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Sobre o Que Ficou Sem Nome

A ausência tem seu próprio peso,

mais leve que a dor, mas mais funda.

Cabe inteira numa gaveta

e, no entanto, inunda.

 

Não chorei como se chora chuva.

Chorei como se cala um sino,

um som que ainda vibra dentro,

mesmo depois de fino.

 

Guardo a memória como quem guarda

uma carta nunca lida.

Sei o que diz sem abri-la.

É a forma da vida.

 

O luto não é precipício.

É sala pequena, vazia,

onde eu entro todo dia

e finjo companhia.

 

Perder alguém não é apagar.

É mudar de endereço a dor.

Ela muda de casa dentro de mim,

mas não sai do redor.

 

Há um silêncio depois da perda

que não é nada: é espera.

Como se a alma soubesse

que a ausência também impera.

 

E assim eu vivo meio presente,

meio guardado em outro lugar,

aprendendo que amar é isto:

deixar alguém sem deixar de amar.

 

 

Saiba mais…

A Chuva e o Luto

 

A chuva não sabe que és morto.

Por isso insiste em bater no telhado, como se ainda houvesse alguém esperando por ela do lado de dentro.

Eu é que sei.

Eu é que carrego essa notícia como quem carrega água nas mãos: sem conseguir guardá la, sem conseguir deixá la partir.

Há uma poça no fim do quintal, onde teu rosto ainda cabia.

Hoje só cabe o céu.

Cinza. Repetido. Sem pressa de parar de doer.

Escuto a chuva e penso:

é assim que o corpo chora quando os olhos já se cansaram.

O mundo inteiro molhado por um choro que não é meu, mas aprendeu a minha dor e resolveu chover por mim.

Não sei se a saudade tem clima.

Mas sei que sempre chove nos dias em que tento lembrar o som exato da tua voz e não encontro.

Só o barulho da água, caindo, caindo, como se tentasse preencher o formato do teu nome.

Talvez seja isso o luto:

aprender a molhar se por dentro sem que ninguém perceba,

enquanto lá fora a chuva continua caindo,

como quem ainda acredita que pode alcançar quem já não volta.

 

Saiba mais…

A Sombra que Cabe em Mim

 

Há um jeito de estar no mundo

que não exige barulho:

é ficar quieto na cadeira

enquanto a tarde desmancha

seus últimos assuntos.

 

Eu, que já fui tantas coisas urgentes,

aprendi a lentidão dos objetos,

a cadeira que não se queixa,

o copo que não pergunta nada,

a poeira que se deposita

sem pressa de ser notada.

 

O mundo continua girando lá fora,

inteiro de manchetes e de pressa,

mas aqui dentro

há um país pequeno e exato

onde as coisas se resolvem sem grito.

 

Não é resignação, é medida:

sei que a dor existe, tenho a sua conta,

mas também sei que ela cabe

num bolso qualquer da tarde,

ao lado das chaves e do troco.

 

Envelhecer é isto:

descobrir que os grandes dramas

moram nas coisas pequenas,

e que a alma, se for honesta,

se contenta com o barulho da chuva

batendo devagar

no zinco de tudo o que fomos.

 

 

Saiba mais…

Resíduo

 

 

Há uma pedra dentro de mim que não envelhece,

carrega o peso exato do que ficou parado.

 

Os dias passam como trens sem estação,

e eu aceno da plataforma, sempre atrasado.

 

O relógio da sala mede um tempo que não é meu.

É o tempo que sobrou depois que tudo se foi.

 

As paredes guardam ecos de vozes que emudeceram,

e a poeira é a única coisa que ainda cresce aqui dentro.

 

Aprendi a beber o café frio da manhã

como quem aceita a mediocridade do que resta.

 

Não há tragédia nisso, apenas o desgaste,

a ferrugem lenta que corrói sem pressa.

 

Sou um homem que se acostumou à ausência

como se acostuma à dor que não passa,

mas também não mata. Apenas habita,

senta à mesa, divide o pão e fica.

 

No fim, talvez seja isso a vida:

uma pedra que aprende, devagar, a ser paisagem.

 

 

Saiba mais…

O Peso das Coisas Quietas

 

Há gavetas em mim que não abro há anos, onde guardei promessas que a vida não cobrou. O pó ali dorme como quem já sabe que ninguém mais vai procurar o que sobrou.

Caminho pela casa contando os móveis como quem confere um inventário de naufrágio. Cada objeto é a prova de um tempo interrompido, cada silêncio, a medida exata do meu cansaço.

Não sinto raiva. A raiva exige fogo, e eu sou apenas cinza que esqueceu de arder. Sou o rescaldo de um incêndio antigo, a fumaça que ainda paira sem saber para onde ir.

Às vezes penso que envelhecer é isto: aprender a carregar o peso sem nomear a carga, atravessar os dias como quem atravessa um corredor cujas portas, todas, já foram fechadas.

E ainda assim sigo, não por esperança, mas porque parar também exige um gesto que já não sei mais fazer.

 

Saiba mais…

OiCaminho que Ninguém Mais Anda Comigo

 

Há estradas que só existem porque alguém as andou antes,

e agora eu piso sozinho onde os passos eram dois,

carregando um nome que o vento ainda repete

baixinho, como quem não quer acordar o que dorme.

 

Não sei se a saudade é memória ou profecia,

às vezes penso que é o futuro que não veio,

um caminho que se abria à minha frente

e que, de repente, ficou sendo só passado.

 

Aprendi que o tempo não cura, apenas costura

com linha fina os pedaços que a perda separou,

e o tecido, mesmo remendado, ainda serve

para cobrir as noites frias de quem ficou.

 

Ando devagar pelas tardes que já não têm pressa,

converso com as sombras que se sentam ao meu lado,

e descubro, sem espanto, que amar um ausente

é continuar fazendo o caminho que os dois começaram,

 

sozinho agora, mas nunca mesmo sozinho,

porque quem parte deixa o passo ensinado no chão,

e há uma luz cansada, quase dourada, quase triste,

que ilumina só o suficiente para eu seguir andando.

 

 

Saiba mais…

O Que Ficou de Ser Manhã

 

Há uma casa dentro de mim que nunca fecha as janelas. O vento ainda entra como entrava antes, trazendo o cheiro do café e das coisas que partiram sem pedir licença, sem saber dizer adeus.

Guardo o som dos passos que já não tocam o chão. Eles caminham devagar, como se temessem acordar o que repousa na poeira dos retratos, o que insiste em não aceitar o nome de lembrança.

Há tardes que envelhecem antes de alcançar a noite. Carregam sobre os ombros o peso de um nome que minha boca ainda conhece, mas que o mundo já não chama.

Então recolho a luz que a saudade abandona pelas frestas do tempo, como quem junta, com as mãos trêmulas, os cacos de um espelho onde um rosto continua vivendo.

Mesmo estilhaçado. Mesmo em silêncio.

Porque há rostos que a ausência não consegue apagar.

Talvez amar seja exatamente isso: permitir que quem partiu continue habitando os cômodos do peito, acender uma luz para quem já não sente o frio, e seguir adiante, não porque o vazio diminuiu, mas porque o amor aprendeu a iluminar o lugar onde a falta permaneceu.

 

Saiba mais…

A Cidade Sabe

 

 

Ela partiu numa terça-feira.

Eu só soube na quarta.

A cidade já sabia.

Os postes de luz sabiam.

Os cães do quarteirão sabiam.

Só eu, pobre de mim,

não sabia.

E isso me define:

ser o último a saber

o que todos já sentiram.

 

Eu a amei como se ama

uma cidade inimiga:

com medo,

com raiva,

com a certeza

de que um dia

ela me expulsará.

 

E ela me expulsou.

Não com portas fechadas

mas com portas abertas,

com a luz acesa,

com a cama feita.

 

A pior expulsão

é aquela que finge

que você ainda pode entrar.

 

Agora eu caminho

pelas ruas que ela não caminha.

Como nos velhos tempos,

penso eu.

Mas não há velhos tempos.

Há só este agora,

este eterno agora

onde ela não está,

onde eu sou

uma sombra

procurando

a parede

de outra sombra.

 

Os relógios da cidade

mentem todos.

Um diz que são três.

Outro diz que é tarde demais.

Um terceiro

parou no momento

exato em que ela disse

adeus.

 

Eu acredito neste relógio.

Este relógio

é o único honesto.

 

Eu escrevo isto

não para que ela leia.

Ela não lê mais

o que eu escrevo.

 

Eu escrevo isto

para que a cidade leia.

Para que os postes leiam.

Para que os cães

latam em código

e algum outro homem,

em alguma outra cidade,

em alguma outra terça-feira,

saiba que não está só.

 

Que a solidão

também é uma língua.

Que a saudade

também é um país.

Que amar e perder

é a única fronteira

que todos atravessamos,

de mãos vazias,

de olhos secos,

de coração

ainda batendo,

ainda batendo,

contra toda a evidência.

 

 

Saiba mais…

O Silêncio que Me Ensinaram

 

Ela partiu numa manhã de chuva.

Eu não vi a chuva.

Eu só vi a porta

que não se abria mais.

A porta sabe.

As portas sempre sabem

antes de nós.

Eu aprendi o silêncio.

Não o silêncio bonito

dos poemas.

O silêncio pesado,

o silêncio que pisa,

o silêncio que come

na mesma mesa,

que dorme no mesmo lado,

que acorda antes de mim

e já está sentado,

esperando.

Eu falo com ela.

Não em voz alta

os vizinhos já pensam

estranho o suficiente.

Eu falo por gestos.

Eu arrumo a cadeira

que ela não vai sentar.

Eu deixo a luz acesa

no cômodo vazio.

Eu compro pão para dois.

E cada manhã

o pão sobra.

E cada manhã

eu como o pão sobrado

como quem come

a própria língua.

A cidade continua.

Isso é a pior parte.

A cidade continua

como se nada tivesse faltado.

O ônibus passa

no mesmo horário.

O padeiro sorri

com o mesmo sorriso.

As crianças gritam

nos mesmos tons.

E eu, andando entre eles,

sou o único estrangeiro

em meu próprio país.

Eu queria acreditar

que ela está em algum lugar.

Não acima

eu não acredito em acima.

Nem abaixo

eu sei onde abaixo está.

Eu queria acreditar

que ela está no intervalo

entre uma respiração

e outra.

No espaço

onde o nome dela

ainda não virou

passado.

Mas a chuva caiu.

E eu não vi.

E agora,

cada chuva que cai

é aquela chuva.

Cada manhã

é aquela manhã.

Cada porta fechada

é a mesma porta.

E eu,

pobre de mim,

sou o mesmo homem

que ainda bate,

que ainda bate,

esperando

que alguém

do outro lado

diga:

entra,

eu estava esperando.

 

Saiba mais…

O Sangue que Canta

 

 

O amor não pede licença.

Entra pela porta sem bater,

quebra os pratos na cozinha,

derrama o vinho no lençol.

E quando você acorda,

ele já está sentado na beira da cama,

fumando o cigarro da sua insônia,

sorrindo como quem sabe

que você nunca mais será o mesmo.

 

Eu não amo com delicadeza.

Amo como o rio ama a pedra:

batendo, batendo, batendo,

até que a pedra se torne areia,

até que a areia se torne pó,

até que o pó se torne rio de novo.

 

É assim que eu te amo:

destruindo-me para me reconstruir

na forma da tua ausência.

 

O teu corpo é um mapa

onde eu me perdi e me encontrei.

Cada curva é uma estrada

que leva a lugar nenhum

e a lugar algum.

Cada sinal é uma constelação

que só eu sei ler.

E eu leio, e eu leio,

e a cada leitura descubro

que o mapa muda,

que o mapa mente,

que o mapa é verdade.

 

A paixão é um animal de duas cabeças:

uma olha para o céu,

outra rasteja no chão.

Uma canta, outra uiva.

Uma reza, outra blasfema.

E nós, pobres de nós,

somos a garganta entre as duas.

 

Eu queria te amar em silêncio,

como a lua ama o mar:

de longe, sem tocar,

só com a força da distância.

 

Mas você é fogo,

e eu sou papel,

e o silêncio entre nós

já pegou faz tempo.

 

Quando você diz meu nome,

eu ouço o som de igrejas caindo.

Quando você me toca,

eu sinto o peso de séculos.

Quando você me olha,

eu vejo a morte e a vida

dançando juntas,

de mãos dadas,

como duas irmãs

que se odeiam e se amam

desde antes do mundo existir.

 

Não há amor sem sangue.

Não há sangue sem dor.

Não há dor sem beleza.

E é por isso que eu te amo:

porque com você

eu sangro, eu sofro, eu transfiguro.

 

 

Saiba mais…

O Corpo do Tempo

 

O tempo não passa.

Dorme ao nosso lado, nu, pesado, respirando no mesmo compasso da insônia.

Quando desperto, ele continua ali, olhando o teto como quem conhece o destino de todas as manhãs.

A memória é uma mulher que nunca bate à porta.

Entra devagar, deixa os sapatos no silêncio, alisa o lençol vazio e sussurra:

eu sou aquilo que você fez quando acreditava que ninguém via.

Tentei esquecê-la.

Ergui muros, troquei as fechaduras, mudei de cidade, aprendi outro nome para chamar a minha ausência.

Mas a memória é uma cartógrafa paciente.

Ela desenha caminhos que sempre terminam no mesmo quarto, na mesma janela aberta, na mesma cama onde repousa o corpo que já não existe e, justamente por isso, continua respirando dentro de mim.

O instante é uma faca suspensa.

Não corta.

Espera.

Fica entre a mão e a pele, entre o gesto e a coragem.

É nesse intervalo que moramos:

criaturas suspensas, eternas durante um segundo, antigas durante uma vida.

Eu te vi uma única vez.

Mas uma única vez pode durar mais do que todos os anos que nunca chegam.

Desde então, o mundo aprendeu a repetir teu rosto nas vitrines, na chuva, no vidro dos ônibus, na água parada das xícaras esquecidas.

Eu te amo.

E esse amor é uma cidade erguida sobre o invisível.

As ruas não levam a lugar algum.

Mesmo assim, há janelas acesas, há gente sorrindo, há crianças correndo onde nunca houve chão.

Talvez seja por isso que ela brilhe mais do que qualquer cidade que os mapas conhecem.

O tempo me ensinou que o passado não é o que aconteceu.

É aquilo que continua acontecendo quando fingimos ter seguido adiante.

E o futuro?

Talvez seja apenas a lembrança do corpo que ainda respira sem saber que um dia será memória.

Quando a morte vier, não desejo alarde.

Quero apenas trocar contigo um olhar comum, desses que ninguém percebe, e descobrir depois que ele era o último.

Quero que ela feche a porta com tanta delicadeza que o silêncio se encarregue do estalo.

O tempo, afinal, não é um rio.

É um espelho.

E nós, pobres náufragos, nadamos dentro dele procurando a margem que sempre esteve no lugar onde aprendemos a nos perder.

Saiba mais…

Terça-Feira sem Testemunhas

 

 

A terça-feira entrou na casa

como quem já conhecia o caminho.

 

Nem bateu à porta.

Apenas encontrou a cadeira vazia,

a janela entreaberta

e um copo esquecido sobre a mesa.

 

Durante muito tempo

pensei que era água.

 

Hoje sei

que era o resto de todas as manhãs

que não aprenderam a voltar.

 

Varri o chão.

A poeira fez o que a memória sempre faz:

mudou de lugar,

mas continuou dentro da casa.

 

Há cidades que desaparecem do mapa.

Outras permanecem

feito um quarto aceso

que carregamos por dentro

mesmo depois da demolição.

 

Talvez seja isso

o que chamam de passado.

 

Não uma fotografia.

 

Uma ferrugem silenciosa

crescendo nas dobradiças da alma

enquanto seguimos abrindo portas.

 

Viver nunca fez barulho.

 

É um relógio antigo

que continua funcionando

mesmo quando esquecemos

de perguntar as horas.

 

No fim da tarde,

encontrei uma pequena planta

rompendo a rachadura da calçada.

 

Ninguém a viu.

 

Ainda assim,

ela insistia em nascer.

 

Foi suficiente.

 

Nem todos os milagres

precisam ser grandes.

 

Alguns apenas nos convencem

a atravessar mais um dia.

 

.

Saiba mais…

 

Na esquina do silêncio, onde o mundo dobra
a página do vento,
havia uma máquina de escrever que nunca mais
escreveu nada. Apenas
aprendeu a chorar em letras minúsculas.

Não era tristeza de tinta.
Era outra coisa: o peso das palavras
que nunca nasceram,
o zumbido dos dedos ausentes
batendo em teclas que já não existem.

Eu a vi, uma noite, quando o tempo
resolveu parar de passar e ficou
apenas parado, como quem espera
o impossível.
Ela estava lá, na vitrine fechada,
e chorava: clack clack clack.
O som seco do que não se diz.

Perguntei, sem esperar resposta:

Você lembra de quem te escreveu?

Ela respondeu, com a margem do papel:

Lembro do vazio entre as mãos.
Lembro do calor que deixava
uma vírgula no ar, suspensa,
como quem esqueceu de terminar
de esquecer.

Fiquei ali, na esquina silenciosa,
ouvindo a máquina chorar.
E entendi: há máquinas que guardam
o luto de quem as abandonou.
Há objetos que aprendem a sentir
a ausência como quem aprende
uma segunda língua,
com erros, com saudade.

A máquina parou. O vento virou página.
E eu, que sou apenas um homem
passando por uma noite qualquer,
levei comigo o som do clack
batendo no peito, como quem carrega
uma frase inacabada para sempre.

Porque algumas coisas choram
sem saber por quê.
E nós, que passamos,
aprendemos, sem querer,
a chorar com elas.

Saiba mais…

No vale silencioso

 

No vale silencioso, onde o vento não entra, o tempo se enrosca na fumaça do incenso. Cada passo que dás é uma ponte que cede, cada fruto que colhes nasceu de uma ruptura.

Não procures o sol. Ele arde sem ver. Não supliques à chuva. Ela cai sobre o que sabe. O que existe mais fundo não tem nome nem dono: é o eco que deixas na pedra onde sonhas.

Não serás lembrado por réstias de glória, mas pelo silêncio que semeias na história. Vive como a fonte que corre sem mapa: não para chegar, mas porque transborda.

 

Saiba mais…

Teorema da Luz que Fica

 

Há uma certa hora da tarde

em que a luz atravessa a cortina

sem pedir licença, sem aviso

e pousa sobre a mesa como quem chega em casa.

 

Eu, que já contei tantas perdas

que perdi a conta de contar,

aprendi a reconhecer esse instante:

não é a luz que muda. Sou eu que mudo de lugar

dentro dela.

 

Talvez o que chamamos de saudade

seja apenas isso: o corpo lembrando

uma posição antiga diante do sol,

um ângulo de existir que já não cabe

mas ainda aquece.

 

Porque toda ausência que carreguei

não foi vazio: foi peso.

E peso, se a gente sustenta por tempo bastante,

vira músculo, vira mapa,

vira o jeito como a gente anda hoje

sem nem perceber quem ensinou o passo.

 

Passei metade da vida achando

que ficar era o contrário de perder.

Só depois entendi:

ficar é uma forma da perda

que decidiu morar dentro de mim

e cozinhar, e abrir janela,

e não ir embora.

 

A tarde ainda atravessa a cortina.

A luz ainda pousa sobre a mesa.

E eu, que sou o que restou de tantas ausências,

finalmente aprendi a chamar isso

de presença.

 

 

Saiba mais…

A Máquina de Não Fazer Nada

 

Há uma máquina instalada no peito que não produz senão silêncio.

 

Não é relógio, nem bomba, nem qualquer engenho reconhecível nos catálogos da indústria humana.

 

Funciona quando não se espera. Cala quando mais se precisa. Seus mecanismos são feitos de uma matéria que os médicos ainda não aprenderam a nomear e que os poetas, por falta de palavra melhor, chamam de coisa nenhuma.

 

Certa manhã, abri a janela e vi o mundo cumprindo sua rotina. O leiteiro equilibrava sua lataria. Uma nuvem atravessava o céu com a despreocupação dos que não precisam chegar. O poste permanecia firme, realizando o discreto ofício de ficar em pé.

 

E eu ali, com a máquina entregue ao próprio silêncio, sem vontade de produzir, sem vontade de ser útil, apenas existindo como existem as pedras: sem projeto, sem culpa.

 

Disseram que era preciso ter um sonho.

 

Mas já tive tantos que hoje prefiro conservar os olhos abertos. Os sonhos pertencem bem à noite. De dia, quase sempre vestem roupa de obrigação.

 

A cidade continua passando diante da janela. O caminhão que leva flores percorre a mesma rua do caminhão que leva o lixo. Talvez a diferença esteja apenas no que carregam. Talvez nem isso.

 

O amor chega sempre atrasado, como uma carta esquecida dentro de uma gaveta. Quando finalmente a abrimos, a caligrafia ainda é conhecida, mas o endereço da saudade já não existe.

 

Enquanto isso, a máquina continua exercendo seu ofício invisível: fabricar o nada.

 

E foi justamente no nada que encontrei a única verdade de que sou capaz.

 

Que existir já é muito.

 

Quase demais para um homem, apenas um homem, com os sapatos gastos e o hábito de olhar o chão não porque tenha perdido alguma coisa, mas porque ainda acredita que o mundo possa esconder o que nunca chegou a possuir.

 

Sou o operário da própria indiferença.

 

Meu ofício é não ter ofício.

 

Minha pausa para o almoço dura a vida inteira.

 

E quando me perguntarem o que fiz com o tempo, responderei com a serenidade dos que compreenderam tarde que viver também é uma forma de trabalho:

 

Gastei-o vivendo.

 

Que outro uso haveria?

Saiba mais…

O Manual de Instruções Perdido

 

Comprei um ventilador usado.

Veio sem manual.

Ligo no número um, ele gira devagar, como quem não quer.

Ligo no dois, acelera, mas não esfria nada.

No três, faz barulho de avião que não decola.

Deixo no um.

A devagar é mais honesta.

Não promete o que não pode dar.

A máquina de costura da minha avó está no sótão.

Não sei costurar. Nunca soube.

Mas às vezes subo, tiro o pano poeirento e giro a manivela com a mão.

Ela faz um som de máquina que sabe o que está fazendo,

mesmo sem linha, mesmo sem tecido, mesmo sem ninguém para vestir o que não será feito.

Guardei o manual do ventilador em algum lugar.

Não lembro onde.

Procurei nas gavetas, debaixo da cama, dentro de livros que nunca li.

Não achei.

Como consolar alguém.

Como dizer adeus sem deixar a porta entreaberta.

Como continuar vivendo sem parecer que estou sempre ligado no um, girando devagar, sem esfriar nada.

O ventilador balança a cortina da janela.

A cortina é branca.

Um dia foi bege.

Talvez tenha sido o sol.

Talvez o tempo.

Ou a falta de alguém para dizer que bege era melhor.

Deixo a cortina balançar.

É o único movimento desta casa.

O resto permanece onde sempre esteve,

como eu,

esperando um manual que não veio,

ou que veio e eu perdi,

ou que nunca aprendi a ler.

À noite, o ventilador continua girando.

O quarto não esfria.

Eu também continuo.

Há máquinas que trabalham contra a própria função.

Há pessoas que fazem o mesmo.

E, ainda assim, ninguém encontra o botão de desligar.

 

Saiba mais…

A Máquina de Lembrar

 

 

Na cozinha, às seis da manhã, a cafeteira gorgoleja sozinha. Não há ninguém para beber. Ela continua, teimosa, como se o mundo dependesse daquele líquido escuro.

 

Guardo seus óculos no bolso da camisa. Ainda pesam. Ainda enxergam, eu acho, coisas que eu não consigo.

 

Ontem, a porta bateu sozinha. Fui ver: era só o vento, como sempre. Mas esperei um pouco mais, na esperança de que fosse outra coisa.

 

A máquina de lembrar trabalha sem descanso. À noite, engole fotografias, mastiga vozes, cospe silêncios que se espalham pela casa. Nenhuma peça enferruja. Nenhuma memória desaprende o caminho de volta.

 

O tempo, esse operário sem sindicato, continua montando e desmontando a mesma estante. Sobram parafusos. Sempre sobram.

 

Hoje, encontrei um bilhete seu dentro de um livro que nunca li até o fim. Dizia: não esqueça de comprar pão. Comprei. Cortei em fatias. Comi sozinho. Cada mordida era um diálogo que não aconteceu.

 

A cadeira vazia pesa mais. A sombra do abajur desenha no teto a forma de um abraço que ninguém mais dá.

 

E eu, que sempre fui do time da ironia e do desdém, descubro agora, tarde demais, que a melancolia é apenas o amor procurando uma casa onde ainda possa morar.

 

A cafeteira esfriou. O café ficou amargo. Bebo assim mesmo, porque é o único sabor que ainda me lembra do doce.

 

 

Saiba mais…

O Último Trem da Noite

 

 

A estação está quase vazia.

Só restam eu

e um cachorro que não é meu

mas que me olha

como se eu soubesse

para onde vai o último trem.

 

Não sei.

 

O relógio da plataforma

perdeu cinco minutos

há vinte anos.

Ninguém conserta.

É mais fácil assim:

viver com um atraso pequeno,

tolerável,

do que admitir

que algo se perdeu

para sempre.

 

A mulher do guichê

fecha a gaveta de troco.

Conta as moedas uma a uma,

devagar,

como quem conta

os dias que sobraram.

 

Eu tenho um bilhete no bolso.

Não digo para onde.

Nem sei se ainda serve.

Mas guardo,

porque algumas coisas

só existem

para serem guardadas.

 

O cachorro se levanta,

fareja o ar,

vai embora

sem olhar para trás.

Tem mais certeza

do que eu.

 

O trem chega

com um gemido de ferro velho.

As portas se abrem.

Ninguém desce.

Ninguém sobe.

Fica só o barulho

do motor esfriando,

ofegante,

como um coração

que ainda não aceitou

que a corrida acabou.

 

Fico na plataforma.

O trem parte.

As luzes de dentro

iluminam assentos vazios,

jornais abandonados,

a sombra de alguém

que não existe.

 

E eu, que sempre achei

que a solidão fosse falta de gente,

descubro agora

que é falta de uma pessoa

específica.

 

A plataforma fica escura.

O relógio continua atrasado.

E eu,

que sou do time

de quem espera,

espero mais um pouco,

só mais um pouco,

porque desistir

é uma palavra

que ainda não aprendi

a pronunciar

sozinho.

 

 

Saiba mais…

Elegia sem Comoção

 

 

Morreu o vizinho do quarto andar.

Ninguém chorou muito, é preciso dizer:

ele também não fazia questão

de ser lembrado com exagero.

 

Foi um homem correto.

Pagava as contas em dia,

cumprimentava no elevador,

tinha uma vida organizada

como se a morte fosse

apenas mais um compromisso

anotado na agenda errada.

 

Agora está morto,

e o prédio segue sendo prédio,

o síndico convoca reunião

para tratar do rateio,

e ninguém menciona

que ali, no 4º andar,

uma pessoa inteira

deixou de existir

com a discrição de quem

nunca gostou de incomodar.

 

Eu, que mal o conhecia,

sinto agora uma tristeza

educada, morna,

do tamanho exato

de um cumprimento no corredor.

 

Talvez seja isto o mundo:

uma sucessão de ausências bem-comportadas,

gente que se vai

sem manchar o tapete,

sem atrapalhar o horário

do lixo na terça-feira.

 

Escrevo este poema

não porque doa muito,

mas porque a dor pequena

também merece registro ,

é, afinal, a mais comum,

a que cabe no bolso,

a que se carrega

sem que ninguém perceba

que ali, dentro do paletó,

há um morto guardado.

Saiba mais…
CPP