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A Cadeira que Faltava

No balcão da padaria, às sete da noite, sobra apenas o cheiro do pão que já foi vendido. Eu peço um café e fico olhando a chuva molhar as mesas de plástico do lado de fora.

 

Não há ninguém esperando em casa. Não há ninguém para não esperar.

 

A cidade é um grande armário de gavetas e eu sou a meia que se perdeu na lavanderia do mundo.

 

Às vezes penso em escrever para alguém. Mas para quem, se o correio fechou e as cartas agora são apenas notificações de que o pacote não chegou?

 

A melancolia é um bicho de estimação que não pede comida, só um canto quieto no sofá da garganta.

 

E eu, que um dia quis ser feliz, hoje me contento em ser exato: conto os degraus da escada, os dias do calendário, os fios brancos que a barba traiçoeira semeia.

 

Não é tristeza. É pior.

 

É a certeza de que o mundo continua, e continua sem pressa, como quem não notou que faltava uma cadeira na mesa do jantar.

 

Meu corpo é uma estação de trem onde os trens não param mais.

 

Só o vento entra, só o vento sai, e eu, de porteiro, aprendendo a não perguntar para onde vão as malas que nunca foram minhas.

 

A noite cai.

 

A padaria fecha.

 

Levo para casa a chuva na lapela e essa solidão tão bem acompanhada que até parece que alguém me esperou até o fim.

 

Kleber Luís Antônio Pinheiro

Saiba mais…

Fechando a porta

 

Fechando a porta

 

Fecho a porta com cuidado.

 

Não porque os vizinhos durmam.

 

Não porque a fechadura seja cara.

 

Fecho com cuidado

 

porque dentro daquela casa

 

deixei coisas que não quero

 

que escapem.  

 

Deixei o medo

 

debaixo da cama.

 

Deixei a esperança

 

na geladeira,

 

do lado do leite.

 

Deixei o amor

 

no travesseiro,

 

ainda morno.  

 

Fecho a porta

 

como quem fecha um livro

 

no meio de uma frase.

 

Sabe que vai voltar,

 

sabe que a frase vai continuar,

 

mas por enquanto

 

precisa estar do lado de fora,

 

onde as coisas são mais simples:

 

o sol, o trânsito, o relógio.  

 

À noite, quando volto,

 

abro a porta com a mesma cautela.

 

O medo ainda está lá.

 

A esperança estragou um pouco.

 

O amor esfriou.

 

Mas estão lá.  

 

E eu entro,

 

e fecho a porta por dentro,

 

e finalmente

 

respiro.  

 

Não é felicidade.

 

É outra coisa.

 

Algo que não tem nome

 

e que, por isso mesmo,

 

me pertence.

Saiba mais…

Onde Moram os que Partiram

 

Onde Moram os que Partiram

 

Não há morte. Há apenas

 

uma troca de endereço

 

que o silêncio celebra

 

com a chave ainda na fechadura.

 

Você foi embora

 

e deixou o copo meio cheio

 

sobre a mesa.

 

Agora ele pesa o dobro,

 

porque contém, além da água,

 

toda a ausência

 

que você não bebeu.

 

Eu aprendi, com o tempo,

 

a não tocar nas coisas

 

como quem toca em objetos.

 

Toco como quem bate à porta

 

de uma casa

 

onde alguém ainda pode responder.

 

A memória não é saudade.

 

Saudade é o nome pequeno

 

que damos à habitação

 

do que não cabe mais

 

no peito.

 

A memória é outra coisa:

 

é eu acender a luz

 

do corredor às três da manhã,

 

sabendo que ninguém vai passar,

 

e acender mesmo assim,

 

porque a escuridão

 

não deve pensar

 

que venceu.

 

Às vezes,

 

no meio de uma frase

 

que você nunca ouviu,

 

sinto o peso exato

 

da sua mão no meu ombro.

 

Não é fantasia.

 

É física.

 

É a lei mais antiga:

 

quem ama de verdade

 

não some.

 

Só muda de estado.

 

Como a água que evapora

 

e continua sendo

 

a umidade do ar

 

que respiro.

 

O luto é um quarto escuro

 

onde, aos poucos,

 

os olhos se acostumam.

 

E, no escuro adaptado,

 

vejo que você nunca partiu.

 

Só se tornou

 

invisível da mesma forma

 

que o vento se torna:

 

não se vê,

 

mas move as cortinas,

 

derruba livros

 

e, às vezes,

 

às vezes,

 

fecha a porta

 

com delicadeza,

 

como quem não quer

 

acordar quem dorme.

 

Hoje, anos depois,

 

eu finalmente entendo:

 

a morte não é um roubo.

 

É um empréstimo

 

que o tempo faz

 

daquilo que nunca foi nosso.

 

E o que resta,

 

o que sobra de fato,

 

é esta habitação estranha

 

onde eu vivo agora:

 

uma casa maior,

 

porque tem mais silêncio,

 

mais cantos vazios,

 

mais ecos que respondem

 

antes mesmo

 

de eu perguntar.

 

Você não está morto.

 

Você se mudou

 

para dentro de mim.

 

E aqui, dentro,

 

a porta está sempre aberta.

 

A luz, sempre acesa.

 

E a mesa, posta

 

para dois,

 

porque eu ainda falo,

 

ainda rio,

 

ainda espero

 

o barulho da sua cadeira

 

se aproximando.

 

Não é loucura.

 

É amor

 

que aprendeu

 

a morar sozinho

 

sem nunca

 

estar só.

 

 

Saiba mais…

Elegia para o que Ainda Não Queimou

Elegia para o que Ainda Não Queimou

 

Não me fales de fronteiras

quando o teu corpo é a única pátria

onde não preciso de passaporte

nem de perdão.

 

Tu vieste das montanhas,

não das que aparecem nos mapas,

mas das que o sangue levanta

quando a noite se faz lenta

e a pele inventa continentes.

 

Eu te encontrei no meio da batalha:

não havia exércitos,

apenas o silêncio

se armando contra nós dois.

Me ofereceste as costas

como quem oferece uma estrada

para que o exílio passe

e não volte mais.

 

O teu ventre é o vale

onde a revolução dorme:

não a dos gritos e bandeiras,

mas a que se faz com a boca

junto à clavícula,

com a mão descendo devagar,

como quem desarma uma mina

e prefere explodir contigo

a sobreviver sozinha.

 

Eu queria ser o cobre em tuas veias,

o mineral que te faz vermelha

quando a vergonha chega

e se transforma em fogo.

Queria ser o salitre dos teus ossos,

a substância que explode

quando alguém te toca

como terra prometida,

não para conquistar,

mas para habitar.

 

Tu me ensinaste que o amor

não é um jardim:

é uma cordilheira que se nega,

um vulcão guardando no peito

a lava que ainda não queimou,

a paciência da pedra

esperando milênios

para ser chamada de abrigo.

 

E quando me deitas sobre o lençol,

não me deitas:

me plantas.

Me enterras com as unhas,

me regas com a boca,

me esperas florescer

na estação que só tu conheces,

aquela que vem depois do inverno,

depois da fome,

depois de todos os homens

que passaram por ti

sem perceber

que eras solo fértil

e não estrada.

 

Eu te amo como se ama uma causa perdida:

com a certeza de que perder é impossível

enquanto houver em ti

um centímetro de pele

que ainda não foi libertada

pelo meu nome.

 

Não me peças para ser cauteloso.

Já fui cauteloso em outras vidas

e morri de velhice

sem sentir o terremoto que provocas

quando, de joelhos,

me ofereces a nuca

como quem oferece a última cidade

depois dos bombardeios.

 

Tu és a minha América escondida,

a minha prisão de onde não quero fugir.

 

E se um dia me levarem

para os campos onde os homens

aprendem a não amar,

leva contigo este verso:

eu fui feliz

porque exististe

e porque, por uma noite apenas,

o mundo inteiro

cabia dentro do teu quarto.

 

 

Saiba mais…

A Geografia do Teu Silêncio

A Geografia do Teu Silêncio

 

Tu chegas sem bater à porta

 

como a maré que não pede licença aos molhes,

 

e eu, que era continente árido,

 

me torno lago, me torno chuva,

 

me torno aquela terra escura onde

 

as raízes, sem aviso,

 

decidem nascer.

 

O teu pescoço é a longitude que eu nunca medi:

 

mapa de sal e de mel,

 

de lugares onde o sol demora

 

e o tempo, preguiçoso,

 

deixa de contar os dias.

 

Eu viajo por ti como quem atravessa

 

um país sem fronteiras,

 

onde cada curva é uma fronteira abolida,

 

cada sombra, uma pátria reconhecida.

 

Tu te deitas sobre o lençol

 

e o lençol se torna oceano.

 

Tu te levantas

 

e a casa inteira se inclina

 

como o carvalho se inclina para o vento

 

que vem de muito longe

 

e sabe o nome das coisas.

 

Eu queria ser o pão que tu partes,

 

o vinho que tu derramas,

 

o punhado de sal que tu lanças

 

sobre a carne ainda viva do jantar.

 

Mas sou apenas este homem

 

que te observa dobrar a roupa

 

e, na dobra da roupa,

 

encontra a curva do mundo.

 

À noite, quando o silêncio

 

se faz pesado como minério,

 

eu te escavo com as mãos:

 

encontro cobre nos teus cabelos,

 

prata na tua respiração,

 

ouro na curva do teu sono.

 

E quando acordas,

 

és a mina que nunca se esgota,

 

o poço que se recusa

 

a conhecer a sede.

 

Não me peças para te dizer

 

como se chama isto que nos une.

 

Não há nome para o rio

 

que corre para dentro do mar

 

e decide, impudente,

 

nunca mais voltar à montanha.

 

Tu és a minha geografia íntima:

 

o meridiano onde me perco,

 

a latitude onde me encontro,

 

o equador que me divide

 

em dois hemisférios de fogo.

 

E se um dia eu partir,

 

leva contigo esta certeza:

 

deixei em ti, como o navio deixa

 

a marca da quilha na água,

 

a prova de que existi,

 

não como homem,

 

mas como mar.

 

Kleber Luís Antônio Pinheiro

Saiba mais…

CONCRETO E CHUVA

CONCRETO E CHUVA

 

A chuva chega sem bater na porta,

lava o asfalto, lava o meu lugar.

Não pergunta o peso que eu transporto,

só sabe que aqui ninguém vê o mar.

 

Os prédios velhos resistem ao tempo,

guardando as marcas gastas do sinal.

Eu penso em tudo que já foi momento

e hoje é só fumaça de um final.

 

Não sei se a cidade apaga ou se ela escreve,

se cura ou se reabre o que ficou.

Só sei que ela grita rápido e breve

levando um pouco do que me sobrou.

 

As sirenes cantam frases que eu entendo,

um alfabeto feito de partida.

Eu fico ali, na esquina, resistindo,

feito um farol aceso numa avenida.

 

Talvez São Paulo seja um espelho

do que a gente não conta pra ninguém.

A chuva cai e me dá um conselho:

ninguém retém aquilo que não tem.

 

Deixo meus passos ecoarem no viaduto,

deixo o vento desarrumar meu jeito quieto.

Não é tristeza, é só um retrato bruto

de quem aprendeu a viver incompleto.

 

 

Saiba mais…

Melancolia de um Coração Antigo

 

Melancolia de um Coração Antigo

 

O coração não avisa quando envelhece.

Simplesmente deixa de bater tão rápido

quando o telefone toca.

Começa a preferir os dias de chuva,

não pela tristeza que trazem,

mas pela desculpa que dão

para não sair de casa.

 

Eu tenho um coração antigo.

Não antigo como relíquia,

antigo como sofá gasto no canto da sala

onde ninguém mais se senta,

mas que ainda guarda o formato

de todos que um dia nele repousaram.

 

Ele ainda funciona. Bem ou mal, funciona.

Às vezes, à noite, faz um barulho estranho,

como máquina que lembra

de quando era nova e útil.

Aí eu fico deitado no escuro

contando as batidas

como quem conta moedas numa algibeira:

poucas, e nenhuma de valor trocável.

 

Já não sei mais se sinto falta de alguém

ou se sinto falta de sentir falta.

A melancolia é assim:

um vazio que se organiza,

arruma a casa, faz a cama,

e resolve morar com a gente

sem pagar aluguel.

 

Meu coração antigo

aprendeu a não esperar mais.

Não porque desistiu.

Mas porque, depois de tantas estações,

sabe que nenhum trem atrasado

compensa a espera.

 

Ainda assim, às vezes,

quando o vento bate na janela

de um jeito particular,

ele dá um pulo,

aquele pulo bobo de cachorro velho

que ouviu passos na calçada

e achou, por um segundo,

que era o dono voltando.

 

Não era.

Nunca é.

E o coração, envergonhado,

volta ao seu ritmo de antes,

lento, metódico,

batendo sozinho

como relógio esquecido

numa casa onde ninguém mora mais.

 

 

Saiba mais…

Melancolia das Horas

Melancolia das Horas

 

O relógio na parede

não tem pressa nenhuma

de me tirar deste lugar

onde as horas engordam

e se recusam a passar.

 

Três da tarde é uma província

sem fronteira definida.

Fico nela.

Não chego às quatro

nem volto para as duas.

Apenas habito

este território parado

onde o tempo, sem coragem,

esqueceu de continuar.

 

Há dias em que o minuto

pesa como uma mala

que ninguém veio buscar

na estação.

Carrego-a de um cômodo a outro

sem saber bem por quê,

sem destino que justifique

tanto esforço tão pequeno.

 

O sol, esse funcionário antigo,

cumpre o expediente devagar,

como quem já não acredita

no valor do que produz.

E eu, aqui,

contando os segundos

que ninguém vai contabilizar,

que não constam de nenhuma folha,

de nenhum balanço,

de nenhuma vida

que se possa exibir depois.

 

As horas custam a passar

porque não têm interesse

em passar comigo.

Vão devagar com os outros também,

mas isso não me consola:

cada um carrega sozinho

o peso do seu relógio parado.

 

À noite, finalmente,

alguma coisa cede.

Não é alívio.

É apenas o dia

desistindo de mim

antes que eu desista dele.

E assim, sem vencedores,

encerramos mais uma jornada

de espera sem objeto,

de tempo sem serventia,

de vida

que se mede em horas

e se vive em intervalos.

 

 

Saiba mais…

SILÊNCIO DE DOMINGO

SILÊNCIO DE DOMINGO

Domingo tem essa mania

de ficar parado no meio da sala,

sem pedir licença,

ocupando o sofá inteiro

com o peso de nada acontecer.

 

O telefone não toca.

Isso, convenhamos,

não é tragédia.

É apenas o telefone

cumprindo sua função de objeto quieto,

tão profissional no silêncio

quanto era barulhento nos dias úteis.

 

Almoço sozinho.

O prato, generoso demais

para o que nele coube,

espera uma companhia

que não faz parte do cardápio de hoje.

A cadeira ao lado

não reclama.

Cadeiras não sabem reclamar.

Isso é privilégio meu,

que finjo não usar.

 

Lá fora, os vizinhos passeiam

com seus cães e certezas.

Eu observo pela janela

com a calma de quem já entendeu

que não é convidado

para o entusiasmo alheio.

 

O sol se põe, competente,

sem me consultar.

Nunca me consulta.

Nisso, ao menos,

somos dois profissionais:

ele, do ocaso;

eu, da espera.

 

À noite, o domingo se retira

sem deixar gorjeta,

sem se despedir direito,

e eu fico aqui,

contabilizando

mais um dia

que passou por mim

como quem passa

por um poste na rua:

sem reparar,

sem culpa,

sem intenção alguma

de voltar.

 

 

 

 

Saiba mais…

Mapa de um Silêncio Doméstico

 

Mapa de um Silêncio Doméstico

 

Há uma geografia na casa que ninguém desenha: o corredor onde as decisões perdem a coragem, a cozinha onde as coisas simples viram cerimônia, o quarto onde o tempo dorme antes de mim e acorda depois, com relatório atrasado.

 

Sou o cartógrafo distraído do meu próprio ruído. Meço a distância entre o que calo e o que finjo, anoto em rodapé as vezes que quase disse, e a régua sempre falha por um milímetro exato: o suficiente para virar poema, não confissão.

 

A xícara na mesa tem sua própria lógica: esfria numa ordem que ignora meus horários, e nisso ela me ensina mais que os relógios: que toda urgência é, no fundo, combinada entre o objeto e o tempo, sem me consultar.

 

No mapa que faço, as ruas não têm nome, só coordenadas de silêncio e hesitação: a sala onde adio, o corredor onde volto, a porta que abro devagar, como quem sabe que atrás dela mora o mesmo dia de sempre, esperando, com sua paciência de pedra antiga.

 

 

Saiba mais…

Engrenagem

 

A máquina gira e nada produz,
apenas o ruído de existir.
Cada dente encaixa no seguinte
com a exatidão triste dos dias.

Sou peça, também, nesse mecanismo:
acordo, transmito movimento,
paro à noite sem saber
para onde foi a força que gastei.

O óleo escorre como um pranto seco.
Ninguém chora as máquinas,
elas apenas enferrujam,
devagar, como certas pessoas.

Há um propósito girando ali no centro,
dizem os engenheiros do costume.
Eu só sei que giro,
e o giro é a única resposta que possuo.

Um dia a engrenagem para.
Não com estrondo, com silêncio.
E alguém, lá fora, comenta:

“Funcionava bem, aquela peça.”

 

Saiba mais…

Inventário do que falta

 

 

Inventário do que falta

 

Há em mim um quarto fechado

que nem eu tenho a chave.

Bato à própria porta, devagar,

e escuto do outro lado um som de espera

que também sou eu.

 

Sinto demais. É minha herança e minha culpa.

O mundo passa em trem, apressado, prático,

e eu fico na plataforma catalogando

a poeira que ele deixa,

como se nela houvesse resposta.

 

Não sei o nome do que procuro.

Talvez seja apenas o nome.

Talvez seja o silêncio depois do nome,

essa coisa que arde sem fogo visível

e pesa sem ter peso nenhum.

 

Sou pedra que se lembra de ter sido rio,

homem que carrega o próprio fim

como quem carrega um filho no colo:

com medo, com ternura,

sem saber ainda o que fará dele.

 

A melancolia não é doença. É lucidez

que ninguém pediu, mas que chegou

e ficou morando na sala,

bebendo meu café,

lendo os jornais que eu não tenho coragem de ler.

 

Busco. Não encontro.

Talvez buscar seja o encontro possível,

o único endereço certo

neste mapa rasgado que sou.

 

 

Saiba mais…

Espera (rascunho)

 

 

Espera (rascunho)

 

espero

não sei bem o quê

 

talvez você

talvez só

o hábito de esperar

 

(risca isso)

 

o tempo passa

eu não

 

fico aqui

parado feito ponto final

numa frase

que ninguém

termina

 

espero

 

sem drama

sem verso bonito

 

só o real:

 

a cadeira vazia

o celular na mesa

 

e uma vontade besta

de que ele toque.

 

 

Saiba mais…

Vigília

 

Vigília

Espero-te como espera o rosal
a chuva lenta que lhe devolve a cor;
em cada pétala, pressinto um sinal
do teu perfume antecipado em flor.

A luz declina em tons de mel e brasa,
doura aquilo que baço se fazia;
e a tarde, lânguida, ainda não se cansa
de acreditar na tua companhia.

Que venhas antes que a última cor
se apague no horizonte devagar;
que a beleza desta espera, em seu fulgor,
não se transforme em saudade de esperar.

 

Saiba mais…

Fragmento de uma Manhã Qualquer

 

Há uma xícara pousada na mesa
e nela, todo o peso do mundo
finge caber.

O vapor sobe devagar,
como se soubesse
que não tem pressa nenhuma,
e eu, que tenho,
aprendo com ele.

(Alguma coisa em mim
também é vapor:
sobe, se desfaz,
não deixa endereço.)

Lá fora, o dia se arruma
com a mesma luz de sempre,
mas hoje ela pousa diferente
sobre as coisas,

como se a manhã, também,
estivesse aprendendo
a ser manhã.

Bebo. Está quente.

Está exatamente
o tanto de vida
que eu consigo segurar
sem derramar.

 

Saiba mais…

Êxtase

 

 

Êxtase

 

Deixa-me dizer o que teus olhos fazem à luz: roubam-lhe o ofício, tornam-na desnecessária, pois onde tu estás o dia já nasceu antes que o sol se lembre de nascer.

 

Toco teu nome como quem toca uma pétala que ainda não sabe se é carne ou milagre, e cada sílaba tua se desfaz em minha boca num sabor que nenhuma língua soube nomear.

 

Se a beleza é verdade, como disseram os antigos, então tu és a coisa mais honesta que existe. Não mentes ao florir, não finges quando ardes, és inteira no instante, como a rosa que não guarda para amanhã a beleza de agora.

 

Quero morrer mil pequenas mortes nesse abraço, não a morte que apaga, mas aquela que transforma, a que o verão conhece quando se entrega à noite, sabendo que outra manhã talvez seja mais bela por ter atravessado a escuridão contigo.

 

Deixa que eu me perca em teu perfume como o poeta se perde na palavra exata: sem resistência, sem defesa, sem regresso, apenas entrega, apenas o corpo ardendo em silêncio diante daquilo que não se explica, apenas se contempla.

 

Serás, enquanto eu respirar, minha certeza neste mundo que desconfia de tudo o que é eterno.

 

E se um dia a carne terminar e somente o verso permanecer, que não escrevam grandes coisas sobre nós.

 

Que digam apenas:

 

eles se amaram.

 

E amaram como quem contempla a beleza sabendo, desde o primeiro instante, que algumas verdades não foram feitas para serem compreendidas,

 

mas vividas.

 

 

Saiba mais…

A Medida do Que Sinto

A Medida do Que Sinto

 

Há amores pequenos, do tamanho de um dia, e há o meu, que não cabe em calendário nenhum, transborda como rio que a estação esqueceu de conter.

 

Te amo como se amasse não uma mulher, mas uma era inteira, como se em ti coubessem todas as manhãs que ainda vou viver e todas as que já vivi sem saber que esperava por ti.

 

Não é pequeno o que sinto: é vasto como praça em dia de festa, é alto como catedral erguida por mãos que não temiam o tempo, é fundo como o mar que carrega naufrágios e ainda assim continua azul.

 

Quando penso em perder-te, o mundo inteiro se estreita, as ruas encolhem, o céu perde altura, e eu, que me julgava grande, descubro que só era grande por tua causa.

 

Amar-te é minha forma de acreditar em algo maior que a morte, é a única religião que não exige provas, só exige que eu continue, todos os dias, escolhendo-te de novo.

 

Se um dia me perguntarem o tamanho do que senti, direi que não coube em palavras, não coube em versos, coube apenas em uma vida inteira dedicada a tentar dizer o que sinto, e ainda assim, terei dito pouco.

 

 

Saiba mais…

A Poeira do Tempo

 

A Poeira do Tempo

 

Há poeira nos móveis que ninguém mais toca, fina camada onde os dias se depositam como quem esquece de lembrar.

 

Passo o dedo sobre a mesa antiga e escrevo, sem querer, um nome que o vento da casa já apagou.

 

O relógio da sala parou numa hora que não interessa mais a ninguém, mas os ponteiros continuam ali, enferrujados de espera, guardando um instante que foi meu e que o tempo, devagar, engoliu.

 

Não é saudade de pessoas, é saudade do jeito que a luz entrava pela janela numa tarde qualquer, sem importância, que hoje pesa como se fosse tudo.

 

A poeira é isso: o que resta quando a vida termina de passar e esquece de levar consigo os rastros.

 

Eu sou também um pouco desse pó que se acumula sobre o que foi vivido, cada gesto antigo, cada porta que um dia bati sem saber que estava fechando um tempo inteiro.

 

E quando alguém, por fim, limpar a casa, vai encontrar nos cantos, nas gretas do assoalho, o que ficou de mim: não cinzas, mas poeira, leve, quieta, permanente, prova de que existi mesmo depois que o tempo me apagou.

 

 

Saiba mais…

O Ofício de Ser Feliz

 

O Ofício de Ser Feliz

 

Era uma tarde qualquer.

 

O sol batia torto na parede do vizinho,

 

e eu, sentado na cadeira de balanço que range,

 

pensava que a felicidade talvez fosse isso:

 

um cachorro latindo longe,

 

o cheiro de café passando pela janela,

 

a certeza absurda de que o mundo continuava

 

mesmo sem que eu me levantasse.

 

Não havia bandeiras.

 

Nenhum poema famoso sendo escrito.

 

Só o silêncio da casa,

 

que não é silêncio de verdade,

 

é o barulho pequeno das coisas existindo:

 

o relógio na cozinha,

 

a água na caixa do banheiro,

 

o tecido da cortina se movendo

 

como quem respira sem pressa.

 

E pensei em você.

 

Não daquele jeito dramático dos livros,

 

não com suspiros nem com dor.

 

Pensei em você como se pensa no ar:

 

sem forma, mas indispensável.

 

Lembrei das suas mãos secando uma xícara,

 

do jeito que você tinha de olhar para a rua

 

como quem espera alguém que já chegou há muito tempo.

 

A vida, eu disse para o vazio da sala,

 

não é feita de grandes portas se abrindo.

 

É feita de portas que já estão abertas

 

e a gente que demora para perceber.

 

É feita de gestos que não fotografamos:

 

o sal sendo jogado na comida,

 

a toalha dobrada no mesmo canto da cama,

 

a voz dizendo volto já

 

e voltando de verdade.

 

Eu poderia ter sido outro homem.

 

Mais jovem, mais audaz,

 

com versos que incendeiam salões.

 

Mas sou este:

 

o que observa a poeira dançando no raio de sol,

 

o que guarda ingressos de cinema de 1987,

 

o que acredita, ainda que não diga,

 

que amar é um ofício silencioso,

 

aprendido dia após dia,

 

como quem aprende a amarrar os sapatos

 

ou a esperar o pão crescer no forno.

 

E nesta tarde qualquer,

 

enquanto o mundo girava sem aviso,

 

eu soube, com a clareza que só o comum nos dá,

 

que já fui feliz muitas vezes

 

sem saber o nome daquilo.

 

Que a beleza não mora nos picos,

 

mas neste chão rachado,

 

nesta xícara gasta pelo uso,

 

neste amor que não grita,

 

que apenas fica.

 

E ficar, meu Deus,

 

ficar é o verbo mais corajoso de todos.

 

Ficar quando tudo convida à fuga.

 

Ficar quando o tempo come as paredes.

 

Ficar, e ao ficar,

 

construir uma pátria minúscula,

 

do tamanho de uma mesa posta para dois,

 

onde a poesia não é escrita,

 

é servida.

 

Quente.

 

Sem pressa.

 

Como quem sabe

 

que o melhor da vida

 

não é o que ainda vai acontecer,

 

mas o que já aconteceu

 

e, por algum milagre,

 

ainda não acabou.

 

 

Saiba mais…

O Café Esfriou na Xícara

 

 

O café esfriou na xícara. Deixei.

Não há pressa em beber

o que já não aquece o peito.

 

A tarde entra pela janela

como quem não bate:

só chega e senta no canto da poltrona

onde ninguém mais senta.

 

Folheio o jornal de ontem.

As notícias são as mesmas,

só mudou a data.

E eu, que também sou a mesma notícia

de todos os dias,

leio meu nome entre as linhas

do anúncio de apartamentos.

 

Há um vazio no armário

onde guardava camisas de outras estações.

Abro.

Fecho.

Abro de novo,

como quem espera que o vazio

um dia responda.

 

O relógio da cozinha marca três e quarenta.

Ou quatro.

Não importa.

O tempo aqui não passa:

acumula-se no fundo da pia,

entre os pratos de ontem

e os de amanhã.

 

Penso em ligar para alguém.

Penso em não ligar.

Fico no meio do pensamento,

que é o lugar onde sempre fico:

no meio,

na borda,

na beira da frase que não termino.

 

O gato miou na porta.

Deixei entrar.

Deixei sair.

Não sei mais se ele está dentro

ou se sou eu que estou

do lado de fora de mim mesmo.

 

Anoitece.

Não acendo a luz.

Deixo a escuridão fazer

o que sabe fazer:

me mostrar que existo

porque ainda sinto falta

de quem não voltou,

de quem nunca chegou,

de quem sou quando ninguém olha.

 

O café esfriou.

Bebo assim mesmo.

 

Frio.

Amargo.

Meu.

 

 

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CPP