O tempo não passa.
Dorme ao nosso lado, nu, pesado, respirando no mesmo compasso da insônia.
Quando desperto, ele continua ali, olhando o teto como quem conhece o destino de todas as manhãs.
A memória é uma mulher que nunca bate à porta.
Entra devagar, deixa os sapatos no silêncio, alisa o lençol vazio e sussurra:
eu sou aquilo que você fez quando acreditava que ninguém via.
Tentei esquecê-la.
Ergui muros, troquei as fechaduras, mudei de cidade, aprendi outro nome para chamar a minha ausência.
Mas a memória é uma cartógrafa paciente.
Ela desenha caminhos que sempre terminam no mesmo quarto, na mesma janela aberta, na mesma cama onde repousa o corpo que já não existe e, justamente por isso, continua respirando dentro de mim.
O instante é uma faca suspensa.
Não corta.
Espera.
Fica entre a mão e a pele, entre o gesto e a coragem.
É nesse intervalo que moramos:
criaturas suspensas, eternas durante um segundo, antigas durante uma vida.
Eu te vi uma única vez.
Mas uma única vez pode durar mais do que todos os anos que nunca chegam.
Desde então, o mundo aprendeu a repetir teu rosto nas vitrines, na chuva, no vidro dos ônibus, na água parada das xícaras esquecidas.
Eu te amo.
E esse amor é uma cidade erguida sobre o invisível.
As ruas não levam a lugar algum.
Mesmo assim, há janelas acesas, há gente sorrindo, há crianças correndo onde nunca houve chão.
Talvez seja por isso que ela brilhe mais do que qualquer cidade que os mapas conhecem.
O tempo me ensinou que o passado não é o que aconteceu.
É aquilo que continua acontecendo quando fingimos ter seguido adiante.
E o futuro?
Talvez seja apenas a lembrança do corpo que ainda respira sem saber que um dia será memória.
Quando a morte vier, não desejo alarde.
Quero apenas trocar contigo um olhar comum, desses que ninguém percebe, e descobrir depois que ele era o último.
Quero que ela feche a porta com tanta delicadeza que o silêncio se encarregue do estalo.
O tempo, afinal, não é um rio.
É um espelho.
E nós, pobres náufragos, nadamos dentro dele procurando a margem que sempre esteve no lugar onde aprendemos a nos perder.