O relógio da cozinha não anda mais.
Parou às três e dez,
hora em que a luz entra torta pela janela
e ilumina a poeira que dança
sem saber para onde vai.
Minha mãe dizia que relógio parado
é casa sem alma.
Mas eu acho que é apenas uma pausa
necessária ao tique-taque das obrigações.
Olho para os ponteiros imóveis
e penso nas contas que não paguei,
nas cartas que não escrevi,
nos "bom dia" que engoli seco
no elevador do prédio vizinho.
Há uma dignidade nesse silêncio mecânico.
Ele não corre atrás do tempo,
não se afoba com a chegada do ônibus,
não se angustia com o atraso do jantar.
Ele apenas está.
Como a xícara rachada na pia,
como a sombra do vaso de gerânio
que cresce teimosa no cimento.
Talvez eu devesse aprender com o relógio:
parar não é morrer.
É apenas deixar que o mundo gire
enquanto a gente descansa
a vista cansada de tanto olhar
para coisas que não têm resposta.
Fico aqui, sentado à mesa de fórmica,
ouvindo o silêncio das três e dez,
e sinto, pela primeira vez no dia,
que estou exatamente onde devo estar:
nem antes, nem depois.
Agora.