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SERENATA EM NÚMEROS

 

 

Não trago violão,

não trago voz afinada para o luar.

Trago apenas a matemática que aprendi contigo,

a única disciplina

em que fui, de fato, aluno aplicado.

 

Existe uma soma

que não se ensina em nenhuma escola:

a de um afeto que cresce

mesmo quando o tempo tenta subtraí-lo,

a de uma presença que, multiplicada pela saudade,

não diminui,

se espalha

em cada lembrança pequena.

 

Minha serenata não tem melodia.

Tem equação.

 

De um lado, tudo o que vivemos,

os dias inteiros,

os silêncios companheiros.

Do outro, tudo o que ainda sinto,

e que não cabe em nenhuma soma exata.

 

Porque todo afeto verdadeiro

é, no fim,

uma conta que nunca fecha.

 

E ainda bem

que não fecha.

 

Divido minha noite

pela tua ausência ou pela tua presença,

tanto faz.

O resultado é sempre o mesmo número bonito,

aquele que não se escreve com algarismos,

apenas se sente

quando o peito aperta de gratidão.

 

Há uma aritmética secreta

que só quem ama de verdade conhece.

 

O infinito, aqui, não assusta.

É o espaço onde cabe

tudo o que quero te dizer

e nunca encontro palavras suficientes.

 

Multiplico cada gesto teu

por todos os dias que vivemos

ou que ainda vamos viver.

 

E, de repente,

são mil motivos,

dez mil razões,

um exército de pequenas certezas

ocupando o lugar

onde cabe, inteiro e simples,

o meu carinho por ti.

 

Não sei se isto é canção.

 

Sei que é verdade.

 

E se a poesia é a serenata

que alguém precisa ouvir,

que estas palavras cheguem

como música sem instrumento,

como afeto sem distância,

como um número que,

por mais que se calcule,

nunca deixa de crescer.

 

Dedico esta serenata a quem, na minha vida,

sempre foi a soma que valeu a pena.

 

 

Saiba mais…

O Cálculo do Adeus

 

Existe um cálculo que nenhum professor ensina:

 

como derivar a despedida do instante exato em que ela acontece,

 

como encontrar a taxa de variação entre o “até logo” e o “para sempre”.

 

Passei a vida achando que o adeus era um ponto, fixo, único, definitivo.

 

Só depois entendi:

 

o adeus não é ponto.

 

É função.

 

Continua sendo calculado a cada dia que se segue a ele.

 

No instante em que você partiu, a curva mudou de direção.

 

Tudo que crescia, os planos, as manhãs, o tempo comum, passou a decrescer numa velocidade que nenhuma fórmula prevê.

 

Tentei integrar minha dor num período pequeno,

 

achando que, somando os dias, encontraria uma área finita, um limite, um fim.

 

Mas o luto não se integra assim.

 

Ele diverge.

 

Cresce sem parar em direção a um infinito que dói de tão simples.

 

Há uma constante nessa equação que só quem perde reconhece:

 

o quanto do adeus continua presente, mesmo depois de resolvido,

 

como um resto que a divisão nunca consegue zerar por completo.

 

Calculo o limite da sua ausência quando os dias tendem ao infinito

 

e descubro que ele não converge para o esquecimento,

 

converge para uma forma nova de lembrar, mais silenciosa, mais funda,

 

menos dor e mais reverência.

 

Derivo cada gesto seu que ainda carrego:

 

o jeito de olhar,

 

a pausa antes de falar,

 

o riso que cortava o ar,

 

e encontro, em cada um, uma inclinação que aponta sempre para você,

 

mesmo quando a reta da minha vida segue em frente.

 

Tento resolver esse cálculo todos os dias:

 

de um lado, a variável do que ficou;

 

do outro, a constante do que se foi.

 

E aprendi, devagar,

 

que o adeus não tem solução exata.

 

Tem aproximação.

 

Tem série que nunca termina de somar seus termos,

 

mas se aproxima, cada dia mais,

 

de um número que já não dói tanto

 

quanto doía no primeiro cálculo,

 

no primeiro instante,

 

no primeiro adeus.

 

 

Saiba mais…

Elemento

 

Não vou chorar como choram os outros
com sal comum, com água pobre.
Vou chorar como chora o mar quando se retira
e deixa na areia o formato de tudo que levou.

Você foi embora e o meu corpo aprendeu
a fome que não é de pão:
a fome de uma voz específica,
de um jeito único de dizer meu nome,
que ninguém mais no mundo,
em nenhuma língua,
saberá repetir.

Toco as coisas que você tocou
como quem procura calor
numa pedra que o sol já esqueceu.
E há uma violência nisso, devo dizer:
o luto não é doce, é faminto,
é um animal que dorme no meu peito
e acorda com fome de você
em toda hora errada do dia.

Eu queria escrever sobre flores,
sobre a primavera que insiste lá fora,
mas a verdade é mais simples e mais bruta:
morri um pouco quando você morreu,
e essa parte de mim
não vai ressuscitar com a chuva,
não vai brotar em nenhuma árvore.

Permanece enterrada em mim, ainda viva,
esperando, não sei o quê.
Talvez apenas esperando,
que também é uma forma
de continuar amando.

 

Saiba mais…

A Xícara que Não É Minha

 

Há uma xícara na minha casa que não é minha.

É azul, com uma flor que não sei o nome. Você sabia. Disse uma vez, enquanto eu fingia ouvir, absorto no jeito que seus dedos seguravam o cabo torto, como quem segura algo que não quer soltar.

 

Você foi embora. Ou eu fui. Nunca ficou claro quem abandonou quem, e isso, convenhamos, é o tipo de detalhe que importa apenas para quem ainda tem dignidade para discutir. Eu não tenho. Guardei a xícara.

 

Uso-a às vezes, de manhã, quando o café fica mais amargo e o silêncio mais comprido. O cabo torto não me incomoda. Ao contrário: encaixa-se na minha mão como lembrança de algo que um dia encaixou em outra parte de mim.

 

Já pensei em devolvê-la. Mas como se devolve uma xícara sem devolver o que se derramou dentro dela? O café. O chá. As conversas que não tivemos porque estávamos ocupados demais sendo felizes, ou fingindo, ou apenas ocupados demais.

 

Ontem, quebrei o pires. Não por raiva. Por distração, que é a forma mais honesta de raiva que conheço. O pires era branco, sem flor. Não combinava com a xícara. Talvez por isso tenha caído: incompatibilidade existencial entre quem serve e quem é servido.

 

A xícara, agora, fica sozinha na prateleira, sem companheiro. Parece-me, de certo ângulo, mais bonita assim. Mais triste, é claro, mas a tristeza, quando assume a própria forma, tem uma dignidade que a felicidade fingida nunca alcançará.

 

Hoje, alguém me perguntou por que guardo uma xícara que não uso direito. Respondi que é boa para café. Menti. É péssima para café. O café esfria rápido nela, como se o azul com flor sem nome absorvesse não só o calor, mas também a ilusão de que alguma coisa, nesta vida, permanece quente o suficiente para ser bebida sem queimar a língua.

 

Ainda guardo. Não por você. Por mim, que um dia soube segurar algo com dois dedos, soprando para não queimar, esperando que você dissesse de novo o nome daquela flor que eu, propositalmente, sempre esquecia.

 

 

Saiba mais…

O Copo D'Água da Mesa de Cabeceira

 

Deixo um copo d'água

na mesa de cabeceira

todas as noites.

 

Não bebo.

Ou bebo um gole,

no máximo dois,

o suficiente para molhar

a boca que a solidão

deixou ressecada.

 

O copo é de vidro,

com uma rachadura

que só eu consigo ver.

Talvez nem seja rachadura.

Talvez seja o vidro

tentando se quebrar

de dentro para fora,

como acontece comigo,

às vezes, às três da manhã,

quando acordo sem motivo

e fico olhando para o teto

como quem espera resposta

de Deus que não acredita.

 

A água fica parada.

Pela manhã, está morna,

com gosto de metal

e de noite mal dormida.

Jogo fora. Lavo o copo.

Deixo outra dose

para a noite seguinte,

repetindo o ritual

de quem prepara oferenda

para deus que não vem.

 

Uma vez, esqueci o copo.

Dormi sem ele.

Nada aconteceu.

Não morri de sede.

Não tive pesadelo pior

do que o habitual.

Apenas acordei

com a boca mais seca,

a solidão mais nua,

a certeza de que,

se existe alguma graça

na minha vida,

ela está nesse copo

que não bebo,

nessa água que esqueço,

nessa pequena mentira

de que preciso

de algo à beira da cama

para me sentir

menos sozinho.

 

Ontem, uma barata

caiu dentro do copo.

Não vi. Bebi.

O gosto não era de barata.

Era de humilhação.

Deixei o copo de molho

em água sanitária,

como se pudesse limpar

não só o vidro,

mas a memória

de ter sido invadido

em minha própria noite,

em meu próprio quarto,

por algo que não convidei.

 

Hoje, o copo está limpo.

A água, transparente.

A rachadura, invisível.

Deito. Apago a luz.

Sinto o copo ali,

no escuro, me vigiando.

Não bebo. Fico só

ouvindo a respiração

da água que não se move,

da noite que não passa,

de mim que não durmo,

esperando, ainda,

que alguém me diga

para que serve

um copo que não se esvazia,

uma boca que não se fecha,

um coração que, apesar de tudo,

continua batendo

sem permissão.

 

 

Saiba mais…

Minha doce Melancolia

 

Hoje ela veio de boné.

Sentou na cadeira de balanço

e não balançou.

Disse que estava de dieta,

só ia ficar um pouco.

Fiquei sem saber se oferecia café

ou lhe pedia as contas.

 

Ela conhece a casa.

Sabe onde fica a gaveta

das meias furadas,

o álbum de fotos

que ninguém mais vira.

 

Às vezes canta baixinho.

Uma música sem letra,

sem fim,

que eu já decorei

e não sei o nome.

 

Minha doce melancolia,

tão feia que chega

a ser bonita.

Tão velha que parece

minha filha.

 

De noite ela deita no sofá,

ocupa o espaço todo,

e eu durmo no chão,

feliz,

com ela roncando

no meu ouvido.

 

 

Saiba mais…

Equação sem Solução

Toda melancolia começa como um problema impossível:

não há incógnita, não há variável,

só um peso constante,

que não aumenta nem diminui,

apenas insiste em existir.

 

A matemática que me ensinaram na escola nunca previu isso,

que existisse um número negativo demais

para caber em qualquer reta,

um número que a gente carrega

mas nunca consegue nomear.

 

Conto os dias iguais aos outros.

Depois desisto de contar,

porque toda soma que faço

dá sempre no mesmo resto:

o vazio não se divide,

só se repete.

 

Divido a tarde por dois,

trabalho e silêncio,

e o resultado nunca é exato:

sobra sempre uma fração de mim

que não encontra denominador,

que não encontra chão.

 

Multiplico o cansaço

por cada manhã que se parece com a anterior

e, de repente, são cem manhãs iguais,

mil tardes cinzas,

um exército de pequenas ausências de mim mesmo

ocupando lugares onde antes cabia vontade,

cabia cor,

cabia rumo.

 

Há uma aritmética secreta

que só quem afunda conhece:

o infinito, aqui, não é grandeza,

é a distância entre o que sinto

e o que consigo dizer que sinto.

 

Tento equilibrar a equação:

 

de um lado, o que deveria haver,

brilho, leveza, um motivo qualquer;

 

do outro, o que há,

o peso surdo,

o quarto fechado,

o corpo que pesa mais que o normal.

 

Nunca fecha.

E não sei se algum dia fecha.

 

Existe um número

que não cabe dentro de nenhuma xícara pela manhã,

um número que não se escreve,

só se arrasta:

 

é a soma de todos os dias

que pesaram mais do que deveriam,

dividida por uma vontade

cada vez menor de somar mais um,

 

e o resultado, no fim,

não é zero.

 

É esse chumbo sem nome.

 

E descobri:

há pesos que ninguém escolhe carregar,

mas todo mundo, um dia, conhece.

Saiba mais…

O Instante Que Não Se Repete

 

Há uma luz que só existe

enquanto a estou olhando.

Depois que os olhos se fecham,

já não é a mesma, é outra,

é lembrança se fingindo

de coisa que ainda dura.

 

Toco a casca de uma árvore

e sinto que ali começa

tudo o que nunca se explica:

o tempo que não tem pressa,

a seiva que sobe em silêncio,

a folha que não pergunta

por que nasceu, por que cai.

 

As coisas não precisam de mim

para serem verdadeiras.

O rio não sabe que é rio,

a pedra não sonha ser eterna,

e é essa inocência inteira

que me ensina a estar aqui.

 

Vivo dentro do instante

como quem mora numa gota:

pequena casa de luz,

que treme, brilha e não pesa,

e cai, não porque acabe,

mas porque cumpriu sua beleza.

 

E se alguém me perguntasse

o que é, afinal, o mundo,

eu diria: é isto, o vento

tocando o que não se guarda,

e eu aqui, sem explicar nada,

só sentindo que sou parte.

 

 

Saiba mais…

O Instante Que Não Se Repete

 

Há uma luz que só existe

enquanto a estou olhando.

Depois que os olhos se fecham,

já não é a mesma, é outra,

é lembrança se fingindo

de coisa que ainda dura.

 

Toco a casca de uma árvore

e sinto que ali começa

tudo o que nunca se explica:

o tempo que não tem pressa,

a seiva que sobe em silêncio,

a folha que não pergunta

por que nasceu, por que cai.

 

As coisas não precisam de mim

para serem verdadeiras.

O rio não sabe que é rio,

a pedra não sonha ser eterna,

e é essa inocência inteira

que me ensina a estar aqui.

 

Vivo dentro do instante

como quem mora numa gota:

pequena casa de luz,

que treme, brilha e não pesa,

e cai, não porque acabe,

mas porque cumpriu sua beleza.

 

E se alguém me perguntasse

o que é, afinal, o mundo,

eu diria: é isto, o vento

tocando o que não se guarda,

e eu aqui, sem explicar nada,

só sentindo que sou parte.

 

 

Saiba mais…

A ARITMÉTICA DO VAZIO

 

 

Há silêncios que pesam mais do que qualquer palavra dita.

 

A cadeira que não se move.

O telefone que não toca na hora em que sempre tocava.

A xícara sobrando na mesa, como uma pergunta sem resposta.

 

Passei meses contando os dias desde que você partiu.

Como quem conta moedas para comprar algo que já não existe mais.

 

Mas o luto, esse matemático cruel, não soma.

Ele multiplica.

 

Cada ausência vira dez lembranças inesperadas.

Cada quarto vazio se enche de você nos detalhes mais pequenos:

 

no jeito de dobrar o jornal,

na mancha de batom no copo,

na música que ninguém colocou para tocar.

 

A casa aprendeu a guardar você

em lugares que eu não alcanço.

 

E eu, que achava que a saudade era um rio

que secaria com o tempo,

descobri que ela é poço.

 

Não seca.

Só muda de profundidade.

 

Às vezes, de manhã, ainda preparo duas xícaras.

 

Uma eu bebo.

 

A outra eu deixo esfriar,

conversando com a ausência.

 

Não é loucura.

 

É o jeito que encontrei de dizer

que você ainda é parte do meu café,

do meu dia,

do modo como o sol entra pela janela

e eu olho para a cadeira vazia

e sorrio.

 

Porque o luto, no fim,

não é só o que nos falta.

 

É também o que nos sobra.

 

E o que nos sobra de quem amamos

não é cinza.

 

É luz

que mudou de endereço.

 

 

Saiba mais…

Hora de ninguém

Três da manhã não pertence ao dia

nem pertence à noite

é um território sem dono,

onde os pensamentos andam soltos

feito gato em telhado alheio.

 

Três da manhã, três da manhã,

o relógio repete baixinho,

como quem reza sem querer rezar,

como quem canta pra não escutar

o silêncio que mora dentro dos móveis.

 

Eu converso comigo em voz que não sai,

pergunto coisas que de dia eu evito:

pra onde vai o tempo que já passou,

que fica das pessoas que a gente perde

além do formato vazio que deixam no sofá.

 

Não é sofrimento, é mais fino que isso.

É a lucidez estranha da madrugada,

quando a alma tira a roupa do dia

e fica só de pensamento, à mostra,

pequena e exata, como deve ser

tudo aquilo que a gente só entende

quando ninguém está olhando.

 

Lá fora um cachorro late pra nada.

Aqui dentro, eu também.

Saiba mais…

A Cadeira que Faltava

No balcão da padaria, às sete da noite, sobra apenas o cheiro do pão que já foi vendido. Eu peço um café e fico olhando a chuva molhar as mesas de plástico do lado de fora.

 

Não há ninguém esperando em casa. Não há ninguém para não esperar.

 

A cidade é um grande armário de gavetas e eu sou a meia que se perdeu na lavanderia do mundo.

 

Às vezes penso em escrever para alguém. Mas para quem, se o correio fechou e as cartas agora são apenas notificações de que o pacote não chegou?

 

A melancolia é um bicho de estimação que não pede comida, só um canto quieto no sofá da garganta.

 

E eu, que um dia quis ser feliz, hoje me contento em ser exato: conto os degraus da escada, os dias do calendário, os fios brancos que a barba traiçoeira semeia.

 

Não é tristeza. É pior.

 

É a certeza de que o mundo continua, e continua sem pressa, como quem não notou que faltava uma cadeira na mesa do jantar.

 

Meu corpo é uma estação de trem onde os trens não param mais.

 

Só o vento entra, só o vento sai, e eu, de porteiro, aprendendo a não perguntar para onde vão as malas que nunca foram minhas.

 

A noite cai.

 

A padaria fecha.

 

Levo para casa a chuva na lapela e essa solidão tão bem acompanhada que até parece que alguém me esperou até o fim.

 

Kleber Luís Antônio Pinheiro

Saiba mais…

Fechando a porta

 

Fechando a porta

 

Fecho a porta com cuidado.

 

Não porque os vizinhos durmam.

 

Não porque a fechadura seja cara.

 

Fecho com cuidado

 

porque dentro daquela casa

 

deixei coisas que não quero

 

que escapem.  

 

Deixei o medo

 

debaixo da cama.

 

Deixei a esperança

 

na geladeira,

 

do lado do leite.

 

Deixei o amor

 

no travesseiro,

 

ainda morno.  

 

Fecho a porta

 

como quem fecha um livro

 

no meio de uma frase.

 

Sabe que vai voltar,

 

sabe que a frase vai continuar,

 

mas por enquanto

 

precisa estar do lado de fora,

 

onde as coisas são mais simples:

 

o sol, o trânsito, o relógio.  

 

À noite, quando volto,

 

abro a porta com a mesma cautela.

 

O medo ainda está lá.

 

A esperança estragou um pouco.

 

O amor esfriou.

 

Mas estão lá.  

 

E eu entro,

 

e fecho a porta por dentro,

 

e finalmente

 

respiro.  

 

Não é felicidade.

 

É outra coisa.

 

Algo que não tem nome

 

e que, por isso mesmo,

 

me pertence.

Saiba mais…

Onde Moram os que Partiram

 

Onde Moram os que Partiram

 

Não há morte. Há apenas

 

uma troca de endereço

 

que o silêncio celebra

 

com a chave ainda na fechadura.

 

Você foi embora

 

e deixou o copo meio cheio

 

sobre a mesa.

 

Agora ele pesa o dobro,

 

porque contém, além da água,

 

toda a ausência

 

que você não bebeu.

 

Eu aprendi, com o tempo,

 

a não tocar nas coisas

 

como quem toca em objetos.

 

Toco como quem bate à porta

 

de uma casa

 

onde alguém ainda pode responder.

 

A memória não é saudade.

 

Saudade é o nome pequeno

 

que damos à habitação

 

do que não cabe mais

 

no peito.

 

A memória é outra coisa:

 

é eu acender a luz

 

do corredor às três da manhã,

 

sabendo que ninguém vai passar,

 

e acender mesmo assim,

 

porque a escuridão

 

não deve pensar

 

que venceu.

 

Às vezes,

 

no meio de uma frase

 

que você nunca ouviu,

 

sinto o peso exato

 

da sua mão no meu ombro.

 

Não é fantasia.

 

É física.

 

É a lei mais antiga:

 

quem ama de verdade

 

não some.

 

Só muda de estado.

 

Como a água que evapora

 

e continua sendo

 

a umidade do ar

 

que respiro.

 

O luto é um quarto escuro

 

onde, aos poucos,

 

os olhos se acostumam.

 

E, no escuro adaptado,

 

vejo que você nunca partiu.

 

Só se tornou

 

invisível da mesma forma

 

que o vento se torna:

 

não se vê,

 

mas move as cortinas,

 

derruba livros

 

e, às vezes,

 

às vezes,

 

fecha a porta

 

com delicadeza,

 

como quem não quer

 

acordar quem dorme.

 

Hoje, anos depois,

 

eu finalmente entendo:

 

a morte não é um roubo.

 

É um empréstimo

 

que o tempo faz

 

daquilo que nunca foi nosso.

 

E o que resta,

 

o que sobra de fato,

 

é esta habitação estranha

 

onde eu vivo agora:

 

uma casa maior,

 

porque tem mais silêncio,

 

mais cantos vazios,

 

mais ecos que respondem

 

antes mesmo

 

de eu perguntar.

 

Você não está morto.

 

Você se mudou

 

para dentro de mim.

 

E aqui, dentro,

 

a porta está sempre aberta.

 

A luz, sempre acesa.

 

E a mesa, posta

 

para dois,

 

porque eu ainda falo,

 

ainda rio,

 

ainda espero

 

o barulho da sua cadeira

 

se aproximando.

 

Não é loucura.

 

É amor

 

que aprendeu

 

a morar sozinho

 

sem nunca

 

estar só.

 

 

Saiba mais…

Elegia para o que Ainda Não Queimou

Elegia para o que Ainda Não Queimou

 

Não me fales de fronteiras

quando o teu corpo é a única pátria

onde não preciso de passaporte

nem de perdão.

 

Tu vieste das montanhas,

não das que aparecem nos mapas,

mas das que o sangue levanta

quando a noite se faz lenta

e a pele inventa continentes.

 

Eu te encontrei no meio da batalha:

não havia exércitos,

apenas o silêncio

se armando contra nós dois.

Me ofereceste as costas

como quem oferece uma estrada

para que o exílio passe

e não volte mais.

 

O teu ventre é o vale

onde a revolução dorme:

não a dos gritos e bandeiras,

mas a que se faz com a boca

junto à clavícula,

com a mão descendo devagar,

como quem desarma uma mina

e prefere explodir contigo

a sobreviver sozinha.

 

Eu queria ser o cobre em tuas veias,

o mineral que te faz vermelha

quando a vergonha chega

e se transforma em fogo.

Queria ser o salitre dos teus ossos,

a substância que explode

quando alguém te toca

como terra prometida,

não para conquistar,

mas para habitar.

 

Tu me ensinaste que o amor

não é um jardim:

é uma cordilheira que se nega,

um vulcão guardando no peito

a lava que ainda não queimou,

a paciência da pedra

esperando milênios

para ser chamada de abrigo.

 

E quando me deitas sobre o lençol,

não me deitas:

me plantas.

Me enterras com as unhas,

me regas com a boca,

me esperas florescer

na estação que só tu conheces,

aquela que vem depois do inverno,

depois da fome,

depois de todos os homens

que passaram por ti

sem perceber

que eras solo fértil

e não estrada.

 

Eu te amo como se ama uma causa perdida:

com a certeza de que perder é impossível

enquanto houver em ti

um centímetro de pele

que ainda não foi libertada

pelo meu nome.

 

Não me peças para ser cauteloso.

Já fui cauteloso em outras vidas

e morri de velhice

sem sentir o terremoto que provocas

quando, de joelhos,

me ofereces a nuca

como quem oferece a última cidade

depois dos bombardeios.

 

Tu és a minha América escondida,

a minha prisão de onde não quero fugir.

 

E se um dia me levarem

para os campos onde os homens

aprendem a não amar,

leva contigo este verso:

eu fui feliz

porque exististe

e porque, por uma noite apenas,

o mundo inteiro

cabia dentro do teu quarto.

 

 

Saiba mais…

A Geografia do Teu Silêncio

A Geografia do Teu Silêncio

 

Tu chegas sem bater à porta

 

como a maré que não pede licença aos molhes,

 

e eu, que era continente árido,

 

me torno lago, me torno chuva,

 

me torno aquela terra escura onde

 

as raízes, sem aviso,

 

decidem nascer.

 

O teu pescoço é a longitude que eu nunca medi:

 

mapa de sal e de mel,

 

de lugares onde o sol demora

 

e o tempo, preguiçoso,

 

deixa de contar os dias.

 

Eu viajo por ti como quem atravessa

 

um país sem fronteiras,

 

onde cada curva é uma fronteira abolida,

 

cada sombra, uma pátria reconhecida.

 

Tu te deitas sobre o lençol

 

e o lençol se torna oceano.

 

Tu te levantas

 

e a casa inteira se inclina

 

como o carvalho se inclina para o vento

 

que vem de muito longe

 

e sabe o nome das coisas.

 

Eu queria ser o pão que tu partes,

 

o vinho que tu derramas,

 

o punhado de sal que tu lanças

 

sobre a carne ainda viva do jantar.

 

Mas sou apenas este homem

 

que te observa dobrar a roupa

 

e, na dobra da roupa,

 

encontra a curva do mundo.

 

À noite, quando o silêncio

 

se faz pesado como minério,

 

eu te escavo com as mãos:

 

encontro cobre nos teus cabelos,

 

prata na tua respiração,

 

ouro na curva do teu sono.

 

E quando acordas,

 

és a mina que nunca se esgota,

 

o poço que se recusa

 

a conhecer a sede.

 

Não me peças para te dizer

 

como se chama isto que nos une.

 

Não há nome para o rio

 

que corre para dentro do mar

 

e decide, impudente,

 

nunca mais voltar à montanha.

 

Tu és a minha geografia íntima:

 

o meridiano onde me perco,

 

a latitude onde me encontro,

 

o equador que me divide

 

em dois hemisférios de fogo.

 

E se um dia eu partir,

 

leva contigo esta certeza:

 

deixei em ti, como o navio deixa

 

a marca da quilha na água,

 

a prova de que existi,

 

não como homem,

 

mas como mar.

 

Kleber Luís Antônio Pinheiro

Saiba mais…

CONCRETO E CHUVA

CONCRETO E CHUVA

 

A chuva chega sem bater na porta,

lava o asfalto, lava o meu lugar.

Não pergunta o peso que eu transporto,

só sabe que aqui ninguém vê o mar.

 

Os prédios velhos resistem ao tempo,

guardando as marcas gastas do sinal.

Eu penso em tudo que já foi momento

e hoje é só fumaça de um final.

 

Não sei se a cidade apaga ou se ela escreve,

se cura ou se reabre o que ficou.

Só sei que ela grita rápido e breve

levando um pouco do que me sobrou.

 

As sirenes cantam frases que eu entendo,

um alfabeto feito de partida.

Eu fico ali, na esquina, resistindo,

feito um farol aceso numa avenida.

 

Talvez São Paulo seja um espelho

do que a gente não conta pra ninguém.

A chuva cai e me dá um conselho:

ninguém retém aquilo que não tem.

 

Deixo meus passos ecoarem no viaduto,

deixo o vento desarrumar meu jeito quieto.

Não é tristeza, é só um retrato bruto

de quem aprendeu a viver incompleto.

 

 

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Melancolia de um Coração Antigo

 

Melancolia de um Coração Antigo

 

O coração não avisa quando envelhece.

Simplesmente deixa de bater tão rápido

quando o telefone toca.

Começa a preferir os dias de chuva,

não pela tristeza que trazem,

mas pela desculpa que dão

para não sair de casa.

 

Eu tenho um coração antigo.

Não antigo como relíquia,

antigo como sofá gasto no canto da sala

onde ninguém mais se senta,

mas que ainda guarda o formato

de todos que um dia nele repousaram.

 

Ele ainda funciona. Bem ou mal, funciona.

Às vezes, à noite, faz um barulho estranho,

como máquina que lembra

de quando era nova e útil.

Aí eu fico deitado no escuro

contando as batidas

como quem conta moedas numa algibeira:

poucas, e nenhuma de valor trocável.

 

Já não sei mais se sinto falta de alguém

ou se sinto falta de sentir falta.

A melancolia é assim:

um vazio que se organiza,

arruma a casa, faz a cama,

e resolve morar com a gente

sem pagar aluguel.

 

Meu coração antigo

aprendeu a não esperar mais.

Não porque desistiu.

Mas porque, depois de tantas estações,

sabe que nenhum trem atrasado

compensa a espera.

 

Ainda assim, às vezes,

quando o vento bate na janela

de um jeito particular,

ele dá um pulo,

aquele pulo bobo de cachorro velho

que ouviu passos na calçada

e achou, por um segundo,

que era o dono voltando.

 

Não era.

Nunca é.

E o coração, envergonhado,

volta ao seu ritmo de antes,

lento, metódico,

batendo sozinho

como relógio esquecido

numa casa onde ninguém mora mais.

 

 

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Melancolia das Horas

Melancolia das Horas

 

O relógio na parede

não tem pressa nenhuma

de me tirar deste lugar

onde as horas engordam

e se recusam a passar.

 

Três da tarde é uma província

sem fronteira definida.

Fico nela.

Não chego às quatro

nem volto para as duas.

Apenas habito

este território parado

onde o tempo, sem coragem,

esqueceu de continuar.

 

Há dias em que o minuto

pesa como uma mala

que ninguém veio buscar

na estação.

Carrego-a de um cômodo a outro

sem saber bem por quê,

sem destino que justifique

tanto esforço tão pequeno.

 

O sol, esse funcionário antigo,

cumpre o expediente devagar,

como quem já não acredita

no valor do que produz.

E eu, aqui,

contando os segundos

que ninguém vai contabilizar,

que não constam de nenhuma folha,

de nenhum balanço,

de nenhuma vida

que se possa exibir depois.

 

As horas custam a passar

porque não têm interesse

em passar comigo.

Vão devagar com os outros também,

mas isso não me consola:

cada um carrega sozinho

o peso do seu relógio parado.

 

À noite, finalmente,

alguma coisa cede.

Não é alívio.

É apenas o dia

desistindo de mim

antes que eu desista dele.

E assim, sem vencedores,

encerramos mais uma jornada

de espera sem objeto,

de tempo sem serventia,

de vida

que se mede em horas

e se vive em intervalos.

 

 

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