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Castelo de Sal

Construí com as mãos o que as mãos não guardam 

parede por parede, grão por grão de tempo,

erguendo o que o mar, paciente, já aguardava

para desfazer com sua língua lenta.

 

Havia uma janela voltada para dentro.

Não para o horizonte , para aquela coisa

que não tem nome ainda, mas existe

como existe o silêncio entre duas ondas.

 

Morei ali. Fui dono de uma casa

feita da mesma substância das lágrimas.

 

Tudo reluzia , e esse brilho me assustava,

porque era belo demais para durar.

 

Sou o que dissolve e o que persiste.

Sou o sal que foi pedra e virou mar.

 

Havia em mim um castelo. Havia um reino.

Havia a necessidade urgente de ser real.

 

A maré não perguntou se eu estava pronto.

Veio com a indiferença das coisas verdadeiras.

 

E eu, que aprendi a amar a própria forma,

aprendi também a amar o que se desfaz.

 

Resto agora como gosto na água 

presente em tudo, visível em nada,

 

sabendo que fui sólido uma vez

e que isso, talvez, já seja suficiente.

Saiba mais…

LÂMINA DE ÁGUA



Há coisas que não cortam
e, ainda assim,
abrem.

A água sabe.

Desce pela pedra
sem ruído de faca,
sem anúncio,
sem a pressa violenta
das coisas que querem vencer.

E no entanto
fere.

Não por brutalidade 
por insistência.

Eu te conheci assim:
como quem toca
e não parece tocar,
como quem passa
e deixa no mundo
uma alteração tão fina
que ninguém vê de imediato,
mas tudo, depois,
já não é o mesmo.

Havia em você
essa delicadeza afiada
de quem não chega rasgando 
apenas separa
o antes
do depois.

Teu silêncio, às vezes,
tinha a exatidão da água
quando encontra
a fresta exata da rocha
e decide
ficar ali,
paciente,
até que a rocha
aprenda a ceder.

Foi assim em mim.

Não houve estrondo.
Não houve queda visível.
Houve erosão.

Um trabalho lento,
quase invisível,
de me tornar outro
sem perceber
em que ponto
deixei de ser
quem era.

E eu, que sempre temi
o que fere,
aprendi contigo
que há cortes
que não vêm para destruir.

Há cortes
que desenham.

A água sabe disso.

Ela divide a luz
sem quebrá-la,
carrega céu
sem deixar de ser rio,
atravessa o corpo
sem pedir licença
e, ainda assim,
purifica o lugar
por onde passou.

Talvez amar
se pareça com isso:
não o golpe,
mas a lâmina translúcida
que toca fundo
sem ferocidade.

O amor não como incêndio,
mas como água precisa 
essa que escorre
pela parte mais secreta da pedra
até fazer dali
nascente.

E se hoje há em mim
algo mais claro,
algo mais fundo,
algo que dói
com a calma das coisas verdadeiras,
é porque você passou
como passa a água:
sem alarde,
sem posse,
sem pedir que eu entendesse.

Mas abrindo.
Sempre abrindo.

Até que eu pudesse ver
que também a delicadeza
tem fio,
tem corte,
tem destino 

e que algumas feridas
não sangram:
brilham.

Saiba mais…

INACABADO

 

 

 

A tela não começa branca , começa com o que já me atravessa.

 

Há um fundo que não escolhi: um azul que não é céu, é pensamento insistindo em não se resolver.

 

Minha mão não conduz ,ela cede.

 

Há coisas que se fazem antes de serem entendidas.

 

E é aí que você aparece.

 

Não como foi, nem como ficou, mas como ainda reverbera no que não terminou em mim.

 

Não te desenho , te deixo acontecer.

 

Desloco contornos, dissolvo arestas, e o que sobra não é forma , é tentativa.

 

Misturo o que lembro com o que nunca existiu, até que já não saiba onde termina o fato e começa a necessidade.

 

As estrelas surgem sem que eu chame. Não iluminam , pressionam.

 

Como ideias que excedem quem tenta contê-las.

 

Há um vento que não passa pelo mundo, passa por dentro , inclina tudo levemente como se algo estivesse quase sendo dito.

 

E no centro há um olhar.

 

Não fixo, não inteiro, mas preso entre o que percebe e o que não encontra linguagem.

 

Porque ver demais também fere.

 

E há coisas que só doem porque fazem sentido demais.

 

Volto, desfaço, apago sem saber, deixo que a falha respire.

 

Não corrijo , convivo.

 

Camadas não se somam, se contradizem.

 

O tempo não seca , se infiltra.

 

E o que antes era gesto agora é ruído que insiste em permanecer.

 

O mundo passa ,rápido demais pra sustentar o que vê.

 

Nomeia errado, simplifica, segue.

 

E o que era ruptura vira paisagem.

 

Há uma solidão aqui que não pede companhia , pede tradução.

 

Mas não há.

 

E talvez nunca haja.

 

No fim, eu me afasto.

 

Não pra ver melhor , mas porque já não sei onde termino eu e começa o que fiz.

 

E então entendo:

 

não era você que faltava àquilo ,

 

era o limite em mim de aceitar o que não pode ser inteiro.

 

A obra não resolve. Não responde. Não se explica.

 

Mas permanece.

 

Como tudo que não encontra forma e mesmo assim recusa desaparecer.

 

E talvez ,só talvez ,

 

a eternidade seja isso:

 

não o que dura, mas o que insiste,

 

mesmo depois de não caber mais em nada.

 

Nem em nós.

 

 

Saiba mais…

Gratuito

 

Antes dos reinos,

antes das muralhas erguidas pela fome dos homens,

antes do ouro pesar mais que o sangue,

havia já uma força sem dono,

um clarão sem moeda,

um nome lançado ao mundo

como espada de luz:

Gratuito.

 

Não nasceu em palácios,

nem foi escrito nos selos dos reis.

Veio do invisível,

da parte mais antiga do fogo,

onde os sonhos

ainda falavam a mesma língua.

 

Seu passo não comprava estradas,

abria.

Sua mão não pedia tronos,

erguia os caídos.

 

Seu poder não vinha da posse,

mas daquilo que só os imensos compreendem:

dar sem diminuir,

arder sem consumir-se,

vencer sem dominar.

 

E quando os impérios cobriram a terra

com suas bandeiras e pactos de pedra,

Gratuito caminhou entre eles

como um cometa entre torres.

 

Os mercadores não puderam medi-lo.

Os generais não puderam dobrá-lo.

Os sábios, cercados de mapas e números,

curvaram a fronte,

pois viram que há forças

que não cabem em conta alguma.

 

Seu nome era lembrança e profecia:

a fonte corre sem cobrar do sedento,

o sol derrama ouro até sobre os esquecidos,

e o universo não se sustenta pela barganha,

mas pelo que existe para ser dado.

 

Gratuito avançou por desertos

onde homens vendiam a própria esperança,

e ali plantou silêncio,

e do silêncio nasceram rios.

 

Entrou em cidades partidas pela ambição

e soprou um vento antigo,

até que os muros aprenderam

que nenhuma pedra é eterna

quando o coração se levanta.

 

Mas não era manso.

 

Havia nele a violência sagrada

das tempestades justas.

Quebrava correntes,

derrubava ídolos

com o peso da verdade.

 

Pois aquilo que é livre por essência

torna-se guerra

contra tudo que tenta aprisionar a luz.

 

E no fim, quando os séculos passarem

e os nomes dos conquistadores virarem pó,

ainda restará este nome:

 

Gratuito.

 

Não como preço.

Não como favor.

Não como sobra.

 

Mas como destino.

Como princípio.

Como grandeza.

 

Porque só é eterno

aquilo que pode ser oferecido

sem medo de acabar.

 

Kleber Luís Antônio Pinheiro

Saiba mais…

O JARDIM NO FIM DO CAMINHO

 

Nas margens do tempo, havia um jardim

que florescia só para quem chegava no fim.

Não tinha castelo, nem fada, nem rei,

só um lago calado e um caminho sem lei.

 

Dizem que ali morava uma moça sem nome,

tecia com o vento e comia da fome

de tudo que falta no peito da gente:

um gesto, uma volta, um sol diferente.

 

Toda manhã ela fiava lembranças

com linha de chuva e perfume de tranças,

e à noite escondia, num cofre de barro,

os sonhos quebrados de um velho cigarro.

 

Um dia passou por ali um rapaz

com passos de sombra e silêncio demais.

Trazia nos olhos um mapa queimado

e um coração quase desabitado.

 

"Procuro um lugar onde a dor adormeça."

Ela sorriu sem mover a cabeça.

"Dor não dorme, moço. Dor aprende a cantar.

Senta no jardim, que eu vou te mostrar."

 

Então lhe deu água colhida da lua,

fruta de inverno e uma manta crua.

Foram-se estações, ela virou chão,

e o amor foi nascendo sem pedir permissão.

 

Mas todo jardim cobra um preço do encanto:

as flores bebiam da alegria e do pranto.

Quanto mais se amavam debaixo do céu,

mais o lago secava, mais murchava o vergel.

 

Veio então a guardiã da terra ferida,

vestida de hera e casca ressequida:

"Um de vocês parte antes da alvorada,

ou tudo aqui vira poeira calada."

 

O rapaz quis ir, por amor e coragem.

A moça sorriu, desfez a miragem.

"Você veio ao jardim para reaprender.

Eu sou feita dele. Nasci para perder."

 

Na última noite, de mãos entrelaçadas,

ouviram as folhas contando jornadas.

Ela encostou nele a testa, de leve,

como quem já sabe o peso da neve.

 

"Quando você ouvir o vento no pomar,

não pense em tristeza, nem tente voltar.

Quem ama de verdade não some no escuro:

vira raiz funda, sustenta o futuro."

 

Ao nascer do dia, o jardim floresceu.

Onde a moça dormia, um lírio nasceu.

O rapaz foi embora, sem reino, sem coroa,

mas levava no peito uma presença que ecoa.

 

Quem anda sozinho e encontra um jardim

no fim do caminho escuta, por fim,

no vento, baixinho, sem pressa nem véu:

há amores que acabam virando jardim.

 

 

Saiba mais…

O Que Ficou Do Vento

 

 

O que ficou do vento

não tem nome nem morada.

Passou entre as crianças,

dobrou a última estrada.

 

Havia uma canção

que ninguém havia aprendido ,

soava como a água

antes de ter sido.

 

Eu procurei nos campos

a sombra que me seguia.

Era apenas a tarde

despindo-se do dia.

 

Não me perguntes quando.

O tempo não tem janelas.

Vivemos de passagem

entre estrelas e velas.

 

Há um jardim que some

cada vez que me aproximo.

Há um rosto que regresso

sem saber o que destino.

 

Tudo o que foi eterno

era feito de areia fina.

Tudo o que foi passagem

em mim ainda ressoa e caminha.

 

Fica, portanto, o vento

 não como vento, mas como ausência.

Fica o que nunca esteve:

a mais pura das presenças.

 

 

Saiba mais…

ROSA LUNAR PLANTADA NO MEIO DO MAR

 

Rosa lunar plantada no meio do mar.

Não existe água que apague o que a lua semeia.

 

A rosa que não pede terra

aprendeu a florescer na espuma ,

cada onda é um pétalo

que se recusa a morrer.

 

Eu a vi, uma noite,

quando o mar estava mais silencioso

que o próprio silêncio.

Ela flutuava

sem raiz,

sem âncora,

sem desculpa.

 

Quem precisa de chão quando tem sal?

Quem precisa de jardim quando tem escuridão iluminada?

 

A maré vem,

a maré vai,

e ela continua lá ,

flor que não nasceu para ser colhida,

nem para ser compreendida.

Apenas para ser.

 

E ser, descobri tarde,

é o ato mais violento que existe.

Mais do que florescer.

Mais do que durar.

 

Ser é não pedir permissão

nem ao mar

nem à noite

nem ao nome

que os outros escolheram pra você.

 

A rosa não tem espelho.

Só tem reflexo ,

e reflexo não é a mesma coisa.

 

Reflexo muda conforme a onda.

Conforme a luz.

Conforme o olho que olha.

 

E mesmo assim ela é reconhecível.

 

Mesmo fragmentada

em mil superfícies de água,

ela é inteira em cada uma.

 

Isso é o que a lua ensinou:

não é preciso ser visto por inteiro

para existir por inteiro.

 

O mar nunca entendeu isso.

 

O mar que tudo abraça

e tudo dissolve ,

o mar que pensa que possuir

é a mesma coisa que amar.

 

Mas a rosa sabe.

A rosa sempre soube.

 

Por isso não afundou.

Por isso não foi embora.

Por isso ainda está lá,

quando você volta ,

 

nem colhida,

nem perdida,

apenas aberta

no lugar mais improvável do mundo.

 

 

Saiba mais…

NAQUELA NOITE, VOCÊ

 

Eu não estava procurando nada
quando você apareceu ,
e ainda assim, de algum jeito,
parecia que sempre foi você.

A gente era só dois caminhos
sem bússola, sem pressa,
aprendendo o que era amar
na palma um do outro ,às cegas.

Teu riso veio fácil,
como quem não quer ficar,
mas ficou ,
e desde então
eu nunca mais soube te deixar.

Havia algo simples em nós,
algo que não pedia explicação,
como se o mundo lá fora
tivesse aprendido a esperar.

E naquela noite,
com teus dedos nos meus,
o tempo fez silêncio
só pra caber o que era nosso.

Você disse que não estava bonita,
que o espelho não quis ajudar,
e eu só pensei , em silêncio ,
como alguém podia não enxergar.

Porque havia luz em você
de um jeito que não se diz,
uma beleza calma, inteira,
dessas que não pedem pra existir.

E ali, tão perto,
com teu rosto no meu,
eu entendi sem esforço
que o meu lugar era você.

Não era sobre promessas,
nem sobre o que viria depois ,
era só aquele instante
suspenso entre nós dois.

E mesmo sem saber do futuro,
sem ter tudo no lugar,
eu já carregava em você
tudo que queria chamar de lar.

Se o tempo passar por nós,
se a vida tentar dobrar,
que fique pelo menos isso:
o jeito que eu te vi naquela noite.

Como se nada faltasse,
como se tudo estivesse ali,
como se, por um segundo,
o mundo tivesse, enfim, feito sentido em mim.

E você ,
tão real,
tão inteira ,
perfeita
sem precisar ser perfeita.

Kleber Luís Antônio Pinheiro

Saiba mais…

SÓ MAIS UMA XÍCARA DE CAFÉ

Só mais uma xícara de café,
como quem adia o fim
por mais alguns minutos
dentro daquilo que ainda parece em mim.

A manhã cai devagar sobre a mesa,
e o silêncio entre as mãos
já diz mais do que devia.
Há memória no vapor dessa xícara,
um amor que ainda fica
mesmo quando já sabe
que vai embora um dia.

Eu olho você
como quem tenta guardar um abrigo
antes da chuva mudar o caminho.
Teu rosto tão perto,
teu corpo tão quieto,
e essa vontade absurda
de pedir ao tempo
mais um pouco contigo.

Só mais essa demora bonita,
esse intervalo sem nome,
em que ainda posso fingir
que ninguém precisa partir.

O café esfria aos poucos,
e eu também entendo
que certas despedidas
não chegam fazendo barulho 
apenas sentam,
baixam os olhos
e ficam.

Mas ainda há ternura aqui:
no jeito como teus dedos
procuram os meus sem pressa,
no modo como tua presença
ainda me aquece
mesmo à beira da ausência.

Sei que nada volta inteiro.
Que o amor, às vezes, não salva 
mas marca.
E há marcas que doem,
e há marcas que viram casa.

Você foi uma dessas.

Talvez a mais funda.
Talvez a única
que até no fim
ainda me faz querer ficar.

Então não diz nada.
Só fica mais um instante,
mais essa xícara,
mais esse resto de manhã
que ainda respira entre nós.

Porque depois
o dia continua,
as portas se fecham,
e eu volto a ser alguém
tentando parecer inteiro.

Mas agora,
enquanto o café ainda fuma
e teus olhos ainda pousam nos meus,
eu só queria que o tempo tivesse piedade.

Só mais uma xícara de café,
e talvez eu aprenda
a te deixar partir
sem me perder por inteiro.

Ou talvez não.

Talvez você fique assim em mim:
no gosto,
na memória,
no silêncio depois 
como aquilo que termina fora
mas continua dentro.

Devagar.

Saiba mais…

Lugar de volta

 

Eu te diria para vir

mesmo quando o mundo pesar,

mesmo quando o frio insistir

e não houver onde ficar.

 

Eu abriria o peito em silêncio,

sem pressa, sem te cobrar,

há amores que chegam em festa —

o meu só quer te abrigar.

 

Aqueço tuas mãos nas minhas,

te devolvo o que é teu:

a calma que o tempo levou,

o que em você se perdeu.

 

Sei dos caminhos difíceis,

dos nomes que não ficaram,

dos toques que passaram na pele

mas nunca te alcançaram.

 

E quando eu te olho agora,

não vejo dor , vejo luz,

vejo alguém que atravessou tudo

e ainda sabe amar, ainda conduz.

 

Queria ter sido o primeiro,

teu início sem cicatriz,

mas entendo: foi o teu tempo

que fez você chegar até aqui.

 

Há uma dor leve nisso,

mas já não machuca mais,

só me lembra que foi preciso

me perder pra te encontrar.

 

Então fica , se ainda duvida,

não precisa nem prometer,

teu silêncio no meu peito

já diz tudo sem dizer.

 

Eu te amaria no escuro,

quando tudo parecer demais,

no passado que ainda chama,

nos dias que pedem paz.

 

Te amaria sem te prender,

como quem aprende a ser chão,

como quem vira caminho de volta

pra quem cansou da solidão.

 

E quando te tenho por perto,

eu entendo sem precisar:

não fui o começo da tua história ,

fui o lugar pra onde voltar.

 

Se existe nome pra isso,

talvez seja destino ou lar,

mas pra mim é mais simples ainda:

é você ter vindo ficar.

 

E agora que te encontrei,

não há tempo que vá mudar ,

porque há amores que passam…

e há os que são lugar.

Saiba mais…

Na Rua Onde o Silêncio Anda

 

Ando por ruas que não me conhecem,

sob luzes frias que tremem e esquecem.

A noite me veste de sombra e demora,

como quem fica, mas já foi embora.

 

A cidade cochila por trás das janelas,

guardando segredos em grades e telas.

E eu, entre esquinas, sem mapa e sem nome,

carrego no peito um vazio que some

só para voltar quando o passo vacila,

quando a alma se cala, quando a fé se exila.

 

Há algo em mim que resiste em ruína,

uma chama cansada, porém clandestina.

Quase apagada, mas nunca desfeita,

como dor que aprende a dormir no poeta.

 

Meu reflexo me segue nas poças da rua,

feito prova sem voz de que a falta continua.

E às vezes eu penso, num gesto tão fundo,

se existe alguém lendo o meu fim neste mundo.

 

Se há olhos perdidos na mesma calçada,

sentindo na pele a distância calada.

 

Mas sigo.

 

Não porque eu saiba a verdade do fim,

nem porque a esperança ainda fale em mim.

Sigo porque a noite me empurra sem pressa,

e porque há tristezas que a alma atravessa

sem nunca vencê-las,

sem delas fugir ,

apenas aprende

o seu modo de ir.

 

Há caminhos que doem por serem vazios,

há silêncios mais fundos que mares e rios.

E eu ando entre eles, partido, inteiro,

com medo no peito e os olhos no nevoeiro.

 

Se alguém me encontrar, que não diga meu nome.

Talvez eu desabe se o afeto me some.

Talvez eu descubra, no exato segundo,

que o que me mantinha era andar sem ter mundo.

 

Então deixo que a noite me tome devagar,

como quem sabe perder sem parar.

E enquanto houver chão sob o peso dos pés,

eu sigo entre ausências, ruínas e fé.

 

Sozinho, sim ,

mas ainda de pé.

 

 

Saiba mais…

Onde a Dor Não Vai Embora

 

 

Hoje me toquei por dentro,
com cuidado , quase em segredo ,
como quem encosta na própria ausência
com medo de não sentir medo.

Havia um resto de dor ali,
baixo, mas ainda aceso,
feito lâmpada esquecida
num quarto que nunca foi o mesmo.

A cidade seguia indiferente,
luzindo vitrines e pressas,
enquanto eu recolhia em silêncio
as partes de mim que não cessam.

Há marcas que não se mostram,
mas aprendem a permanecer,
um tipo de ausência contínua
que não chega a desaparecer.

Tentei dissolver nos ruídos
o que insistia em ficar,
mas a lembrança tem fôlego longo
e sempre encontra lugar.

E então me pergunto, sem força,
não pelo fim — mas por mim:
o que ainda resiste aqui dentro
quando tudo parece ter fim?

As pessoas passam inteiras,
com nomes que sabem dizer,
e eu atravesso as calçadas
como alguém que esqueceu de ser.

Se alguém me olhasse de perto,
talvez não visse nada demais ,
só um corpo seguindo adiante
com um peso que não se desfaz.

Há em mim um acúmulo quieto
de coisas que não cicatrizam,
um império sem forma nem rosto
onde as certezas se desfiam.

E ainda assim eu caminho.

Não por esperança clara,
nem por coragem que eu reconheça,
mas porque há dores que seguem conosco
mesmo quando tudo nos deixa.

Se eu pudesse recomeçar distante,
sem memória, sem direção,
talvez não fosse ausência ,
talvez nem fosse versão.

Mas a noite me leva devagar,
sem promessa, sem explicação,
e enquanto houver chão sob meus passos,
eu permaneço ,
mesmo sem solução.

Sozinho, talvez.
Mas ainda em continuação.

 

Saiba mais…

Átomo

 

 

No começo, era nada

só um espaço pedindo nome.

E aí, do escuro mais miúdo,

nasceu um brilho sem dono.

 

Um átomo tentou entender o mundo:

não com palavras,

mas com jeito de prender e soltar

como quem aprende amando.

 

Há uma força escondida no caos,

um “fica” que ninguém vê,

um pulso de luz no escuro

fazendo silêncio obedecer.

 

Ele dança entre ausências,

faz órbita com a coragem,

e descobre, devagar,

que distância também é parte da viagem.

 

Porque o universo não é só explosão:

é relação, é equilíbrio, é tentativa.

Até a menor coisa tem história

até a menor dor tem cicatriz.

 

E se tudo parece pequeno demais,

lembra: o infinito cabe

num único ponto que insiste

em ser mais do que foi.

 

Somos só átomo em movimento,

buscando sentido na matéria:

um lar improvisado

dentro daquilo que nos acontece.

 

E quando a vida tentar desmontar,

que a gente responda, simples e firme:

 

eu existo.

eu me junto.

eu não acabo.

 

 

Saiba mais…

Estrutura de uma Poesia em Chamas

 

Há um incêndio secreto em cada verso,
uma arquitetura feita de febre e sopro,
como se o poema nascesse
não da palavra,
mas da faísca antes dela.

Primeiro, vem o silêncio,
essa madeira seca da alma,
onde o tempo encosta o ouvido
e escuta
o estalo do que ainda não foi dito.

Depois, a centelha:
uma imagem ferindo a noite,
um nome ardendo na boca,
uma lembrança com cheiro de fumaça
subindo pelas vigas do peito.

Então, o poema se ergue em labaredas,
coluna por coluna,
símbolo por símbolo,
feito casa acesa no meio do escuro,
feito altar que desmorona
só para iluminar.

Os versos são janelas em combustão,
abertas para ventos antigos,
e cada metáfora,
uma chama dobrando o idioma
até que ele confesse
sua matéria de brasa.

A rima, quando vem,
não vem por enfeite:
vem como ferro em forja,
como osso vermelho,
como música que aprendeu
a sobreviver queimando.

E o ritmo ,
ah, o ritmo ,
é o corpo do fogo dançando,
é a medida do caos
quando decide ser belo,
mesmo à beira da ruína.

Mas toda poesia em chamas
guarda um centro intacto:
uma verdade que não se consome,
um coração de carvão aceso
onde a dor e a beleza
fazem as pazes por um instante.

No fim, restam cinzas.
E quem lê pensa que terminou.
Mas cinza também é linguagem:
nela dorme a semente escura
do próximo incêndio.

Porque um poema não acaba.
Ele apenas baixa as chamas,
espera em brasa,
e permanece 
estrutura viva de fogo 
dentro de quem o carrega.

 

Saiba mais…

O homem que fui fazendo

 

 

Tem uma hora da vida

em que você para no meio

de uma frase comum 

passando sal, amarrando o tênis,

esperando o café 

e percebe que não sabe

há quanto tempo é você.

 

Não a data de nascimento.

Isso é só burocracia.

 

Quando você começou

a ser esse 

o que tem esse andar,

esse jeito de calar,

esse cansaço específico

que não passa com sono?

 

Fui me fazendo

sem perceber que estava fazendo.

Como quem rabisca enquanto pensa

e de repente olha para o papel

e encontra um rosto.

 

De onde veio esse rosto?

 

Virei o homem que meu pai seria

se tivesse tido coragem?

Ou o homem que ele era

e eu jurei que não seria?

Ou um terceiro

que nenhum dos dois

imaginou?

 

O tempo não é linha.

É camada.

 

Você não anda pelo tempo 

você vai sendo soterrado por ele,

suavemente,

como pó sobre móvel,

e um dia passa o dedo

e lê a espessura dos anos.

 

Tem coisas que ficaram

que eu não escolhi que ficassem.

Tem coisas que perdi

que segurei com as duas mãos.

 

O controle é uma história

que a gente conta

para conseguir dormir.

 

Mas não é niilismo o que sinto 

é espanto.

 

Espanto de estar aqui,

nesse corpo que já machucou

e já curou,

que já foi mais rápido

e era mais bonito

mas nunca foi tão habitado

quanto agora.

 

Nunca estive tão dentro de mim

quanto nessa fase

em que começo a entender

que o tempo é finito 

e em vez de paralisar,

isso me acorda.

 

Não para correr.

Para olhar.

 

Para pegar cada coisa com mais cuidado 

a conversa, o entardecer,

a pessoa do lado,

o silêncio que às vezes

é a melhor companhia

que já tive.

 

Fui me fazendo

e ainda estou.

 

Rascunho com consciência de rascunho,

obra que sabe

que nunca vai estar pronta 

e descobri

que é exatamente nisso,

nesse inacabamento honesto,

que moro.

 

 

Saiba mais…

O que o fogo sabe da pedra

 

Há uma coisa dentro de mim
que não aprendeu a pedir socorro 
ela engole o próprio grito,
transforma dor em postura,
e chama isso de força.

Fui ensinado a não tremer.
Mas a pedra também treme 
só que por dentro,
onde ninguém vê,
onde nem eu vejo.

Carrego nas costas
o peso de todos os nomes que me deram:
o forte, o certo, o que não chora,
o que resolve,
o que sabe o caminho 
e às vezes fico tão perdido
que invejo o homem
que admite que está perdido.

Existe uma ternura em mim
que aprendeu a se disfarçar de ironia.
Um amor que não sabe a porta da frente,
então entra pelos fundos 
em gestos, em silêncios,
em coisas que faço
sem nunca explicar por quê.

Me sentei uma vez à beira do rio
e percebi que não sabia o meu nome verdadeiro.
Sabia o nome que me chamavam.
Sabia o nome que assinava.
Mas o nome que eu era
quando ninguém olhava 
esse ainda estava sendo escrito.

O mundo me ensinou a ocupar espaço.
Não me ensinou a habitá-lo.
Há diferença.

Ocupar é presença sem raiz.
Habitar é deixar-se atravessar
pelo que o lugar tem a dizer.

Aprendi tarde
que chorar não é perder terreno 
é regar o que ainda pode nascer.
Que pedir ajuda não é fraqueza:
é a coragem mais estranha,
aquela que ninguém aplaude
mas que salva.

Vivo entre o que fui construído para ser
e o que pulsa teimoso por baixo 
esse ser anterior à armadura,
anterior ao papel,
anterior ao medo de parecer menos.

Esse ser que um dia,
numa tarde sem testemunhas,
olhou para as próprias mãos
e pensou:
posso ser mais do que me coube.

E desde então,
silenciosamente,
vou sendo.

 

 

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Arqueologia do sorriso



Escavei teu riso
como quem procura
vestígios de sol
debaixo das ruínas da tarde.

Havia ali
fragmentos de luz,
pedaços de ternura,
uma antiga música
ainda respirando no silêncio.
Teu sorriso não era inteiro:
era relíquia,
vaso partido pelo tempo,
ouro escondido na poeira
dos dias difíceis.

Com dedos de memória
toquei suas margens,
e cada curva descoberta
abria em mim
uma cidade esquecida.

Havia infância nele.
Havia chuva depois da seca.
Havia uma esperança pequena,
dessas que sobrevivem
mesmo sob escombros.

Então compreendi:
sorrir é desenterrar
o que o mundo enterrou cedo demais.

E teu sorriso,
achado raro,
foi a prova mais bonita
de que o coração,
mesmo ferido,
continua inventando auroras.

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Afeto em 3 Dimensões

 

O afeto não cabe
na linha reta das horas,
nem na superfície calma
do que a boca diz.

Ele tem altura:
ergue o peito cansado,
levanta do chão
o que a tristeza derrubou.

Tem largura:
se espalha no gesto,
na mão que procura outra mão,
no silêncio que acolhe sem cobrar.

Tem profundidade:
mergulha além da pele,
toca o que ninguém vê,
e ainda assim fica.

Afeto é corpo invisível,
presença com volume,
ternura que ocupa espaço
mesmo quando não faz ruído.

É abraço que continua
depois que os braços soltam.
É luz com forma humana.
É amor aprendendo matéria.

Em três dimensões,
o afeto não só existe:
ele habita,
sustenta
e transforma.

 

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Equação de 2º Grau

 

Há dias em que a vida

se escreve em forma incerta,

como um quadro sem resposta,

como uma janela entreaberta.

 

No papel do tempo, eu vejo

x perdido em solidão,

procurando seu valor

no silêncio da equação.

 

Tudo pede uma raiz,

um sentido, uma saída,

como quem busca no escuro

a solução da própria vida.

 

Entre somas e diferenças,

entre medo e tentativa,

o destino abre parênteses

na esperança que deriva.

 

Se o amor é coeficiente,

e a saudade, um sinal,

cada erro nos aproxima

de um teorema essencial.

 

Há problemas que parecem

impossíveis de resolver,

mas até a incógnita aprende

uma forma de crescer.

 

E no fim, toda resposta,

mesmo exata ou desigual,

leva a marca de quem ousa

ir além do racional.

 

Porque a vida, em sua essência,

tem cálculo, sonho e cor:

toda equação se ilumina

quando é resolvi

da com amor.

 

 

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CPP