Posts de Kleber Luis Antônio Pinheiro (281)

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O Relógio da Cozinha

 

O relógio da cozinha não anda mais.

Parou às três e dez,

hora em que a luz entra torta pela janela

e ilumina a poeira que dança

sem saber para onde vai.

 

Minha mãe dizia que relógio parado

é casa sem alma.

Mas eu acho que é apenas uma pausa

necessária ao tique-taque das obrigações.

 

Olho para os ponteiros imóveis

e penso nas contas que não paguei,

nas cartas que não escrevi,

nos "bom dia" que engoli seco

no elevador do prédio vizinho.

 

Há uma dignidade nesse silêncio mecânico.

Ele não corre atrás do tempo,

não se afoba com a chegada do ônibus,

não se angustia com o atraso do jantar.

 

Ele apenas está.

Como a xícara rachada na pia,

como a sombra do vaso de gerânio

que cresce teimosa no cimento.

 

Talvez eu devesse aprender com o relógio:

parar não é morrer.

É apenas deixar que o mundo gire

enquanto a gente descansa

a vista cansada de tanto olhar

para coisas que não têm resposta.

 

Fico aqui, sentado à mesa de fórmica,

ouvindo o silêncio das três e dez,

e sinto, pela primeira vez no dia,

que estou exatamente onde devo estar:

nem antes, nem depois.

Agora.

Saiba mais…

Inventário do Que Nos Faltou

 

 

Quem me dera descobrir em qual esquina do tempo deixamos cair a parte mais humana de nós.

 

Não foi de uma vez.

 

Foi aos poucos, como uma casa que continua de pé mesmo depois de abandonar seus moradores.

 

Aprendemos cedo a chamar de vitória o que era apenas acúmulo.

 

Aplaudimos vitrines, colecionamos ausências, e esquecemos o nome das árvores que faziam sombra sobre a infância.

 

Há um espelho encostado na parede do mundo.

 

Nele, não aparece o nosso rosto.

 

Aparecem as máscaras que vestimos para convencer o vazio de que estamos completos.

 

Ainda há crianças desenhando sóis em folhas amassadas.

 

Ainda há velhos conversando com fotografias porque elas são as únicas que nunca interrompem.

 

Ainda há rios tentando lembrar o caminho que tinham antes de aprenderem o gosto do concreto.

 

E nós seguimos, erguendo monumentos para aquilo que não nos abraça.

 

Às vezes penso que o futuro não chegou atrasado.

 

Foi apenas embora quando percebeu que ninguém o esperava de mãos vazias.

 

Se eu pudesse pedir apenas uma única graça,

 

não pediria riqueza, nem respostas, nem eternidade.

 

Pediria a coragem de olhar outra vez para o rosto de alguém como quem encontra uma terra desconhecida e decide não conquistá-la, mas pertencer a ela.

 

Talvez então o mundo deixasse de parecer uma ferida tentando se convencer de que nasceu cicatriz.

 

E talvez eu finalmente entendesse essa saudade estranha que mora em mim

 

não daquilo que perdi,

 

mas daquilo que a humanidade ainda pode ser.

 

 

Saiba mais…

Inventário da Manhã

Há uma xícara na prateleira

que não combina com as outras,

asa gasta, esmalte em silêncio,

sobrevivente de um serviço que já não existe.

 

Guardo nela o café de todo dia

como quem guarda um endereço antigo:

não porque precise do caminho,

mas porque o caminho ainda respira.

 

A casa inteira aprendeu esse hábito

de transformar restos em relicário,

a cadeira que range no lugar certo,

a luz que entra sempre pela mesma fresta,

o relógio que atrasa e ninguém conserta

porque seu erro já virou família.

 

Não sou homem de grandes naufrágios.

Sou feito destes pequenos museus:

um pires rachado, uma colher torta,

o gesto repetido de segurar

o calor entre as mãos antes do mundo começar a exigir pressa.

 

Talvez seja isto envelhecer,

não perder as coisas,

mas aprender o nome exato

de cada uma que insiste em ficar.

Saiba mais…

A Xícara que Guarda o Mundo

Há uma xícara na pia
que ninguém lavou ainda,
resto de café da manhã,
de alguém que saiu com pressa
e deixou o silêncio inteiro
dentro dela, quase cheio.

Eu olho para essa xícara
e penso: é assim que eu fico
depois que você atravessa
a cozinha da minha vida
e some porta afora, rápida,
deixando um gosto morno
onde antes era um gole certo.

Não é tristeza grande,
é só o tipo de saudade
que cabe numa caneca:
pequena, doméstica, exata,
do tamanho da distância
entre o fogão e a porta.

Às vezes penso que a vida
também deixa as coisas assim,
pela metade, esfriando,
como se o mundo inteiro
fosse só uma louça suja
esperando por quem ame
o suficiente para lavar.

E eu lavo. Todo dia eu lavo
essa xícara e essa falta,
não porque a sujeira pese,
mas porque é bonito ver
como o comum resiste,
como o barro vira casa
e a casa, sem avisar,
vira o único lugar
onde ainda cabe você.

 

Saiba mais…

 

 

Há um cheiro de café frio que insiste na cozinha

mesmo depois que a xícara foi lavada três vezes.

Talvez a saudade seja isso: um resíduo

que a água não alcança, um sabor

que mora no material da louça

e não no líquido que passou por ela.

 

Eu guardo a cadeira do lado errado da mesa,

a que ninguém senta, mas que ninguém move,

porque mover seria admitir

que o lugar não espera mais ninguém.

 

As dobradiças da porta do quarto

ainda rangem no mesmo ponto exato

onde ela costumava empurrar com o quadril,

e eu deixei assim, sem óleo, de propósito,

porque um som pode ser tudo que resta

de um gesto que o tempo já roubou do corpo.

 

Há uma carta na geladeira, presa por um ímã de peixe,

a tinta desbotando devagar, como se a ausência

também tivesse ritmo de maré.

Leio-a sem precisar ler:

já sei de cor o que nunca mais será dito de novo,

e talvez essa seja a definição mais honesta.

Não é a falta da voz,

é a certeza de que aquela frase

não terá continuação.

 

Quanto mais os dias avançam,

mais a saudade pesa,

como se a distância tivesse aprendido

o ofício da gravidade.

 

As coisas pequenas, o cabo da colher, o chinelo torto,

a mancha de vinho que nunca saiu do tapete,

carregam mais massa do que os grandes retratos na parede,

porque retrato é pose,

e mancha é vida acontecendo sem aviso.

 

Eu já não choro nas datas certas.

Choro nas erradas, nas banais,

numa terça qualquer, no meio do trânsito,

quando uma música toca só o refrão

e o resto do corpo lembra a estrofe inteira.

 

Talvez a saudade não seja dor.

Talvez seja arquivo:

o jeito que a matéria tem

de recusar o esquecimento total,

de insistir em ocupar espaço

mesmo depois que o nome

já não responde mais quando é chamado.

 

E é por isso que não jogo fora a xícara,

nem a cadeira, nem o ímã de peixe na geladeira,

porque enquanto a casa guardar essas ruínas pequenas,

ainda existe um lugar no mundo

onde ela não terminou de acontecer.

 

 

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O Quarto das Coisas que Não Dissemos

O Quarto das Coisas que Não Dissemos

 

Há uma cadeira na casa que ninguém mais senta. Ela sabe o peso exato do que ficou suspenso entre duas bocas que se fecharam no meio de uma frase.

 

Os copos na pia ainda esperam o toque de mãos que não voltarão. A água esqueceu de secar. Há umidade no ar que cheira à promessa nunca dita em voz alta.

 

Eu abro a gaveta e encontro cartas que não escrevi. Elas já têm endereço, já têm selo, já têm a data de um dia que não existe.

 

O relógio parou na hora em que você disse talvez. Desde então, o talvez habita aqui como um gato que não se deixa tocar, mas come na minha mão toda noite, em segredo.

 

Às vezes, às três da manhã, eu ouço passos no corredor. Não são os teus. São os passos de tudo que não fomos caminhando sozinho pelos cômodos vazios desta casa que ainda não aprendeu a ser só minha.

 

E eu deixo a porta aberta. Não por esperança. Por educação. Porque as coisas que não dissemos merecem um lugar para voltarem e se sentarem nessa cadeira que ninguém mais senta, mas que, de vez em quando, estranhamente, ainda aquece.

 

 

 

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O ÚLTIMO TOQUE

O ÚLTIMO TOQUE

 

Não há mapa para o lugar onde te toquei pela última vez. Só a pele lembra, essa traidora geografia que insiste em não esquecer a latitude de tua mão sobre meu ombro, em pleno inverno de nós dois.

 

Guardo o silêncio como quem guarda água num copo rachado, não por utilidade, mas pela beleza do que não se derrama. Tu partiste e eu aprendi a habitar a casa vazia como quem habita um poema, palavra por palavra, ausência por ausência.

 

Dizem que o tempo cura. Mentira. O tempo apenas apodera os objetos: a xícara que tu seguraste, a porta que tu fechaste, o espelho que refletiu nosso riso e agora só reflete a parede.

 

Mas há uma geografia secreta que ninguém invade: o toque. Ele não morre. Dorme nos dedos como fogo adormecido, acorda à noite em forma de arrepio, de súbito calor no peito, de vontade absurda de estender a mão e encontrar nada. Só o ar. Só o ar que tu respiraste.

 

E é nesse nada que eu te encontro. Não como saudade, que é coisa pequena demais. Mas como território. Como nação sem fronteiras. Como a única revolução que ainda me resta: lembrar-te, inteira, quando o mundo inteiro me pede para esquecer.

 

 

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A Composição da Lágrima

 

 

Primeiro vem o sal.

Não o sal da terra, mas o sal

que a terra nunca pediu,

o mineral da memória,

que se deposita nos cantos

onde os olhos guardam

o que a boca não nomeia.

 

Depois vem a água.

Não a água que bebemos,

mas a que bebemos sem saber,

a que bebemos quando bebemos

o rosto de quem partiu,

quando bebemos o espaço

que o rosto deixou no ar.

 

E entre o sal e a água,

o que ninguém conta,

vem o tempo.

Não o tempo que passa,

mas o que se recusa a passar,

o que fica parado

na garganta como pedra,

na pálpebra como peso,

no peito como quarto

que se fecha por dentro.

 

Há quem diga que a lágrima é simples.

Há quem diga que é apenas

o corpo chorando o que a alma

não consegue dizer.

 

Eu digo: a lágrima é arquitetura.

É o palácio que construímos

para habitar a ausência.

É a ponte que lançamos

sobre o abismo

que separa o que fomos

do que ainda não sabemos ser.

 

Cada lágrima tem sua geologia.

Camadas de dias que não voltam,

de noites em que acordamos

com o nome de quem partiu

na ponta da língua,

como se o sono

ainda não tivesse aprendido

a pronunciar o verbo

"estar no passado".

 

E quando a lágrima cai,

quando finalmente cai,

depois de tanto resistir,

tanto segurar,

tanto fingir que era apenas

um olho irritado,

um vento forte,

uma poeira qualquer.

 

Quando cai,

ela não cai sozinha.

Cai com o peso de tudo

que não dissemos,

de tudo que dissemos mal,

de tudo que dissemos bem

demais, e agora

não há mais quem ouça.

 

A lágrima é o último diálogo.

É a carta que o corpo escreve

para o corpo que partiu,

na única língua que ambos

ainda compreendem:

a língua do que não precisa

de tradução,

porque nunca teve

palavras para começar.

 

E depois que cai?

Depois que cai,

há um silêncio novo.

Um silêncio que não é ausência,

mas presença de outra coisa.

Algo que não tem nome ainda,

algo que ainda não sabe

se é paz ou resignação,

se é cura ou apenas

a dor que aprendeu

a não fazer barulho.

 

Mas há algo.

Sempre há algo.

Mesmo na lágrima que seca,

mesmo no rosto que a secou,

mesmo na mão que tocou

o rosto que secou a lágrima,

há algo que permanece.

 

Não sei o nome disso.

Mas escrevemos assim mesmo,

na esperança de que,

numa noite qualquer,

alguém que chora

encontre nestas palavras

o sal que precisa,

a água que lhe falta,

e o tempo, ah, o tempo,

que finalmente,

finalmente,

aprenda a passar.

 

 

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Cada Manhã Eu Te Conheço de Novo

Cada Manhã Eu Te Conheço de Novo

 

Ela acorda e não me reconhece.

 

Não todos os dias.

 

Alguns dias sim,

alguns dias não.

 

E nos dias em que não,

eu sou um estranho

que senta na beira da cama

e traz café.

 

Um estranho que chora

sem que ela entenda por quê.

 

Eu aprendi a me apresentar.

 

Não como marido.

 

Isso assusta.

 

Eu digo:

sou seu amigo.

 

Ela pergunta:

de onde?

 

Eu digo:

de sempre.

 

Ela ri.

 

Não acredita.

 

Mas aceita o café.

 

E, enquanto bebe,

ela me olha

como se me visse

pela primeira vez.

 

E, de certa forma,

é sempre

a primeira vez.

 

Hoje ela me chamou de outro nome.

 

O nome do pai.

 

Ela tinha sete anos

na memória que acessou.

 

Eu respondi.

 

Não corrigi.

 

Porque, se ela precisa

de um pai,

eu serei pai.

 

Se amanhã ela precisar

de um filho,

eu serei filho.

 

Se ela precisar

de um amante,

eu serei amante.

 

Eu serei tudo

que ela precisar

para não sentir

que está só

neste quarto

que ela não reconhece

como lar.

 

Ela me perguntou uma vez:

 

por que você fica?

 

Ela não lembra que perguntou.

 

Eu lembro.

 

Eu lembro de tudo.

 

Eu lembro da resposta

que eu não dei.

 

A resposta é:

 

porque amar você

não é mais uma escolha.

 

É uma profissão.

 

É um ofício

que eu exerço

sem folga,

sem salário,

sem aposentadoria.

 

É o único trabalho

que eu sei fazer

e que,

mesmo sendo inútil,

ainda me parece

o único sentido

de levantar.

 

Ontem ela me reconheceu.

 

Por cinco minutos.

 

Ela disse meu nome.

 

O nome verdadeiro.

 

Ela disse:

 

eu te amo.

 

Ela não diz isso

há meses.

 

Eu não chorei na hora.

 

Chorei depois,

no banheiro,

com a torneira aberta,

para que ela não ouvisse.

 

Porque eu não quero

que ela saiba

que eu choro.

 

Eu quero que ela pense

que sou forte.

 

Que sou eterno.

 

Que não vou embora.

 

Mesmo sabendo

que um dia

ela não estará aqui

para ver

se eu fui

ou se fiquei.

 

Eu a amo

nas formas que ela ainda é.

 

Eu a amo

quando ela é criança,

quando ela é mãe,

quando ela é estranha,

quando ela é ninguém.

 

Eu a amo

quando ela me olha

com medo,

como se eu fosse

um intruso

no quarto

da própria vida dela.

 

Eu a amo

mesmo quando ela me odeia,

mesmo quando ela grita,

mesmo quando ela joga

o café na minha cara

e diz

que eu a prendo

aqui,

neste corpo

que não obedece,

nesta mente

que trai.

 

Eu a amo.

 

E se isto não é romance,

eu não sei o que é.

 

Se isto não é poesia,

então a poesia

é uma mentira

que os poetas contam

para se sentirem

menos sós.

 

Eu não sou poeta

quando a amo.

 

Eu sou apenas

um homem

que todos os dias

se apaixona

pela mesma mulher

como se fosse

a primeira vez.

 

E que,

todos os dias,

é deixado

como se fosse

a última.

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A Casa que Aprendeu a Esperar

A Casa que Aprendeu a Esperar

 

Hoje a casa amanheceu mais antiga.

 

Não porque o tempo tenha passado,

mas porque a cadeira onde você sorria

aprendeu a fazer silêncio.

 

Há um copo sobre a mesa.

Ninguém diria que um copo

é capaz de guardar ausências,

mas basta olhá lo demoradamente

para descobrir que o vidro

também sabe sentir frio.

 

Abri a janela.

 

O mundo seguia seu trabalho discreto.

Um cachorro atravessava a rua.

Uma mulher carregava flores.

O padeiro distribuía manhãs

em sacos de papel.

 

Tudo continuava.

 

E foi justamente isso

que mais doeu.

 

Descobri que a dor

não mora nas grandes tragédias.

 

Ela prefere as pequenas continuidades.

 

A chaleira que ferve para ninguém.

A toalha pendurada sem pressa.

O relógio insistindo

que ainda existe futuro.

 

À noite,

conversei com a fotografia.

 

Ela permaneceu imóvel,

como fazem todas as pessoas

que aprendem cedo demais

a linguagem da eternidade.

 

Então compreendi

que o amor não desaparece.

 

Ele troca de endereço.

 

Sai do corpo

e vai morar nas coisas.

 

Por isso as janelas pesam.

As gavetas respiram.

Os corredores têm memória.

 

E nós,

que imaginávamos sobreviver apenas com o coração,

descobrimos tarde

que também sangram

as paredes,

os objetos

e a luz da tarde

quando encontra uma casa

onde alguém continua esperando.

 

 

Saiba mais…

A Saudade que Canta

 

Aprendi a ser rio: não retenho a água,

deixo que ela passe e me leve um pouco também.

O que foi, foi, e mesmo assim não há mágoa,

fica apenas leve, como quem sabe que vem.

 

Há um jeito manso de guardar o que se perdeu:

não numa gaveta, não num nó na garganta,

mas num canto simples, quase meu,

que não chora a ausência, apenas a canta.

 

As coisas pequenas ainda estão comigo:

o vapor do café, a luz de certa hora,

o som de um nome que já não digo,

mas que a manhã, sem querer, ecoa.

 

Não se trata de esquecer nem de sofrer.

É aprender que o tempo também é morada,

que dentro do rio há sempre onde viver,

mesmo quando a margem já ficou vazia e calada.

 

E assim eu sigo, devagar, sem alarme,

colhendo o que foi doce no que passou,

porque a saudade, quando não pede que se ame,

apenas lembra, baixinho, o que ficou.

 

 

Saiba mais…

Do Instante Antes do Grito

 

 

Do Instante Antes do Grito

 

Há um segundo, só um,

em que ainda não sei que perdi.

É o segundo mais puro que existe:

o mundo inteiro, intacto,

antes de a notícia atravessar o ar

e quebrar tudo que eu era.

 

Depois disso, não sei explicar.

A dor não tem sintaxe,

não obedece a começo, meio e fim.

É uma coisa que simplesmente é,

como uma pedra é,

como um instante é,

sem pedir licença para doer.

 

Descobri que o luto não é sentimento.

É estado. É como estar vivo,

mas de um jeito que ninguém ensinou.

Como respirar debaixo d'água

e perceber, de repente,

que era isso, sempre foi isso,

que a vida também é isto:

aprender a afogar-se sem morrer.

 

Não procuro consolo.

Desconfio de quem oferece explicações

para o que não tem explicação nenhuma.

Só quero, às vezes, tocar de leve

no lugar onde doeu,

como quem toca uma ferida

para ter certeza de que é real,

para ter certeza de que amei.

 

E é isto que fico sabendo, aos poucos,

enquanto o mundo continua girando

sem me perguntar se estou pronto:

que a ausência também tem corpo,

que a saudade também respira,

e que eu, no fundo, no fundo,

não perdi o que amei.

Apenas aprendi a amá-lo

de um jeito que dói para sempre.

 

 

Saiba mais…

Sobre o Que Ficou Sem Nome

A ausência tem seu próprio peso,

mais leve que a dor, mas mais funda.

Cabe inteira numa gaveta

e, no entanto, inunda.

 

Não chorei como se chora chuva.

Chorei como se cala um sino,

um som que ainda vibra dentro,

mesmo depois de fino.

 

Guardo a memória como quem guarda

uma carta nunca lida.

Sei o que diz sem abri-la.

É a forma da vida.

 

O luto não é precipício.

É sala pequena, vazia,

onde eu entro todo dia

e finjo companhia.

 

Perder alguém não é apagar.

É mudar de endereço a dor.

Ela muda de casa dentro de mim,

mas não sai do redor.

 

Há um silêncio depois da perda

que não é nada: é espera.

Como se a alma soubesse

que a ausência também impera.

 

E assim eu vivo meio presente,

meio guardado em outro lugar,

aprendendo que amar é isto:

deixar alguém sem deixar de amar.

 

 

Saiba mais…

A Chuva e o Luto

 

A chuva não sabe que és morto.

Por isso insiste em bater no telhado, como se ainda houvesse alguém esperando por ela do lado de dentro.

Eu é que sei.

Eu é que carrego essa notícia como quem carrega água nas mãos: sem conseguir guardá la, sem conseguir deixá la partir.

Há uma poça no fim do quintal, onde teu rosto ainda cabia.

Hoje só cabe o céu.

Cinza. Repetido. Sem pressa de parar de doer.

Escuto a chuva e penso:

é assim que o corpo chora quando os olhos já se cansaram.

O mundo inteiro molhado por um choro que não é meu, mas aprendeu a minha dor e resolveu chover por mim.

Não sei se a saudade tem clima.

Mas sei que sempre chove nos dias em que tento lembrar o som exato da tua voz e não encontro.

Só o barulho da água, caindo, caindo, como se tentasse preencher o formato do teu nome.

Talvez seja isso o luto:

aprender a molhar se por dentro sem que ninguém perceba,

enquanto lá fora a chuva continua caindo,

como quem ainda acredita que pode alcançar quem já não volta.

 

Saiba mais…

A Sombra que Cabe em Mim

 

Há um jeito de estar no mundo

que não exige barulho:

é ficar quieto na cadeira

enquanto a tarde desmancha

seus últimos assuntos.

 

Eu, que já fui tantas coisas urgentes,

aprendi a lentidão dos objetos,

a cadeira que não se queixa,

o copo que não pergunta nada,

a poeira que se deposita

sem pressa de ser notada.

 

O mundo continua girando lá fora,

inteiro de manchetes e de pressa,

mas aqui dentro

há um país pequeno e exato

onde as coisas se resolvem sem grito.

 

Não é resignação, é medida:

sei que a dor existe, tenho a sua conta,

mas também sei que ela cabe

num bolso qualquer da tarde,

ao lado das chaves e do troco.

 

Envelhecer é isto:

descobrir que os grandes dramas

moram nas coisas pequenas,

e que a alma, se for honesta,

se contenta com o barulho da chuva

batendo devagar

no zinco de tudo o que fomos.

 

 

Saiba mais…

Resíduo

 

 

Há uma pedra dentro de mim que não envelhece,

carrega o peso exato do que ficou parado.

 

Os dias passam como trens sem estação,

e eu aceno da plataforma, sempre atrasado.

 

O relógio da sala mede um tempo que não é meu.

É o tempo que sobrou depois que tudo se foi.

 

As paredes guardam ecos de vozes que emudeceram,

e a poeira é a única coisa que ainda cresce aqui dentro.

 

Aprendi a beber o café frio da manhã

como quem aceita a mediocridade do que resta.

 

Não há tragédia nisso, apenas o desgaste,

a ferrugem lenta que corrói sem pressa.

 

Sou um homem que se acostumou à ausência

como se acostuma à dor que não passa,

mas também não mata. Apenas habita,

senta à mesa, divide o pão e fica.

 

No fim, talvez seja isso a vida:

uma pedra que aprende, devagar, a ser paisagem.

 

 

Saiba mais…

O Peso das Coisas Quietas

 

Há gavetas em mim que não abro há anos, onde guardei promessas que a vida não cobrou. O pó ali dorme como quem já sabe que ninguém mais vai procurar o que sobrou.

Caminho pela casa contando os móveis como quem confere um inventário de naufrágio. Cada objeto é a prova de um tempo interrompido, cada silêncio, a medida exata do meu cansaço.

Não sinto raiva. A raiva exige fogo, e eu sou apenas cinza que esqueceu de arder. Sou o rescaldo de um incêndio antigo, a fumaça que ainda paira sem saber para onde ir.

Às vezes penso que envelhecer é isto: aprender a carregar o peso sem nomear a carga, atravessar os dias como quem atravessa um corredor cujas portas, todas, já foram fechadas.

E ainda assim sigo, não por esperança, mas porque parar também exige um gesto que já não sei mais fazer.

 

Saiba mais…

OiCaminho que Ninguém Mais Anda Comigo

 

Há estradas que só existem porque alguém as andou antes,

e agora eu piso sozinho onde os passos eram dois,

carregando um nome que o vento ainda repete

baixinho, como quem não quer acordar o que dorme.

 

Não sei se a saudade é memória ou profecia,

às vezes penso que é o futuro que não veio,

um caminho que se abria à minha frente

e que, de repente, ficou sendo só passado.

 

Aprendi que o tempo não cura, apenas costura

com linha fina os pedaços que a perda separou,

e o tecido, mesmo remendado, ainda serve

para cobrir as noites frias de quem ficou.

 

Ando devagar pelas tardes que já não têm pressa,

converso com as sombras que se sentam ao meu lado,

e descubro, sem espanto, que amar um ausente

é continuar fazendo o caminho que os dois começaram,

 

sozinho agora, mas nunca mesmo sozinho,

porque quem parte deixa o passo ensinado no chão,

e há uma luz cansada, quase dourada, quase triste,

que ilumina só o suficiente para eu seguir andando.

 

 

Saiba mais…

O Que Ficou de Ser Manhã

 

Há uma casa dentro de mim que nunca fecha as janelas. O vento ainda entra como entrava antes, trazendo o cheiro do café e das coisas que partiram sem pedir licença, sem saber dizer adeus.

Guardo o som dos passos que já não tocam o chão. Eles caminham devagar, como se temessem acordar o que repousa na poeira dos retratos, o que insiste em não aceitar o nome de lembrança.

Há tardes que envelhecem antes de alcançar a noite. Carregam sobre os ombros o peso de um nome que minha boca ainda conhece, mas que o mundo já não chama.

Então recolho a luz que a saudade abandona pelas frestas do tempo, como quem junta, com as mãos trêmulas, os cacos de um espelho onde um rosto continua vivendo.

Mesmo estilhaçado. Mesmo em silêncio.

Porque há rostos que a ausência não consegue apagar.

Talvez amar seja exatamente isso: permitir que quem partiu continue habitando os cômodos do peito, acender uma luz para quem já não sente o frio, e seguir adiante, não porque o vazio diminuiu, mas porque o amor aprendeu a iluminar o lugar onde a falta permaneceu.

 

Saiba mais…

A Cidade Sabe

 

 

Ela partiu numa terça-feira.

Eu só soube na quarta.

A cidade já sabia.

Os postes de luz sabiam.

Os cães do quarteirão sabiam.

Só eu, pobre de mim,

não sabia.

E isso me define:

ser o último a saber

o que todos já sentiram.

 

Eu a amei como se ama

uma cidade inimiga:

com medo,

com raiva,

com a certeza

de que um dia

ela me expulsará.

 

E ela me expulsou.

Não com portas fechadas

mas com portas abertas,

com a luz acesa,

com a cama feita.

 

A pior expulsão

é aquela que finge

que você ainda pode entrar.

 

Agora eu caminho

pelas ruas que ela não caminha.

Como nos velhos tempos,

penso eu.

Mas não há velhos tempos.

Há só este agora,

este eterno agora

onde ela não está,

onde eu sou

uma sombra

procurando

a parede

de outra sombra.

 

Os relógios da cidade

mentem todos.

Um diz que são três.

Outro diz que é tarde demais.

Um terceiro

parou no momento

exato em que ela disse

adeus.

 

Eu acredito neste relógio.

Este relógio

é o único honesto.

 

Eu escrevo isto

não para que ela leia.

Ela não lê mais

o que eu escrevo.

 

Eu escrevo isto

para que a cidade leia.

Para que os postes leiam.

Para que os cães

latam em código

e algum outro homem,

em alguma outra cidade,

em alguma outra terça-feira,

saiba que não está só.

 

Que a solidão

também é uma língua.

Que a saudade

também é um país.

Que amar e perder

é a única fronteira

que todos atravessamos,

de mãos vazias,

de olhos secos,

de coração

ainda batendo,

ainda batendo,

contra toda a evidência.

 

 

Saiba mais…
CPP