Há coisas que não cortam
e, ainda assim,
abrem.
A água sabe.
Desce pela pedra
sem ruído de faca,
sem anúncio,
sem a pressa violenta
das coisas que querem vencer.
E no entanto
fere.
Não por brutalidade
por insistência.
Eu te conheci assim:
como quem toca
e não parece tocar,
como quem passa
e deixa no mundo
uma alteração tão fina
que ninguém vê de imediato,
mas tudo, depois,
já não é o mesmo.
Havia em você
essa delicadeza afiada
de quem não chega rasgando
apenas separa
o antes
do depois.
Teu silêncio, às vezes,
tinha a exatidão da água
quando encontra
a fresta exata da rocha
e decide
ficar ali,
paciente,
até que a rocha
aprenda a ceder.
Foi assim em mim.
Não houve estrondo.
Não houve queda visível.
Houve erosão.
Um trabalho lento,
quase invisível,
de me tornar outro
sem perceber
em que ponto
deixei de ser
quem era.
E eu, que sempre temi
o que fere,
aprendi contigo
que há cortes
que não vêm para destruir.
Há cortes
que desenham.
A água sabe disso.
Ela divide a luz
sem quebrá-la,
carrega céu
sem deixar de ser rio,
atravessa o corpo
sem pedir licença
e, ainda assim,
purifica o lugar
por onde passou.
Talvez amar
se pareça com isso:
não o golpe,
mas a lâmina translúcida
que toca fundo
sem ferocidade.
O amor não como incêndio,
mas como água precisa
essa que escorre
pela parte mais secreta da pedra
até fazer dali
nascente.
E se hoje há em mim
algo mais claro,
algo mais fundo,
algo que dói
com a calma das coisas verdadeiras,
é porque você passou
como passa a água:
sem alarde,
sem posse,
sem pedir que eu entendesse.
Mas abrindo.
Sempre abrindo.
Até que eu pudesse ver
que também a delicadeza
tem fio,
tem corte,
tem destino
e que algumas feridas
não sangram:
brilham.