Um grão de arroz caiu sobre a mesa.
Ninguém percebeu.
Talvez Deus tenha percebido.
Dizem que Deus está em tudo.
Talvez esteja justamente no que não recebe importância:
na panela esquecida sobre o fogão,
no resto de sopa que perdeu o calor,
no pão cortado sobre a madeira,
na faca que repousa depois do jantar,
como se também estivesse cansada
de separar as coisas.
Penso que a poesia começa aí.
Não quando encontramos respostas,
mas quando alguma coisa banal
de repente nos impede de continuar.
Uma cadeira deixa de ser cadeira.
Uma janela deixa de ser janela.
Uma tarde deixa de ser apenas tarde.
E aquilo que parecia pequeno
começa a nos olhar de volta.
Talvez seja isso que chamamos de mistério:
uma coisa tão próxima
que precisamos de distância para enxergá-la.
Escrevo contra a cegueira das coisas,
contra os olhos que atravessam o mundo
como quem atravessa uma estação
sem jamais perguntar
quem ficou para trás.
Há uma menina que passa na rua
e não olha para trás.
Há uma janela que permanece aberta
depois que alguém vai embora.
Há um copo pela metade
sobre uma mesa vazia.
Há uma roupa pendurada no varal
que ainda guarda, por alguns minutos,
o formato de quem a vestiu.
Ninguém chama isso de eternidade.
Talvez porque a eternidade
tenha vergonha de parecer importante.
Há uma cadeira.
Há um gato.
Há pão sobre a mesa.
Há uma tarde morrendo devagar.
E talvez a vida seja exatamente isso:
um conjunto de pequenas coisas
acontecendo enquanto esperamos
que alguma coisa maior aconteça.
O dia, tão comum, tão difícil de levar,
me ensina que existe um lugar escondido
atrás do jardim, depois do muro,
onde o silêncio parece respirar.
Não é um lugar para chegar.
É um lugar para perceber.
Ali, entre o mato e a sombra,
onde ninguém procura resposta,
o mistério permanece quieto.
Não pede nome.
Não pede explicação.
Não pede que a gente compreenda.
Apenas existe.
E talvez seja justamente por isso
que ainda conseguimos acreditar
que alguma coisa em nós
também permanece.
Mesmo depois da cadeira vazia.
Mesmo depois do telefone que não toca.
Mesmo depois da tarde.
Mesmo depois de nós.
Esse é o verdadeiro plano de trás do jardim:
aquilo que continua existindo
quando já não estamos olhando.