Nas margens do tempo, havia um jardim
que florescia só para quem chegava no fim.
Não tinha castelo, nem fada, nem rei,
só um lago calado e um caminho sem lei.
Dizem que ali morava uma moça sem nome,
tecia com o vento e comia da fome
de tudo que falta no peito da gente:
um gesto, uma volta, um sol diferente.
Toda manhã ela fiava lembranças
com linha de chuva e perfume de tranças,
e à noite escondia, num cofre de barro,
os sonhos quebrados de um velho cigarro.
Um dia passou por ali um rapaz
com passos de sombra e silêncio demais.
Trazia nos olhos um mapa queimado
e um coração quase desabitado.
"Procuro um lugar onde a dor adormeça."
Ela sorriu sem mover a cabeça.
"Dor não dorme, moço. Dor aprende a cantar.
Senta no jardim, que eu vou te mostrar."
Então lhe deu água colhida da lua,
fruta de inverno e uma manta crua.
Foram-se estações, ela virou chão,
e o amor foi nascendo sem pedir permissão.
Mas todo jardim cobra um preço do encanto:
as flores bebiam da alegria e do pranto.
Quanto mais se amavam debaixo do céu,
mais o lago secava, mais murchava o vergel.
Veio então a guardiã da terra ferida,
vestida de hera e casca ressequida:
"Um de vocês parte antes da alvorada,
ou tudo aqui vira poeira calada."
O rapaz quis ir, por amor e coragem.
A moça sorriu, desfez a miragem.
"Você veio ao jardim para reaprender.
Eu sou feita dele. Nasci para perder."
Na última noite, de mãos entrelaçadas,
ouviram as folhas contando jornadas.
Ela encostou nele a testa, de leve,
como quem já sabe o peso da neve.
"Quando você ouvir o vento no pomar,
não pense em tristeza, nem tente voltar.
Quem ama de verdade não some no escuro:
vira raiz funda, sustenta o futuro."
Ao nascer do dia, o jardim floresceu.
Onde a moça dormia, um lírio nasceu.
O rapaz foi embora, sem reino, sem coroa,
mas levava no peito uma presença que ecoa.
Quem anda sozinho e encontra um jardim
no fim do caminho escuta, por fim,
no vento, baixinho, sem pressa nem véu:
há amores que acabam virando jardim.