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Contrato com o Despertador

 

Toda noite combino com o despertador

a seis horas em ponto.

Ele, que é homem de palavra,

promete gritar.

Eu prometo levantar

com a dignidade de quem acredita em manhãs.

 

Os dois sabemos como esse tipo de acordo termina:

ele insiste, eu negocio,

e o dia começa com nove minutos de prorrogação,

moeda miúda

que a vida cobra depois

com os juros de ontem.

 

Preciso ser preciso:

não é sono, é ensaio.

Um pequeno ensaio geral do ausentar-se,

para quando a cortina descer de vez

e ninguém tiver o gesto

de apertar o botão que adia.

 

Mas levanto.

Sempre levanto,

com a lentidão de quem carrega

um piano invisível pelo corredor,

e a cozinha me recebe

com a indiferença generosa das coisas

que nunca precisaram de mim para existir.

 

A chaleira apita sem me olhar.

O sol entra na sala como quem entra em casa alheia,

pede licença ao chão

e continua o serviço.

 

É um consolo estranho

ser dispensável

com tanta delicadeza.

 

 

Saiba mais…


O Luto que Não Passa, Apenas Aprende a Andar

O luto não é fase.
Quem disse isso nunca enterrou nada
além do próprio juízo.

O luto é um animal doméstico
que a gente alimenta sem querer.
Ele dorme aos nossos pés,
acorda aos nossos gritos
e nunca, nunca,
morre antes da gente.

Eu carrego o morto dentro de mim
e ele pesa mais vivo que eu.

Tirei a roupa da cadeira onde ele sentava.
Guardei o copo onde ele bebia.
Fechei a porta do quarto.
Fiz tudo direitinho,
como ensinam.

Mas o morto não mora na cadeira,
não mora no copo,
não mora no quarto.

Ele mora no meu peito,
debaixo da costela esquerda,
aquecido, insolente, eterno.

E tem gente que diz “melhoras”,
como se luto fosse gripe,
como se saudade tivesse remédio
e o remédio fosse tempo.

Precisamos ser precisos:
o tempo não cura.
O tempo é cúmplice.
Enterra o morto cada dia mais fundo
dentro da gente.

À noite, o luto despe calor.
Não o calor dos abraços,
o calor da febre.

A cama inteira é feita de ausência,
e eu durmo no meio dela,
pequeno, enrolado,
como alguém tentando nascer
de uma morte que não termina.

Bárbara me perguntou outro dia
se o luto um dia acaba.

Respondi com a boca de sempre,
irônica e vazia:

“Talvez não.
Talvez a gente apenas aprenda
a carregá-lo sem deixar
que ele nos carregue.”

Ela não riu.
Eu também não.

Porque o luto é isso:
a única coisa que a morte deixou
e que a vida não consegue devolver.

Há um buraco no mundo
no formato exato de quem se foi.

Nenhuma poesia tapa.
Nenhum amor recompõe.

A gente apenas aprende a morar
na beirada do buraco,
com os pés quase dentro,
cantando baixinho
para que a ausência
não se sinta sozinha.

Chorar é uma forma de alimentar
quem já não tem boca.

— Kleber Luís Antônio Pinheiro & Bárbara Costa

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O luto não é fase.
Quem disse isso nunca enterrou nada
além do próprio juízo.

O luto é um animal doméstico
que a gente alimenta sem querer.
Ele dorme aos nossos pés,
acorda aos nossos gritos
e nunca, nunca,
morre antes da gente.

Eu carrego o morto dentro de mim
e ele pesa mais vivo que eu.

Tirei a roupa da cadeira onde ele sentava.
Guardei o copo onde ele bebia.
Fechei a porta do quarto.
Fiz tudo direitinho,
como ensinam.

Mas o morto não mora na cadeira,
não mora no copo,
não mora no quarto.

Ele mora no meu peito,
debaixo da costela esquerda,
aquecido, insolente, eterno.

E tem gente que diz “melhoras”,
como se luto fosse gripe,
como se saudade tivesse remédio
e o remédio fosse tempo.

Precisamos ser precisos:
o tempo não cura.
O tempo é cúmplice.
Enterra o morto cada dia mais fundo
dentro da gente.

À noite, o luto despe calor.
Não o calor dos abraços,
o calor da febre.

A cama inteira é feita de ausência,
e eu durmo no meio dela,
pequeno, enrolado,
como alguém tentando nascer
de uma morte que não termina.

Bárbara me perguntou outro dia
se o luto um dia acaba.

Respondi com a boca de sempre,
irônica e vazia:

“Talvez não.
Talvez a gente apenas aprenda
a carregá-lo sem deixar
que ele nos carregue.”

Ela não riu.
Eu também não.

Porque o luto é isso:
a única coisa que a morte deixou
e que a vida não consegue devolver.

Há um buraco no mundo
no formato exato de quem se foi.

Nenhuma poesia tapa.
Nenhum amor recompõe.

A gente apenas aprende a morar
na beirada do buraco,
com os pés quase dentro,
cantando baixinho
para que a ausência
não se sinta sozinha.

Chorar é uma forma de alimentar
quem já não tem boca.

 

Saiba mais…

A CASA APRENDEU A NÃO RESPONDER

 

A casa aprendeu a não responder.

Chamo, e o corredor devolve o próprio comprimento.

O relógio continua, por educação,

mas já não anda para ninguém.

 

Preciso ser preciso: não foi o dia da notícia

que me matou um pouco.

Foi a terça-feira seguinte,

a xícara no gancho,

o hábito de pôr dois pratos

e a mão parando no ar, como quem lembra tarde.

 

Dizem que o tempo cura.

O tempo apenas muda a mobília da ausência:

ontem era um grito, hoje é uma cadeira,

amanhã será talvez só poeira

com a forma exata de quem sentava.

 

Carrego o luto como se carrega a chuva

dentro de um casaco que ninguém viu molhar.

Não choro. A água me desce por dentro,

escada abaixo, até o porão onde guardo

tudo o que não soube dizer a tempo.

 

Há uma pergunta que me acompanha sem rosto:

onde fica o riso quando o corpo acaba?

Nenhuma gaveta responde.

Nenhuma estrela, que é só distância acesa,

tem a caridade de explicar.

 

E eu, que fiz ofício de palavras,

descubro-as pequenas, de bolso, de lata,

incapazes de erguer o peso

de um nome dito sem resposta.

 

Fica o hábito de viver, esse animal manso.

Fica a luz atravessando a sala vazia

com a lentidão de quem pede licença

a um morto que já não pode dar.

 

 

Saiba mais…

OS CÔMODOS ONDE VOCÊ NÃO ESTÁ

A casa continua de pé

por pura incapacidade de cair.

Entro na cozinha

e a cadeira guarda a forma do teu corpo

como uma mão guarda o frio

depois de soltar a água.

 

Não sento.

Sentar seria admitir

que o lugar ficou vago.

 

Preciso ser preciso:

não é que você tenha ido.

Ir é verbo de quem volta.

Você foi retirada,

como se retira um quadro da parede

e fica, na tinta, o retângulo mais claro

de tudo o que a luz não pôde gastar.

 

Moro agora nesse retângulo.

 

No quarto, o lado da cama

que não amassa mais.

Eu deito do meu, estreito,

com a disciplina de um homem

que ainda divide o colchão

com o que não responde.

 

Falo com a casa em voz baixa.

Ela me devolve o eco

sem o teu timbre dentro,

e é esse eco, oco, exato,

que me ensina o tamanho da perda:

cabe em cada cômodo,

e sobra.

 

Na gaveta, tua letra num papel qualquer.

Uma lista de compras.

Leite, pão, o nome de um remédio.

Leio como quem lê um testamento:

tudo o que me deixou

foi a rotina de uma terça-feira

que não terminou.

 

Já não choro alto.

O choro aprendeu a morar nas paredes,

a descer pela umidade,

a ser mofo, a ser sombra,

a ser a casa inteira

respirando devagar

o que não cabe em mim.

 

E à noite, quando a luz da rua

risca o chão com a sua pouca bondade,

eu ainda deixo a porta encostada,

só encostada,

para o caso de a morte

ter errado de endereço.

 

 

Saiba mais…

Estou Ótimo, Obrigado

 

Estou ótimo, obrigado.

A tristeza e eu temos horário:

ela chega às seis,

eu deixo a luz acesa

para que não pareça emboscada.

 

Sou pontual. Pago as contas.

Respondo "tudo bem" a quem não espera resposta,

a mentira mais barata

e a única que ninguém cobra.

 

Preciso ser preciso:

não me falta alguém.

Falta o ruído que alguém faz

ao não saber onde guardou a chave.

Falta o desencontro.

 

A casa, em perfeita ordem,

é um tribunal sem réu.

 

Ontem a geladeira zumbiu mais alto

e senti-me acompanhado,

o que diz muito, convenhamos,

sobre a qualidade da minha companhia

ou a ambição da geladeira.

 

Dizem que o tempo cura.

O tempo é eficiente:

não cura, arquiva.

Cada dia numa pasta,

etiquetado com a letra de quem fui

antes de aprender a ser educado com a dor.

 

Sigo bem. Sigo.

Até o verbo cansa

de ser o único a se mover

neste apartamento de mobília imóvel.

 

Boa noite. Apago a luz

que acendi para ninguém

e deixo a tristeza entrar,

que ao menos ela

sempre volta.

 

 

Saiba mais…

Esta noite eu quero Desaparecer

 

Preciso explicar uma coisa antes que a noite fique inteira:
eu não quero morrer.
Quero algo menor e mais difícil,
sair do quadro
sem rasgar a moldura.

Há uma diferença, e preciso ser preciso:
morrer é um verbo que pede testemunhas,
desaparecer é o que a luz da sala faz
quando esquecem de apagá-la
e ela segue acesa para ninguém.

A geladeira zune no escuro da cozinha
como quem pigarreia antes de dizer um nome
e desiste.
O copo sobre a pia
guarda a marca do meu polegar,
a única prova de que estive aqui hoje
que dispensa a minha presença.

Quero ser isso:
uma digital sem dono,
o calor que a cadeira ainda lembra
quando ninguém mais a ocupa.

Não é tristeza, tenho que explicar isso também.
Tristeza tem endereço, tem o nome de alguém,
tem uma porta onde bater.
O que eu tenho é cansaço de ser lido,
de ser o homem que esperam
atrás do meu rosto,
de dizer "bem" com a boca
enquanto o resto de mim
se debruça na janela
para ver se a rua ainda tem saída.

A rua tem. É isso que me desarma:
a rua sempre tem.

Talvez desaparecer seja só o nome
que dei ao desejo de pousar o peso
sem que me perguntem o que pesa.
Talvez a noite seja o único cômodo
onde posso largar as chaves, o sobrenome,
a voz de quem está bem.

Amanhã o café estará onde o deixei,
e eu, mal e visível,
como uma lâmpada que ninguém apagou.

 

Saiba mais…

CONTABILIDADE DO VERÃO

 

 

Chegas, e o ventilador desiste de mim.

O calor, que era do tempo,

passa a ser da tua boca

e eu, homem de cálculos modestos,

perco a conta dos botões.

 

Teu ombro tem a temperatura exata

das coisas que não deviam estar ao alcance.

Minha mão, que jurava juízo,

vai ao seu encontro com a pressa

de quem esqueceu a própria assinatura.

 

Preciso ser preciso:

o que há entre a tua nuca e o meu fôlego

não cabe em nenhuma lei, só em um tremor.

Respiras, e a casa inteira

muda de pulso, como se o relógio

tivesse sido avisado.

 

Dizem que a razão guarda as chaves.

Pois guardou-as tão bem

que nem ela sabe mais em que gaveta,

e a noite, cúmplice sem diploma,

apaga a luz por conta própria,

discreta como um funcionário

que viu demais e não viu nada.

 

Amanhã haverá café, bom-dia, algum assunto.

Fingiremos a vida em ordem alfabética.

Mas a pele, essa arquivista indiscreta,

já catalogou tudo

sob a letra que nunca se diz.

 

 

Saiba mais…

O QUE O TEMPO LEVOU SEM BARULHO

 

Há uma cadeira na cozinha

que ainda guarda o jeito do teu peso.

Não a movo.

Mover seria admitir

que o corpo some e o móvel fica,

e eu já aprendi demais

sobre o que fica.

 

Os anos não chegaram como ladrões.

Vieram como a umidade nas paredes,

devagar, sem ofensa,

até que um dia o reboco da lembrança

cedeu na minha mão

e era só pó com o formato do teu nome.

 

Preciso ser preciso:

não é que eu sinta a tua falta.

Faltar é verbo de quem espera,

e eu habito o lugar exato

onde a espera se cansou de mim.

 

Há tardes em que a luz entra torta

e deita na parede

a sombra de alguém que já não há.

Eu cumprimento a sombra

com a cortesia dos que perderam tudo

e ainda guardam as boas maneiras.

 

Talvez a saudade seja isto:

um relógio que continua certo

numa casa onde ninguém mais pergunta as horas.

 

Envelheci dez anos nesta noite,

e a noite, mais velha que eu,

nem me deu os pêsames.

 

 

Saiba mais…

A FERRUGEM TEM MEMÓRIA

 

O portão não esqueceu a mão que o empurrava.

Guarda, no vermelho que lhe come as dobradiças,

o nome de cada inverno que atravessou

sem pedir licença nem óleo.

 

Ninguém a ensinou a lembrar.

Foi pouco a pouco, na umidade das madrugadas,

que o ferro aprendeu a fazer da perda

um ofício de paciência.

 

Eu também enferrujo, e o faço em silêncio,

com a discrição das coisas sérias.

Há em mim uma dobradiça que range

quando passa o nome de certas pessoas,

e um parafuso de domingo

que nunca mais girou direito.

 

Preciso ser preciso:

a ferrugem não é o fim do ferro,

é o ferro lembrando

que já foi forja, que já foi fogo,

que já foi, antes de portão,

um desejo de durar.

 

Passo a mão na grade.

Fica na palma um pó de laranja triste,

fina assinatura do tempo

em quem não soube defender-se.

Limpo na calça, e a calça guarda.

 

Talvez a memória seja isto:

não o que a gente conta,

mas o que o corpo oxida em segredo

e entrega, sem aviso,

ao primeiro toque de chuva.

 

Fico diante do portão

como diante de um velho parente

que perdeu a fala e conserva o gesto.

Nenhum de nós abre.

Nenhum de nós fecha.

Ambos sabemos de cor o que custa durar.

 

 

Saiba mais…

 

Escrevo à rua que a prefeitura apagou,
ao número que a ferrugem comeu do portão,
à casa que virou estacionamento
e ainda guarda, debaixo do asfalto,
o cheiro do café de domingo.

Selo a carta com a saliva da saudade.
Não cola bem. É de má qualidade.
Deposito-a na caixa vermelha da esquina,
que também já não existe,
mas aceita, por cortesia, tudo aquilo
que ninguém mais sabe onde guardar.

Querido ninguém,

começo sempre assim,
por hábito de educação.

Aqui vai tudo mais ou menos:
o relógio continua atrasando,
o cachorro envelheceu,
a mesa da cozinha ainda conserva o lugar
que ninguém ocupa
e todos respeitam.

Preciso ser preciso:

não sei se escrevo a quem partiu
ou a quem eu era
quando você morava aqui.

Talvez aos dois.

Ambos me devolvem a carta
com o mesmo carimbo de silêncio.

O carteiro, homem de poucas palavras
e muitas esquinas,
me olha com piedade profissional.

Diz que existem cartas assim,
que atravessam a vida inteira
sem nunca perder a esperança
de serem extraviadas com dignidade.

Deixo o remetente em branco.

Para quê?

Se a resposta viesse,
eu já não saberia
a que porta bater.

E a mim mesmo
já não encontro
no endereço de sempre.

Assino, por falta de coisa melhor,
com o nome que ficou na gaveta,
junto às chaves de uma casa
que a cidade esqueceu de lembrar.

Talvez seja essa
a única correspondência possível:

uma carta sem endereço,
um nome sem casa,
e alguém esperando
que o silêncio
ainda saiba chegar.

 

Saiba mais…

MEU DRAGÃO

 

Não é dos que cospem fogo.
O meu dragão tem a idade das gavetas
e o hábito de dormir no corredor,
enrolado sobre si como um cinto velho.

Não guarda tesouro nenhum.
Guarda, quando muito, a hora
em que a casa desistiu de fazer barulho.

Já tive espada. Emprestei.
Já tive medo; esse ficou comigo,
mais fiel que o cão que nunca tive.

De noite, ouço-lhe a escama
raspar o chão da sala, devagar,
como quem risca um nome na pedra
sem saber se é o dele ou o meu.

Preciso ser preciso:
não é monstro, é peso
com paciência de montanha.

Não me devora, me habita,
e a fome dele é a minha, mais lenta.

Às vezes lhe estendo o pão da manhã.
Ele cheira, recusa, suspira
uma fumaça fina de cinzeiro antigo
e volta a ser sombra de armário.

Somos dois velhos sócios
de uma falência sem escândalo.

Ele me conhece pelo passo;
eu o conheço pelo silêncio
que faz quando digo “estou bem”.

Meu dragão, meu cansaço com asas
que nunca abriu.

Ficamos assim: eu de pé,
ele deitado, e entre nós o chão,
que aguenta os dois
sem perguntar o que pesa mais.

 

Saiba mais…

Nada de Especial

 

Nada de especial:

uma tarde de domingo,

o chá já frio,

o gato dormindo sobre o jornal.

 

O mundo continua

seu ofício de mundo

e eu, o meu,

que é o de esperar.

 

Nada de especial:

o espelho devolvendo

o rosto de todos os dias.

 

Não há ninguém dentro dele

além de mim.

Talvez esse seja o problema.

Ou a paz.

 

Já contei as rachaduras do teto.

Já decorei o discurso do silêncio.

Sei que a louça da pia

não se lava sozinha,

por mais que a filosofia insista.

 

Preciso ser preciso:

há dias em que existir

é apenas não desaparecer

dentro das pequenas coisas.

 

Nada de especial:

alguém partiu há tanto tempo

que a saudade virou hábito.

 

Dói menos agora.

 

Até a dor foi domesticada.

Sentou-se ao canto da mesa,

quieta,

pedindo pão.

 

Eu sei que a vida

é um favor que recebemos

sem ter pedido.

 

E que devolvemos

com uma gratidão

mal disfarçada de cansaço.

 

Paguei com os juros.

Ninguém assinou o recibo.

 

Se um dia perguntarem

como fui,

digam apenas:

 

era alguém

que gostava de mirar o nada

e encontrava,

no nada,

uma casa acesa.

 

Nada de especial.

 

Só isso.

 

Só tudo.

 

 

Saiba mais…

O LUGAR ONDE O TEMPO NÃO CHEGA

 

 

Um dia percebi

que não era o tempo

que estava passando.

 

Éramos nós.

 

O relógio apenas tinha

a delicadeza cruel

de nos avisar.

 

Enquanto ele movia os ponteiros,

alguma coisa em nós

ia deixando de ser.

 

A criança que fomos

não morreu.

 

Apenas ficou longe demais

para voltar andando.

 

Os lugares onde fomos felizes

continuam existindo

sem saber que mudaram.

 

A janela ainda recebe a tarde.

A mesa ainda conhece o peso das mãos.

A rua ainda guarda

o caminho dos nossos passos.

 

Mas nós...

 

nós chegamos diferentes.

 

Talvez seja esse

o verdadeiro trabalho do tempo:

 

não apagar.

 

Transformar silenciosamente

aquilo que não conseguimos perder.

 

Preciso ser preciso:

 

há ausências

que não cabem na palavra ausência.

 

Porque ausência seria

um espaço vazio.

 

E algumas pessoas

deixam dentro da gente

uma presença tão funda

que até a falta

passa a ter forma.

 

Por isso existem dias

em que uma lembrança

não parece lembrança.

 

Parece uma porta.

 

A gente abre

e por alguns segundos

o mundo devolve

aquilo que juramos

ter perdido.

 

Um cheiro.

 

Uma voz.

 

Uma tarde.

 

Um nome.

 

E então a porta fecha.

 

Não porque esquecemos.

 

Mas porque a vida

não sabe permanecer

onde o passado permanece.

 

Talvez crescer

seja aprender a viver

com portas que não podemos

mais atravessar.

 

Talvez amar

seja aceitar que algumas pessoas

continuarão dentro de nós

sem jamais voltar para casa.

 

E talvez morrer

não seja desaparecer.

 

Talvez seja apenas

deixar de poder ser encontrado

do lado de fora.

 

Porque há pessoas

que continuam acontecendo

em quem as amou.

 

Continuam nos gestos.

 

Na maneira de olhar a chuva.

 

Na palavra que escolhemos

quando ninguém está ouvindo.

 

Naquilo que perdoamos.

 

Naquilo que ainda esperamos.

 

É estranho pensar

que alguém pode partir

e, ainda assim,

continuar escrevendo

dentro da nossa existência.

 

Como uma frase

que o tempo não consegue apagar

porque já não está escrita no papel.

 

Está em nós.

 

E talvez seja isso

o que chamamos de eternidade:

 

não durar para sempre.

 

Mas existir profundamente

o bastante

para que a nossa passagem

continue acontecendo

depois de nós.

 

No fim,

talvez ninguém permaneça.

 

Nem nós.

 

Nem as casas.

 

Nem as fotografias.

 

Nem o nome gravado

naquilo que um dia acreditamos eterno.

 

Mas existe um lugar

onde o tempo não chega.

 

É aquilo que fomos

depois de ter amado.

 

E esse lugar,

 

por mais que a vida avance,

 

continua sendo nosso.

 

 

Saiba mais…

A Melancolia que Assina Comigo

 

Perguntaram por que meus poemas

têm sempre esse cinza

pousado nas frases.

 

Eu disse que não sabia.

 

Menti um pouco.

 

Sei.

 

Mas a resposta é comprida

e não cabe

em quem tem pressa.

 

Primeiro, preciso ser preciso:

não é tristeza.

 

A tristeza chega,

faz barulho,

derruba a cadeira

e vai embora.

 

A melancolia mora.

 

Paga o aluguel em silêncio

e nunca reclama da vista.

 

Também não é desistência.

 

Quem desiste

fecha o caderno.

 

Eu abro.

 

Todos os dias.

 

Como quem confere

se o cinza ainda cabe

na mesma janela.

 

Na mesa,

o abajur lança sua sombra

sobre a página em branco.

 

A sombra não escreve.

 

Mas é por causa dela

que se vê

onde a luz termina.

 

E a luz, sozinha,

nunca soube

onde termina.

 

Talvez seja isso.

 

Não escrevo a melancolia.

 

Escrevo com ela.

 

Como quem escreve

com a mão esquerda

quando a direita

já sabe demais.

 

Não peço que a entendam.

 

Peço apenas

que notem:

 

onde o verso hesita,

há um homem inteiro

 

aprendendo a chamar de casa

a companhia

que nunca pediu licença.

 

 

Saiba mais…

Infinito do Luto

 

 

Sentado à janela desta noite,

ouvi o silêncio estender-se além dos telhados,

além das colinas,

até onde os olhos desistem,

e pensei em você.

 

Não no dia em que partiste.

Antes.

 

Quando ainda existias

e eu já, sem saber,

ia me despedindo

de cada gesto teu.

 

É esta a verdade da melancolia:

não sofremos apenas o que perdemos.

Sofremos tudo aquilo que tivemos

sem reparar.

 

Preciso ser preciso:

há ausências que começam

muito antes da despedida.

 

A lua sobe lenta,

e o mundo continua.

Que ingratidão.

 

As árvores,

que a ti te pareciam belas,

reverdecem sem perguntar.

 

A natureza é indiferente.

E é por isso que a amo:

porque nela

o meu sofrimento

é de tamanho honesto.

 

Um grão de areia ama o outro grão.

A maré os separa.

Depois, a praia os arruma,

misturados,

como se o luto fosse apenas

a geometria do acaso.

 

Eu te chamei baixinho.

O vento levou.

 

E que importa?

 

O vento leva a vida,

a morte,

o nome dos mortos,

e deixa os nomes dos vivos

pesando mais.

 

Doce memória,

cruel memória.

 

Pela janela desta noite,

a imensidão que não me consola

é o único lugar

onde você ainda coube inteira.

 

 

Saiba mais…

Inventário do que Restou

 

Primeira peça: a toalha.

 

Ninguém a desdobra mais no varal,

e ela continua pendurada,

têxtil, paciente,

meio morta.

 

Segunda: o retrato.

 

Sorríamos três num quintal,

e hoje o quintal mal me reconhece.

A moldura descascou primeiro.

As madeiras sempre desistem

antes das pessoas.

 

Terceira: a caneca lascada.

 

Guardei-a por vingança ao tempo.

Toda manhã amanheço,

e a caneca continua inteira

em seu minúsculo fracasso.

 

Quarta: você.

 

Ou melhor:

o espaço que você ocupava no sofá,

a toalha que ninguém desdobra,

a caneca que não quebra,

a cadeira que empurro para dentro

quando alguém pergunta

se moro sozinho.

 

Preciso ser preciso:

 

morar não é viver.

É ensaiar uma vida

com os móveis da outra.

 

Não tenho desejo.

Tenho o hábito de desejar.

 

Não tenho saudade.

Tenho um compêndio de gestos

repetidos por falta de corpo.

 

E talvez seja isso

o que o tempo faz com a ausência:

 

não leva as coisas.

 

Apenas muda

o lugar delas dentro da casa.

 

Um dia,

a toalha cairá do varal.

 

Só então saberei

que eu também pude cair,

 

que talvez tenha sido

antes do previsto,

 

que ninguém viu,

 

que não importa,

 

e que importa tanto

que até a casa

ficará em silêncio.

 

 

Saiba mais…

 O COSTUREIRO DAS PEQUENAS HORAS

Cheguei à idade em que o chá esfria
sozinho, sem pressa,
e ninguém mais me espera
nem para discutir o tempo.

Na boca da gaveta,
botões soltos que nunca se vestiram,
chaves de portas que já não existem,
bilhetes de bonde de uma cidade
que perdeu até a lembrança dos trilhos.

Guardei essas coisas
como quem guarda o que não sabe perder.
Um botão.
Uma chave.
Um pedaço de papel
com uma letra que ainda parece me reconhecer.

Fui dando troco à vida
sem perceber que, aos poucos,
ela parou de me devolver alguma coisa.

Ficou um resto de algodão,
outro resto de nome,
e essa estranha habilidade
de continuar arrumando a casa
depois que todos já foram embora.

Preciso ser preciso:
saudade não é doer.

É ocupar com nada
o lugar exato de um corpo.

É deixar um prato na mesa
por alguns minutos a mais,
como se o hábito soubesse
alguma coisa que a razão desconhece.

Entre uma hora e outra hora,
conservo o ofício de esperar.

Às vezes o telefone brilha no escuro
e meu coração se levanta antes de mim.

Mas é apenas o vazio
passando a mão pelo fio,
lembrando que também sabe chamar.

Morrer não me assusta.

Assusta constatar
que sobrou tanto hábito no mundo
e tão pouco mundo dentro do hábito.

Então vou ao tanque
e observo a água.

Ela permanece por um instante,
depois desaparece pelo ralo
sem fazer promessa.

Talvez seja isso o tempo:

uma coisa que parece ficar
somente porque ainda está diante dos nossos olhos.

Escrevo isto,
mas o papel já não suporta
tanta quietude.

A madrugada se inclina sobre a mesa
e me devolve uma letra antiga,
uma letra de antes,
uma letra de quando eu ainda acreditava
que escrever era deixar alguma coisa.

Agora sei:

às vezes escrevemos apenas
para costurar o silêncio
no lugar onde a ausência
abriu a primeira costura.

 

Há coisas que o tempo não leva.
Apenas muda de lugar dentro da gente.

Leia o poema com calma. Talvez alguma dessas pequenas horas também seja sua.

 

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O Plano de Trás do Jardim

 

 

No fundo do quintal, onde ninguém olha,

o tempo fez morada numa cadeira,

velha, com os braços gastos de espera,

guardando uma tarde que ninguém recolhe.

 

Há coisas que a casa esquece

sem que isso pareça abandono.

 

Uma esponja adormecida junto à pia,

uma toalha secando a chuva do dia,

um telefone que já não toca

mas continua esperando alguma coisa.

 

O gato atravessa o quintal

com a tranquilidade de quem conhece

um segredo que não precisa de nome.

 

Eu o observo.

 

Talvez os animais saibam

o que nós perdemos quando aprendemos a explicar.

 

Preciso ser preciso.

 

Um grão de arroz caiu sobre a mesa.

 

Ninguém percebeu.

 

Talvez Deus tenha percebido.

 

Dizem que Deus está em tudo.

Talvez esteja justamente no que não recebe importância:

na panela esquecida sobre o fogão,

no resto de sopa que perdeu o calor,

no pão cortado sobre a madeira,

na faca que repousa depois do jantar,

como se também estivesse cansada

de separar as coisas.

 

Penso que a poesia começa aí.

 

Não quando encontramos respostas,

mas quando alguma coisa banal

de repente nos impede de continuar.

 

Uma cadeira deixa de ser cadeira.

Uma janela deixa de ser janela.

Uma tarde deixa de ser apenas tarde.

 

E aquilo que parecia pequeno

começa a nos olhar de volta.

 

Talvez seja isso que chamamos de mistério:

uma coisa tão próxima

que precisamos de distância para enxergá-la.

 

Escrevo contra a cegueira das coisas,

contra os olhos que atravessam o mundo

como quem atravessa uma estação

sem jamais perguntar

quem ficou para trás.

 

Há uma menina que passa na rua

e não olha para trás.

 

Há uma janela que permanece aberta

depois que alguém vai embora.

 

Há um copo pela metade

sobre uma mesa vazia.

 

Há uma roupa pendurada no varal

que ainda guarda, por alguns minutos,

o formato de quem a vestiu.

 

Ninguém chama isso de eternidade.

 

Talvez porque a eternidade

tenha vergonha de parecer importante.

 

Há uma cadeira.

 

Há um gato.

 

Há pão sobre a mesa.

 

Há uma tarde morrendo devagar.

 

E talvez a vida seja exatamente isso:

um conjunto de pequenas coisas

acontecendo enquanto esperamos

que alguma coisa maior aconteça.

 

O dia, tão comum, tão difícil de levar,

me ensina que existe um lugar escondido

atrás do jardim, depois do muro,

onde o silêncio parece respirar.

 

Não é um lugar para chegar.

 

É um lugar para perceber.

 

Ali, entre o mato e a sombra,

onde ninguém procura resposta,

o mistério permanece quieto.

 

Não pede nome.

 

Não pede explicação.

 

Não pede que a gente compreenda.

 

Apenas existe.

 

E talvez seja justamente por isso

que ainda conseguimos acreditar

que alguma coisa em nós

também permanece.

 

Mesmo depois da cadeira vazia.

 

Mesmo depois do telefone que não toca.

 

Mesmo depois da tarde.

 

Mesmo depois de nós.

 

Esse é o verdadeiro plano de trás do jardim:

 

aquilo que continua existindo

quando já não estamos olhando.

 

 

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O Consolo dos Relógios Parados

 

Cheguei cedo demais à minha própria vida,
e os móveis me olham com a má educação
de quem já sabia de tudo.

No armário, as camisas esperam um homem
que passou a vida inteira se aprontando
para ir a algum lugar.
Nenhuma porta, até hoje, anunciava:
entra. Este mundo era mesmo o seu.

O relógio parou às sete e quarenta.
Não lembro se de manhã ou de uma noite
que também deveria ter manhã.
Ficou assim, certo e inútil,
como a maioria das nossas decisões.

Penso em me levantar, conhecer o sol,
perdoar gente morta e responder cartas.
Depois penso melhor:
já sou homem de idade,
um dever me protege do próximo dever.

A água ferve. Faço o café.
Digo “bom dia” para a parede,
e a parede, mulher discreta,
não me responde. Ainda bem.
As respostas, na minha experiência,
só pioravam as perguntas.

Lá fora, os outros constroem alegrias,
compram flores, erram ao vivo.
Eu os observo pela janela
com a superioridade de quem
errou mais cedo e mais fundo.

E se me perguntam como vou,
respondo com verdade irrefutável:
vou saindo.

Preciso ser preciso,
porque até a palavra ausência
tem um peso diferente
quando a gente a pronuncia sozinho.

A tarde se deita nos telhados.
Deixo a louça para amanhã,
que é onde deixo também
as explicações, os protestos
e o discurso de agradecimento
ao prêmio que jamais ganhei.

À noite, a esperança, bicho teimoso,
vai ao jardim sem licença.
Não a espanto. Cansei de matá-la.
Ela morre sozinha, sabe.
Sempre soube.

Passo então a mão nos olhos
e verifico: estou aqui.
Não é pouca coisa.
Não é nada. Mas é tão meu
que ninguém o roubaria,
nem o amor chegaria
a essa rua tão particular.

Amanhã acordarei no mesmo mistério,
sem pressa, sem notícia, sem remédio.
A vida continua, dizem.
Fico contente por ela.
Desse jeito, a gente não morre:
apenas é cada vez menos
presente na própria ausência.

E no meio do peito, um homem modesto,
já quase quadrado com o próprio infortúnio,
murmura para o teto:

“Se ao menos eu tivesse sido outro...”

O teto, porém, não sabe nada de nada.
Essa é a única vantagem
de conversar com o teto.

 

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O café já esfriou, e eu também

 

A vida, meu caro, é uma bicicleta de rodas quadradas que insistimos em pedalar.

 

Amanheço, torro o pão, queimo o dedo, e já é uma vitória. Pequena, sem música, mas vitória.

 

O café desce amargo, e eu penso que esse é o acordo: o amargor a gente engole e finge que o açúcar ainda existe.

 

Há uma solidão que mora no sofá e paga aluguel em silêncio.

 

Converso com ela aos domingos, quando o telefone resolve não tocar. O telefone, esse fiel covarde, que só acorda quando já é tarde.

 

O mundo segue girando, dizem.

 

Gira, gira, e eu fico.

 

O que talvez seja a mesma coisa vista com mais tristeza.

 

A juventude foi embora sem despedida, como todos os amores que jurei eternos no carnaval da minha inocência.

 

Restou-me o espelho.

 

Esse mentiroso envelhecido, que me devolve alguém que eu não conheço e, no entanto, respeito.

 

Porque envelhecer é aprender que a esperança não morre.

 

Ela apenas cansa.

 

E há beleza nisso, afirmam os otimistas.

 

Gente suspeita, os otimistas.

 

Gente que talvez nunca tenha pagado uma conta olhando para o saldo da conta bancária.

 

Eu, que paguei todas, digo que a beleza está na brecha.

 

Na luz que entra errada pela janela.

 

No gato que me ignora com dignidade.

 

No poema que não saiu e, mesmo assim, me salvou.

 

Preciso ser preciso:

 

há coisas que não precisam acontecer para nos transformar.

 

De noite, conto as horas e elas me descontam.

 

Penso na morte com a intimidade de quem pensa num antigo amor.

 

Com cuidado.

 

De longe.

 

Sabendo que um dia ela passa aqui pela rua e bate à porta.

 

Sem pressa.

 

Porque sabe que a porta, afinal, é dela.

 

Até lá, sigo.

 

Sigo porque o pão ainda precisa de torradeira.

 

Porque o verso ainda aceita habitar minha caneta barata.

 

Porque há, no fim da tarde, um céu que ninguém merece e que, mesmo assim, se oferece.

 

Isso não é felicidade.

 

É quase.

 

E o quase, meu caro, é o que temos.

 

E, sinceramente,

 

já é muito mais

 

do que pedimos.

 

 

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CPP