No balcão da padaria, às sete da noite, sobra apenas o cheiro do pão que já foi vendido. Eu peço um café e fico olhando a chuva molhar as mesas de plástico do lado de fora.
Não há ninguém esperando em casa. Não há ninguém para não esperar.
A cidade é um grande armário de gavetas e eu sou a meia que se perdeu na lavanderia do mundo.
Às vezes penso em escrever para alguém. Mas para quem, se o correio fechou e as cartas agora são apenas notificações de que o pacote não chegou?
A melancolia é um bicho de estimação que não pede comida, só um canto quieto no sofá da garganta.
E eu, que um dia quis ser feliz, hoje me contento em ser exato: conto os degraus da escada, os dias do calendário, os fios brancos que a barba traiçoeira semeia.
Não é tristeza. É pior.
É a certeza de que o mundo continua, e continua sem pressa, como quem não notou que faltava uma cadeira na mesa do jantar.
Meu corpo é uma estação de trem onde os trens não param mais.
Só o vento entra, só o vento sai, e eu, de porteiro, aprendendo a não perguntar para onde vão as malas que nunca foram minhas.
A noite cai.
A padaria fecha.
Levo para casa a chuva na lapela e essa solidão tão bem acompanhada que até parece que alguém me esperou até o fim.
Kleber Luís Antônio Pinheiro