Posts de Kleber Luis Antônio Pinheiro (289)

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A Revolta das Cores

 

O azul disse que está cansado de ser só fundo de quadro.

Quer ser camisa de festa, quer ser céu de domingo, quer ser abraço de manta.

 

O amarelo concordou.

Disse que só vive em post-it de urgência, em sinal de atenção.

Quer ser sol na janela, quer ser pão na mesa, quer ser alegria sem motivo.

 

O vermelho calou.

Sempre foi o dramático.

Mas confessou, baixinho: queria, só uma vez, ser cor de descanso, de chaleira no fogo, de nada demais.

 

Eu abri a caixa de lápis e deixei eles saírem.

Agora o céu é roxo, a rua é laranja, e eu ando pintado de todas as cores que se recusam a ser só uma.

 

Viva a revolta.

Viva a cor que inventa.

 

 

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Sal

 

Há um grão de sal em tudo que eu toco, 

no pão que amasso de manhã, na ferida calada,

na boca que ainda guarda o nome de alguém

e no grito que afundo como âncora no escuro.

 

Fui feito de água e dessa coisa branca

que queima o que ama e preserva o que sangra,

que sobe na lágrima quando a maré parte

e desce na garganta quando o corpo recusa o choro.

 

Sal é o nome preciso da saudade, 

o que sobra quando o mar retira a espuma.

É a crosta que o tempo deposita

na parede interna da memória,

o rastro que o corpo imprime na areia úmida,

o gosto que permanece depois de toda perda.

 

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A Revolução do Pão com Manteiga

 

Hoje não vou salvar o mundo. Vou fazer pão.

Vou sovar a farinha como quem acalma um gato assustado. Devagar. Sem pressa de ser herói.

O fermento é preguiçoso, precisa de tempo para acreditar que pode crescer. Eu também.

Enquanto a massa descansa, eu descanso. Isso é revolução: ficar parado sem culpa.

O forno esquenta devagar, como quem esquenta um abraço que ninguém pediu, mas todo mundo precisa.

Quando o pão doura, a casa inteira fica pequena de tanto cheiro de festa. A manteiga derrete como notícia boa.

Não preciso de trono. Preciso desta mesa, desta cadeira, deste pão que eu fiz com as próprias mãos inseguras.

A revolução não grita. Ela cheira a pão quente e convida quem passa: "Senta. Come. Fica."

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O Inventário do Sorriso

 

Acordei com um sorriso na gaveta, aquele que guardo para dias comuns.

Abri a janela. O vento entrou como quem chega de viagem: sem avisar, cheio de histórias.

A água da torneira cantou uma música que só ela conhece. Eu aprendi a letra na hora.

O espelho mostrou alguém que eu não reconheci de imediato. Era eu, versão de domingo.

No mercado, a goiaba me olhou. Eu olhei de volta. Fizemos as pazes: eu comendo, ela sendo doce.

A tarde chegou de bicicleta, sem capacete, sem pressa. Deixei ela parar no meu quintal.

O crepúsculo pintou o céu com cores que não têm nome. Eu inventei um: felicidade.

Antes de dormir, guardei o sorriso de volta na gaveta. Mas deixei a gaveta entreaberta. Amanhã ele sai sozinho.

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RUÍNAS EM CONSTRUÇÃO

Há uma obra aberta no meio do peito 

andaimes sobre o que já desabou,
cimento fresco nos vãos do que amei
e perdi antes de saber o nome da perda.

Não sou o que ficou em pé.
Sou o que insiste em erguer paredes
onde o vento já escolheu morar.

Cada palavra que digo é tijolo e rasura.
Cada silêncio, a argamassa úmida
de uma manhã que não terminou de secar.

Construo com o que restou do incêndio 
vigas tortas, promessas pela metade,
a sombra de um rosto que se tornou paisagem.

E talvez seja assim o que chamo de mim:
nem ruína, nem casa 
o intervalo entre o que caiu
e o que ainda não sabe que vai cair.

Mas continuo.
Mão na pedra.
Olho no vazio que um dia terá janela.

Há beleza nisso, 
nessa teimosia de construir
onde qualquer arquiteto desistiria.

Sou o pedreiro e o escombro.
A fratura e o fio de prumo.

O homem que ergue
e o homem que, erguendo, aprende
que toda construção é uma ruína
que ainda não chegou ao seu tempo.

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ENTRE PÉTALAS E SILÊNCIOS

Há uma flor que não se nomeia,

cresce entre o que fui e o que ainda não sei ser,
entre a pedra úmida da manhã
e o vento que não encontrou parede.

Toquei o mundo com as mãos abertas
e o mundo sangrou em mim como fruta.
Aprendi que a beleza não pede licença,
entra, desorganiza os móveis da alma,
senta onde não havia cadeira.

Sou feito de pétalas que caíram antes de mim,
de silêncios que outros não suportaram guardar.
Carrego no peito uma cidade que arde devagar,
e nos pés, o barro de todos os rios que atravessei sozinho.

O amor me ensinou a forma do medo.
O medo me ensinou a duração do amor.
Entre os dois, construí uma casa sem teto,
para que a chuva soubesse o caminho.

Há dias em que sou vasto,
contenho pradarias, marés, o grito surdo dos pinheiros.
Há dias em que caibo num único nervo
pulsando no escuro como inseto perdido.

Mas sempre as pétalas.
Sempre o silêncio entre elas,
esse branco que não é ausência,
é a respiração da coisa viva antes de partir.

Não chorei por perda.
Chorei pela exatidão com que o belo passa,
sem pressa, sem culpa,
como se soubesse que é eterno justamente por não durar.

Entre pétalas e silêncios
aprendi a minha língua verdadeira:
não a das palavras,
mas a do instante em que me calo
e o mundo, enfim, me responde.

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GALÁXIAS EM CURTO-CIRCUITO

 

Há uma faísca no meio do peito
onde o cosmos dobra sobre si mesmo ,
não é luz, é o avesso da luz,
aquele branco que antecede o branco.

Eu fui ensinado a nomear as estrelas
como quem nomeia as feridas:
com distância, com régua, com medo.

Mas esta noite o firmamento falhou
e eu caí dentro de mim
sem paraquedas, sem mapa, sem nome.

O universo às vezes se esquece
de manter as distâncias certas.

Nebulosas colidem. Buracos negros
engolem o próprio silêncio.

E eu , pequena anomalia entre galáxias ,
aprendi que o curto-circuito
não é a falha do sistema:
é o sistema dizendo
eu também sinto.

Existe uma corrente entre dois corpos
que a física chama de campo
e eu chamo de tarde de domingo,
de mão encontrando mão no escuro,
de palavra que chega antes da voz.

Quando o cosmos entra em colapso
não some , se transforma.

A matéria não sabe morrer,
só sabe mudar de endereço.

E talvez eu seja isso:
energia que errou o trajeto,
luz que chegou atrasada
a uma estrela que já não existe ,

mas chegou,
mas chegou,
mas chegou.

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TE DESEJO EM TODAS AS VERSÕES DO TEMPO

 

Te desejo no pretérito ,

naquele instante em que eu ainda não sabia

que seria você o nome

que minha boca aprenderia de cor,

sem ter sido ensinada.

 

Te desejo no presente

que nunca para,

no agora que escorrega entre os dedos

como água que não se prende

mas molha tudo que toca.

 

Especialmente eu.

Especialmente aqui.

 

Te desejo no futuro que invento

quando durmo ,

cidade ainda não construída,

rua sem calçamento,

casa com janela voltada

para um mar que só existe

porque te imaginei perto dele.

 

Te desejo no condicional ,

no que teríamos sido

se o acaso fosse mais corajoso,

se o tempo tivesse nos dado

não o encontro,

mas a permanência.

 

Te desejo no gerúndio:

amando, chegando, ficando.

 

Verbos que não querem terminar.

Que recusam o ponto final

como eu recuso

qualquer versão de mim

em que você não aparece.

 

Te desejo no imperfeito,

que é o tempo mais honesto ,

o que diz: havia, existia, ardia ,

e guarda nas entranhas

tudo aquilo que durou

mais do que deveria,

menos do que precisava.

 

E te desejo no tempo

que não tem nome ainda:

aquele que os gramáticos esqueceram,

onde duas pessoas se olham

e o relógio entende

que é hora de parar de contar.

 

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SILÊNCIO QUE FLORESCE

 

Aprendi com o tempo

que nem todo silêncio

é ausência.

 

Tem silêncio que é semente.

 

Que desce fundo,

fica escuro,

fica quieto 

e um dia

empurra a terra

sem pedir permissão.

 

Fui homem de muitas palavras.

Enchi o ar

para não ouvir

o que estava por baixo.

 

Confundi eloquência com coragem.

Falei bonito

sobre tudo

que não conseguia sentir.

 

Até que o silêncio

cansou de esperar

e floresceu

no meio da frase.

 

Não era vazio.

Era raiz.

 

Há um silêncio entre dois corpos

que vale mais

do que qualquer declaração.

 

É o silêncio de quem ficou

depois que a festa acabou.

De quem não precisou

de plateia

para saber que estava

no lugar certo.

 

Esse silêncio tem cheiro.

Tem peso de coisa viva.

 

Tem a textura

de uma mão

que não pergunta nada

e mesmo assim

responde tudo.

 

Hoje cultivo o meu.

 

Rego com paciência,

com os erros que não repito mais,

com as noites que atravessei

sem saber

que estava me tornando

solo fértil.

 

E quando floresce ,

e ele floresce,

sempre floresce ,

 

não é com estardalhaço.

 

É uma flor pequena.

Quase discreta.

 

Do tipo que só quem

 

aprendeu a olhar devagar

consegue ver.

 

Mas está lá.

Teimosa.

Viva.

Minha.

 

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LUA GUARDADA NO BOLSO

 

Tenho uma lua no bolso.

 

Não é metáfora 

é aquela luz que alguém deixou

sem querer,

numa tarde que não tinha

nada de especial

e por isso ficou para sempre.

 

Não mostro para ninguém.

 

Não porque seja segredo 

mas porque há coisas

que a gente guarda

não por medo de perder,

mas por medo de que

ao mostrar

deixem de ser

o que são.

 

Carrego ela nos dias cinzas.

 

Nos dias em que o mundo

tem cara de segunda-feira

e a beleza parece ter viajado

sem deixar endereço.

 

Aí eu coloco a mão no bolso 

só isso ,

e sei que existe

algo que não se desfez.

 

Já perdi muita coisa.

Perdi com elegância,

perdi com choro,

perdi sem entender,

perdi e fingi que estava bem

até estar.

 

Mas essa lua

não perdi.

 

Talvez porque nunca foi minha

de verdade.

 

Era emprestada do universo

e o universo

não cobra de volta

o que foi dado com amor.

 

Tem noite que ela esquenta.

Tem noite que ela só ilumina

o suficiente para eu ver

onde estou ,

 

não aonde vou,

só onde estou ,

 

e isso,

às vezes,

é o que basta.

 

Guardo ela aqui.

Do lado esquerdo.

 

Perto do osso que não dobra.

Perto do nome

que não digo em voz alta

mas repito por dentro

como quem reza

sem religião

e acredita

mesmo assim.

Saiba mais…

Há um lugar sem mapa

entre a pele e o infinito,

uma linha tão tênue

que o mundo não a vê,

mas o coração reconhece

como quem reconhece a própria sede

antes mesmo de dizer seu nome.

 

É na beira de um abraço

que o eu vacila.

Ali, onde os ombros aprendem silêncio

e o peito encosta no destino de outro peito,

alguma coisa cede 

não como quem perde,

mas como quem finalmente descansa

da obrigação de ser ilha.

 

Porque sozinho,

o eu é um quarto com eco,

uma chama tentando se aquecer

na própria febre.

 

Mas quando o abraço chega,

não como posse,

não como prisão,

mas como morada breve

onde duas faltas se reconhecem,

então nasce o milagre:

o contorno já não é muro,

é ponte.

 

Teu cansaço encosta no meu

e de repente pesa menos.

Teu medo senta ao lado do meu

como dois estrangeiros

que descobrem ter a mesma língua.

 

E eu começo a ouvir meu nome

dito por dentro de outro corpo.

 

Que estranho e belo é isso:

não desaparecer,

mas alargar-se.

Não deixar de ser,

mas ser além.

 

Como um rio que encontra o mar

e não morre ,

apenas aprende

que também era imensidão.

 

O abraço é essa fronteira sem violência,

esse país sem bandeiras

onde o eu depõe as armas

e a solidão, por um instante,

desaprende seu ofício.

 

E então,

sem palavra,

o “nós” acontece.

 

Talvez amar seja isso:

tocar o limite de si

e descobrir

que do outro lado

não há fim ,

há continuação.

 

E que a fronteira do abraço

nunca foi o lugar

onde o eu desaparece,

mas onde ele, enfim,

deixa de ser sozinho.

 

 

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Última vez

 

 

 

Teve uma última vez que você dormiu no meu ombro

sem saber que era a última.

O trem andava. Eu não mexi.

 

Teve uma última vez que sua mãe te chamou de volta

antes de você sair pela porta ,

e você foi, com pressa, sem virar.

 

Teve uma última vez que a gente riu daquilo

que só a gente entendia.

Depois a piada ficou sem dono.

 

Teve uma última vez que o cachorro subiu na cama.

Você reclamou. Ele ficou.

Nenhum dos dois sabia.

 

A vida não avisa.

Ela simplesmente vira a página

enquanto você ainda está lendo.

 

E é por isso que eu te olho agora ,

agora, exatamente agora ,

como quem guarda alguma coisa

sem saber ainda o quê.

Saiba mais…

O QUE FICA DEPOIS DO NOME

 

 

Tem uma hora do dia

que o silêncio pesa mais que a palavra.

 

Não é tristeza , é só o peso

de tudo que continua

sem precisar de mim.

 

O vento não sabe o meu nome.

A luz da tarde também não.

 

E mesmo assim me alcançam,

me atravessam,

me deixam aqui , inteiro e inútil

como uma porta aberta para o mar.

 

Eu aprendi tarde

que pertencer não é ficar.

É estar presente

na ausência certa,

no silêncio que não explica

mas sustenta.

 

O que me constitui

não cabe em biografia.

É o instante antes do choro,

o sorriso que não saiu,

o amor que ficou por dentro

e virou raiz.

 

Talvez seja isso a vida:

uma janela que ninguém fecha,

uma luz que esqueceram acesa ,

e alguém, do lado de fora,

que olha e pensa

alguém mora aqui.

 

 

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CREPÚSCULO EM VIDRO FOSCO

 

A luz que resta não é luz 

é a memória da luz,

aquela coisa mole e amarela

que escorrega pelo vidro

como quem se despede

sem ter coragem de dizer adeus.

 

Fiquei aqui.

Fiquei aqui enquanto o dia morria devagar,

com a dignidade triste

de quem aprendeu que partir

também é uma forma de amor.

 

O vidro fosco guarda tudo sem mostrar nada.

Assim são certas pessoas 

presença que protege,

silêncio que aquece,

e quando somem,

a claridade dói mais do que a escuridão.

 

Há uma hora no fim da tarde

em que o mundo hesita.

Nem dia, nem noite.

Apenas esse instante suspenso

em que o coração sabe

o que a boca nunca vai saber dizer.

 

Eu te amei nessa hora.

Te amei no indeciso,

no quase,

no talvez que nunca virou certeza

porque a certeza teria peso demais

para duas mãos tão cansadas.

 

O crepúsculo não pede permissão.

Vem mesmo quando rogamos pela tarde.

Vem mesmo quando ainda temos tanto

para terminar de viver.

 

E eu aqui,

do lado de dentro do vidro fosco,

vendo o mundo ficar laranja, depois cinza,

depois nada 

 

pensando que talvez seja isso o luto:

não a ausência,

mas essa luz que insiste em lembrar

o que já foi quente

e agora mal aquece.

 

Fica, eu quis dizer.

Mas o crepúsculo não fala português.

 

E o vidro entre nós

sempre foi fosco demais

para que qualquer adeus

chegasse límpido

ao outro lado.

 

 

Saiba mais…

O QUE FICOU NA GARGANTA

 

Há palavras que nunca saíram.

Ficaram ali ,

entre o pensamento e o lábio,

entre o coragem e o medo ,

e envelheceram dentro de mim

como fruta esquecida no fundo da gaveta.

 

Eu quis dizer: fico.

Eu quis dizer: não vá.

Eu quis dizer tantas coisas

que o silêncio foi crescendo

e virou parede,

e a parede virou casa,

e eu morei anos

dentro do que não falei.

 

Ninguém sabe disso.

As pessoas veem um homem de pé,

veem um homem que responde,

que sorri na hora certa,

que passa.

 

Não sabem que por dentro

carrego um cemitério de frases ,

todas com flores,

todas sem túmulo,

todas pronunciadas

só no escuro,

só quando já era tarde,

só quando o outro

já não estava mais

do outro lado.

 

A mais cruel das perdas

não é a do que vivemos.

É a do que deixamos

morrer antes de nascer.

 

É o eu te amo guardado

para a ocasião perfeita

que nunca chegou.

 

É o perdão que ensaiei

na frente do espelho

e engoli.

 

Agora carrego tudo isso

com uma delicadeza absurda ,

como quem transporta vidro

sem saber que já está

em cacos

há muito tempo.

 

 

Saiba mais…

AS CONFISSÕES DE UM BEIJA-FLOR

 

Não me peças quietude.

Sou feito do que passa

e não deixa marca ,

só a flor sabe

que estive aqui.

 

Meu pecado é a velocidade:

amo tudo antes de entender

e parto antes de ser amado

de volta.

 

Dizem que sou belo.

Mas beleza, em mim,

é apenas o nome que os outros dão

ao medo que tenho

de pousar.

 

Já provei o néctar de mil bocas floridas

e nenhuma me saciou ,

não porque fossem poucas,

mas porque a fome

não é do mel:

é do voo que me leva a ele.

 

Confesso:

às vezes paro no ar

, milagre que poucos notam ,

e nesse instante suspenso

existe em mim

algo parecido com paz.

 

Mas só parecido.

Logo o coração acelera outra vez

como se soubesse

o que a mente ainda recusa:

 

que parar

é uma forma de morrer

para quem nasceu

sendo o próprio movimento.

 

Então vou.

De flor em flor,

de luz em luz,

confessando a cada pétala

o que não sei dizer em repouso —

 

que amei,

que passei,

que fui real

pelo menos enquanto o ar

ainda vibrava

com o som das minhas asas.

 

 

Saiba mais…

 

Não há sangue visível,

mas eu manco.

 

Atravesso os dias como quem

atravessa um quarto escuro 

devagar, com as mãos à frente,

esperando o impacto

que sempre vem.

 

Os espinhos não têm nome.

São feitos de silêncio acumulado,

de abraços que não aconteceram,

de palavras ditas tarde demais

ou nunca.

 

Minha alma aprendeu

a não se queixar.

Aprendeu a sorrir no corredor,

a dizer estou bem

com a voz de quem ensaiou

por anos.

 

Mas à noite 

quando o mundo fecha os olhos 

ela tira os sapatos

e sente tudo

de uma vez.

 

E eu deixo.

 

Porque doer, às vezes,

é a única prova

de que ainda estou aqui.

 

 

Saiba mais…

Ar

 

Ar,

e já é demais nomeá-lo.

 

Existe antes do nome,

antes do gesto,

antes do pensamento

que ainda não sabe

que vai pensar.

 

Dança nas folhas

como quem dança por dentro de si mesmo,

inclina cortinas

com a delicadeza de quem

nunca quis ser visto.

 

Empurra nuvens

com a mesma força

com que uma palavra empurra o silêncio

para que outro silêncio possa existir.

 

Mora entre um suspiro e outro

e esse intervalo

é onde a vida hesita

antes de continuar sendo.

 

Às vezes brisa:

coisa leve feito lembrança

que não pede para ser guardada.

 

Às vezes vento:

algo que veio de longe

e passou por nós

como se fôssemos parte

do seu destino,

não o contrário.

 

Às vezes tempestade,

e então o céu diz aquilo

que nenhuma palavra

teria coragem de dizer.

 

O ar é o invisível em serviço do mundo.

É o peito que respira “ainda”

sem saber que esse ainda

é tudo.

 

É a vida que entra sem pedir licença

porque nunca precisou de licença ,

ela é a dona.

 

Quando falta,

a gente aprende.

 

Aprende o nome errado das coisas,

aprende o peso do que sempre foi leve,

aprende que havia um amor muito antigo

naquilo que nunca olhou.

 

Ar:

tão simples que assusta,

tão imenso que cabe em nós,

tão perto

que só se descobre

quando a falta dele

finalmente apresenta

o que estava aqui

o tempo todo,

dentro,

sem ter forma de ficar,

mas ficando.

 

 

Saiba mais…

Castelo de Sal

Construí com as mãos o que as mãos não guardam 

parede por parede, grão por grão de tempo,

erguendo o que o mar, paciente, já aguardava

para desfazer com sua língua lenta.

 

Havia uma janela voltada para dentro.

Não para o horizonte , para aquela coisa

que não tem nome ainda, mas existe

como existe o silêncio entre duas ondas.

 

Morei ali. Fui dono de uma casa

feita da mesma substância das lágrimas.

 

Tudo reluzia , e esse brilho me assustava,

porque era belo demais para durar.

 

Sou o que dissolve e o que persiste.

Sou o sal que foi pedra e virou mar.

 

Havia em mim um castelo. Havia um reino.

Havia a necessidade urgente de ser real.

 

A maré não perguntou se eu estava pronto.

Veio com a indiferença das coisas verdadeiras.

 

E eu, que aprendi a amar a própria forma,

aprendi também a amar o que se desfaz.

 

Resto agora como gosto na água 

presente em tudo, visível em nada,

 

sabendo que fui sólido uma vez

e que isso, talvez, já seja suficiente.

Saiba mais…

LÂMINA DE ÁGUA



Há coisas que não cortam
e, ainda assim,
abrem.

A água sabe.

Desce pela pedra
sem ruído de faca,
sem anúncio,
sem a pressa violenta
das coisas que querem vencer.

E no entanto
fere.

Não por brutalidade 
por insistência.

Eu te conheci assim:
como quem toca
e não parece tocar,
como quem passa
e deixa no mundo
uma alteração tão fina
que ninguém vê de imediato,
mas tudo, depois,
já não é o mesmo.

Havia em você
essa delicadeza afiada
de quem não chega rasgando 
apenas separa
o antes
do depois.

Teu silêncio, às vezes,
tinha a exatidão da água
quando encontra
a fresta exata da rocha
e decide
ficar ali,
paciente,
até que a rocha
aprenda a ceder.

Foi assim em mim.

Não houve estrondo.
Não houve queda visível.
Houve erosão.

Um trabalho lento,
quase invisível,
de me tornar outro
sem perceber
em que ponto
deixei de ser
quem era.

E eu, que sempre temi
o que fere,
aprendi contigo
que há cortes
que não vêm para destruir.

Há cortes
que desenham.

A água sabe disso.

Ela divide a luz
sem quebrá-la,
carrega céu
sem deixar de ser rio,
atravessa o corpo
sem pedir licença
e, ainda assim,
purifica o lugar
por onde passou.

Talvez amar
se pareça com isso:
não o golpe,
mas a lâmina translúcida
que toca fundo
sem ferocidade.

O amor não como incêndio,
mas como água precisa 
essa que escorre
pela parte mais secreta da pedra
até fazer dali
nascente.

E se hoje há em mim
algo mais claro,
algo mais fundo,
algo que dói
com a calma das coisas verdadeiras,
é porque você passou
como passa a água:
sem alarde,
sem posse,
sem pedir que eu entendesse.

Mas abrindo.
Sempre abrindo.

Até que eu pudesse ver
que também a delicadeza
tem fio,
tem corte,
tem destino 

e que algumas feridas
não sangram:
brilham.

Saiba mais…
CPP