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Fragmento de uma Manhã Qualquer

 

Há uma xícara pousada na mesa
e nela, todo o peso do mundo
finge caber.

O vapor sobe devagar,
como se soubesse
que não tem pressa nenhuma,
e eu, que tenho,
aprendo com ele.

(Alguma coisa em mim
também é vapor:
sobe, se desfaz,
não deixa endereço.)

Lá fora, o dia se arruma
com a mesma luz de sempre,
mas hoje ela pousa diferente
sobre as coisas,

como se a manhã, também,
estivesse aprendendo
a ser manhã.

Bebo. Está quente.

Está exatamente
o tanto de vida
que eu consigo segurar
sem derramar.

 

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Êxtase

 

 

Êxtase

 

Deixa-me dizer o que teus olhos fazem à luz: roubam-lhe o ofício, tornam-na desnecessária, pois onde tu estás o dia já nasceu antes que o sol se lembre de nascer.

 

Toco teu nome como quem toca uma pétala que ainda não sabe se é carne ou milagre, e cada sílaba tua se desfaz em minha boca num sabor que nenhuma língua soube nomear.

 

Se a beleza é verdade, como disseram os antigos, então tu és a coisa mais honesta que existe. Não mentes ao florir, não finges quando ardes, és inteira no instante, como a rosa que não guarda para amanhã a beleza de agora.

 

Quero morrer mil pequenas mortes nesse abraço, não a morte que apaga, mas aquela que transforma, a que o verão conhece quando se entrega à noite, sabendo que outra manhã talvez seja mais bela por ter atravessado a escuridão contigo.

 

Deixa que eu me perca em teu perfume como o poeta se perde na palavra exata: sem resistência, sem defesa, sem regresso, apenas entrega, apenas o corpo ardendo em silêncio diante daquilo que não se explica, apenas se contempla.

 

Serás, enquanto eu respirar, minha certeza neste mundo que desconfia de tudo o que é eterno.

 

E se um dia a carne terminar e somente o verso permanecer, que não escrevam grandes coisas sobre nós.

 

Que digam apenas:

 

eles se amaram.

 

E amaram como quem contempla a beleza sabendo, desde o primeiro instante, que algumas verdades não foram feitas para serem compreendidas,

 

mas vividas.

 

 

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A Medida do Que Sinto

A Medida do Que Sinto

 

Há amores pequenos, do tamanho de um dia, e há o meu, que não cabe em calendário nenhum, transborda como rio que a estação esqueceu de conter.

 

Te amo como se amasse não uma mulher, mas uma era inteira, como se em ti coubessem todas as manhãs que ainda vou viver e todas as que já vivi sem saber que esperava por ti.

 

Não é pequeno o que sinto: é vasto como praça em dia de festa, é alto como catedral erguida por mãos que não temiam o tempo, é fundo como o mar que carrega naufrágios e ainda assim continua azul.

 

Quando penso em perder-te, o mundo inteiro se estreita, as ruas encolhem, o céu perde altura, e eu, que me julgava grande, descubro que só era grande por tua causa.

 

Amar-te é minha forma de acreditar em algo maior que a morte, é a única religião que não exige provas, só exige que eu continue, todos os dias, escolhendo-te de novo.

 

Se um dia me perguntarem o tamanho do que senti, direi que não coube em palavras, não coube em versos, coube apenas em uma vida inteira dedicada a tentar dizer o que sinto, e ainda assim, terei dito pouco.

 

 

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A Poeira do Tempo

 

A Poeira do Tempo

 

Há poeira nos móveis que ninguém mais toca, fina camada onde os dias se depositam como quem esquece de lembrar.

 

Passo o dedo sobre a mesa antiga e escrevo, sem querer, um nome que o vento da casa já apagou.

 

O relógio da sala parou numa hora que não interessa mais a ninguém, mas os ponteiros continuam ali, enferrujados de espera, guardando um instante que foi meu e que o tempo, devagar, engoliu.

 

Não é saudade de pessoas, é saudade do jeito que a luz entrava pela janela numa tarde qualquer, sem importância, que hoje pesa como se fosse tudo.

 

A poeira é isso: o que resta quando a vida termina de passar e esquece de levar consigo os rastros.

 

Eu sou também um pouco desse pó que se acumula sobre o que foi vivido, cada gesto antigo, cada porta que um dia bati sem saber que estava fechando um tempo inteiro.

 

E quando alguém, por fim, limpar a casa, vai encontrar nos cantos, nas gretas do assoalho, o que ficou de mim: não cinzas, mas poeira, leve, quieta, permanente, prova de que existi mesmo depois que o tempo me apagou.

 

 

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O Ofício de Ser Feliz

 

O Ofício de Ser Feliz

 

Era uma tarde qualquer.

 

O sol batia torto na parede do vizinho,

 

e eu, sentado na cadeira de balanço que range,

 

pensava que a felicidade talvez fosse isso:

 

um cachorro latindo longe,

 

o cheiro de café passando pela janela,

 

a certeza absurda de que o mundo continuava

 

mesmo sem que eu me levantasse.

 

Não havia bandeiras.

 

Nenhum poema famoso sendo escrito.

 

Só o silêncio da casa,

 

que não é silêncio de verdade,

 

é o barulho pequeno das coisas existindo:

 

o relógio na cozinha,

 

a água na caixa do banheiro,

 

o tecido da cortina se movendo

 

como quem respira sem pressa.

 

E pensei em você.

 

Não daquele jeito dramático dos livros,

 

não com suspiros nem com dor.

 

Pensei em você como se pensa no ar:

 

sem forma, mas indispensável.

 

Lembrei das suas mãos secando uma xícara,

 

do jeito que você tinha de olhar para a rua

 

como quem espera alguém que já chegou há muito tempo.

 

A vida, eu disse para o vazio da sala,

 

não é feita de grandes portas se abrindo.

 

É feita de portas que já estão abertas

 

e a gente que demora para perceber.

 

É feita de gestos que não fotografamos:

 

o sal sendo jogado na comida,

 

a toalha dobrada no mesmo canto da cama,

 

a voz dizendo volto já

 

e voltando de verdade.

 

Eu poderia ter sido outro homem.

 

Mais jovem, mais audaz,

 

com versos que incendeiam salões.

 

Mas sou este:

 

o que observa a poeira dançando no raio de sol,

 

o que guarda ingressos de cinema de 1987,

 

o que acredita, ainda que não diga,

 

que amar é um ofício silencioso,

 

aprendido dia após dia,

 

como quem aprende a amarrar os sapatos

 

ou a esperar o pão crescer no forno.

 

E nesta tarde qualquer,

 

enquanto o mundo girava sem aviso,

 

eu soube, com a clareza que só o comum nos dá,

 

que já fui feliz muitas vezes

 

sem saber o nome daquilo.

 

Que a beleza não mora nos picos,

 

mas neste chão rachado,

 

nesta xícara gasta pelo uso,

 

neste amor que não grita,

 

que apenas fica.

 

E ficar, meu Deus,

 

ficar é o verbo mais corajoso de todos.

 

Ficar quando tudo convida à fuga.

 

Ficar quando o tempo come as paredes.

 

Ficar, e ao ficar,

 

construir uma pátria minúscula,

 

do tamanho de uma mesa posta para dois,

 

onde a poesia não é escrita,

 

é servida.

 

Quente.

 

Sem pressa.

 

Como quem sabe

 

que o melhor da vida

 

não é o que ainda vai acontecer,

 

mas o que já aconteceu

 

e, por algum milagre,

 

ainda não acabou.

 

 

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O Café Esfriou na Xícara

 

 

O café esfriou na xícara. Deixei.

Não há pressa em beber

o que já não aquece o peito.

 

A tarde entra pela janela

como quem não bate:

só chega e senta no canto da poltrona

onde ninguém mais senta.

 

Folheio o jornal de ontem.

As notícias são as mesmas,

só mudou a data.

E eu, que também sou a mesma notícia

de todos os dias,

leio meu nome entre as linhas

do anúncio de apartamentos.

 

Há um vazio no armário

onde guardava camisas de outras estações.

Abro.

Fecho.

Abro de novo,

como quem espera que o vazio

um dia responda.

 

O relógio da cozinha marca três e quarenta.

Ou quatro.

Não importa.

O tempo aqui não passa:

acumula-se no fundo da pia,

entre os pratos de ontem

e os de amanhã.

 

Penso em ligar para alguém.

Penso em não ligar.

Fico no meio do pensamento,

que é o lugar onde sempre fico:

no meio,

na borda,

na beira da frase que não termino.

 

O gato miou na porta.

Deixei entrar.

Deixei sair.

Não sei mais se ele está dentro

ou se sou eu que estou

do lado de fora de mim mesmo.

 

Anoitece.

Não acendo a luz.

Deixo a escuridão fazer

o que sabe fazer:

me mostrar que existo

porque ainda sinto falta

de quem não voltou,

de quem nunca chegou,

de quem sou quando ninguém olha.

 

O café esfriou.

Bebo assim mesmo.

 

Frio.

Amargo.

Meu.

 

 

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Lição de coisas

 

Lição de Coisas

 

Acordo e a casa já está em ordem.

 

Não a ordem que eu fiz,

 

mas a ordem que o tempo impõe

 

quando ninguém mais discute.

 

A xícara no lugar de sempre.

 

O livro aberto na página que nunca li.

 

A cadeira inclinada

 

como quem espera alguém

 

que desistiu de chegar.

 

Não há poeira.

 

Há apenas o silêncio

 

se acumulando em camadas finas,

 

invisíveis,

 

que só se notam

 

quando a luz bate de lado

 

e revela

 

o que não deveria ser visto.

 

Eu ando pela casa

 

e cada objeto me ensina

 

a mesma coisa:

 

como continuar existindo

 

depois que o sentido foi embora

 

e deixou a porta aberta

 

para o frio entrar

 

e fazer morada.

 

A torneira goteja.

 

Não é vazamento.

 

É a água insistindo

 

em contar algo

 

que eu recuso ouvir.

 

Cada gota cai

 

com a precisão de um relógio

 

que marca horas

 

em que eu já não existia

 

e não sabia.

 

Olho pela janela.

 

A rua segue.

 

Os carros seguem.

 

As pessoas seguem.

 

E eu aqui,

 

na geografia exata

 

do que sobrou,

 

tentando entender

 

por que ainda respiro

 

num quarto onde o ar

 

já se decidiu

 

por não ser mais ar,

 

mas apenas

 

o espaço vazio

 

entre uma saudade

 

e outra.

 

Não há tragédia.

 

Há apenas esta mesa,

 

esta toalha,

 

este copo meio cheio

 

ou meio vazio,

 

depende do dia,

 

e hoje é um dia

 

em que até a metade

 

pesa o dobro

 

e a boca fica seca

 

de tanto engolir

 

o que não foi dito.

 

Eu poderia ter dito.

 

Deveria ter dito.

 

Mas as palavras

 

se transformaram em móveis.

 

Agora moram aqui,

 

pesadas,

 

ocupando espaço,

 

impedindo a passagem,

 

e eu desvio delas

 

como se desvia

 

de quem se amou

 

e agora é apenas

 

obstáculo no corredor.

 

E eu aprendi,

 

devagar,

 

como quem aprende a morrer

 

sem manual,

 

que a melancolia

 

não é ausência.

 

É presença demais.

 

É tudo que ficou

 

querendo ser o que era,

 

e sendo,

 

simplesmente,

 

o que é:

 

uma xícara fria,

 

uma página virada,

 

uma cadeira vazia

 

que ainda faz o barulho

 

de quem se levanta

 

e vai embora,

 

toda noite,

 

no mesmo sonho

 

em que eu acordo

 

e a casa já está em ordem.

 

Kleber Luís Antônio Pinheiro

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Agosto Chega de Madrugada

 

Agosto chega de madrugada.
Ninguém viu.
Ninguém o convidou.

O calendário virou a página sozinho,
como quem desliga a luz
de um quarto vazio.

Eu estava acordado.
Sempre estou.
Esperando algo que não chega,
ou que chegou
e eu não reconheci.

O inverno continua no Sul,
a seca no resto.
O país inteiro espera
uma chuva que não vem,
ou vem demais.

E eu, aqui,
entre a geladeira que zumbe
e o relógio que tique-taqueia,
pergunto para as paredes:

E agora?

As paredes não respondem.
Nunca responderam.
Só acumulam o silêncio
de todos os meses
que passaram antes de agosto.

Amanhã é segunda.
Ou terça.
Não importa.

O mês é novo,
mas a tristeza é a mesma de sempre:
aquela que a gente carrega
como quem carrega um copo d'água
sem sede.

Agosto começou.

E eu continuo aqui,
escrevendo versos
que ninguém pediu,
para dizer que estou vivo

ou que ainda finjo.

 

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Meus Poemas Suspiram a Melancolia

 

Meus Poemas Suspiram a Melancolia

Meus poemas suspiram a melancolia
como quem carrega uma pedra sem pedir ajuda.
Não é dor que grita, é peso que se acostuma,
é o dia que começa igual ao dia anterior
e ninguém estranha, e isso já é triste o bastante.

Escrevo porque as coisas não se resolvem sozinhas:
a xícara continua fria na mesa,
o telefone não toca por ninguém em especial,
e eu, no meio disso tudo, tento entender
por que a tristeza também tem sua elegância.

Não peço socorro. Apenas registro:
o mundo gira devagar demais para quem espera,
rápido demais para quem quer guardar.

E entre essas duas velocidades erradas
eu vou vivendo, meio torto, meio certo,
carregando essa pedra que ninguém vê
mas que pesa exatamente como a vida pesa.

Meus poemas não choram, eles constatam.

E há uma dignidade estranha nisso:
a de seguir escrevendo mesmo sabendo
que a melancolia não tem cura,
só tem forma.

E a forma, essa eu encontrei.

 

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Zero Absoluto

 

Há um lugar onde o frio

não é ausência de calor,

mas silêncio levado

à sua última consequência.

 

Ali,

até a memória desaprende

o caminho de volta.

 

As pedras esquecem

que um dia foram montanhas.

Os rios deixam de sonhar

com a foz.

 

O vento passa

sem mover uma folha,

como quem respeita

o repouso das coisas

que já disseram tudo.

 

Procuro esse inverno

não para morrer,

mas para descobrir

o que permanece

quando o coração

abandona o excesso.

 

Talvez amar

seja isso:

 

reduzir o ruído da alma

até que reste

apenas o essencial.

 

E, no centro

desse frio impossível,

encontrar um pequeno clarão

que nenhuma geada alcança.

 

Porque o verdadeiro

zero absoluto

não congela a vida.

 

Congela apenas

tudo aquilo

que nunca foi amor.

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MELANCOLIA É UM NOME PRÓPRIO

 

Melancolia tem nome próprio,

e o nome é meu.

 

Não é adjetivo que me visita,

é substantivo que me habita,

documento que carrego

sem nunca ter pedido.

 

Chamam-me para o mundo,

e eu respondo com atraso,

como quem atende ao telefone

já sabendo que é despedida.

 

Melancolia não é tristeza,

é mais discreta, mais antiga,

tem modos de quem já morou

em todas as casas que habitei

e ficou, mesmo quando eu saí.

 

Assino embaixo do meu nome

o nome dela, sem hífen,

sem vírgula que separe

onde termino e onde ela começa.

 

Há uma névoa que não é do tempo,

é de mim,

e atravessa os cômodos vazios

como se soubesse os móveis de cor,

como se fosse dona da casa

e eu apenas hóspede antigo.

 

Não pergunto por que ela ficou.

Pergunto, no máximo,

se um dia terei outro nome

que não seja este,

que não doa tanto

de tão meu.

 

 

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Teu Nome na Minha Boca

 

Eu não queria o mundo

queria apenas

que tu existisses

no mesmo quarto

que eu.

 

E exististe.

 

Agora o teto

tem o mapa

de dois respirares

que se perderam

um no outro

e não querem

ser encontrados.

 

Beijei te

como quem beija

a própria água

depois de séculos

de sede.

 

Não era boca

era fonte.

 

Não era língua

era oração

que o corpo

ainda não sabia

que precisava fazer.

 

Tu me deixaste

com a pele

toda em flor.

 

Cada poro

é uma janela

aberta

para o teu nome.

 

E quando a noite

me perguntar

por que brilho assim

no escuro,

eu direi:

 

porque alguém

me tocou

como quem toca

algo sagrado

e o sagrado

nunca mais

sai da gente.

 

Se isto é amor,

que seja doença.

 

Se isto é doença,

que não tenha cura.

 

Eu só peço

que, quando o dia

te levar de mim,

deixes um dedo

ainda preso

ao meu

só para eu saber

que o paraíso

não foi

invenção

minha.

 

 

Saiba mais…

 

Não me fales de amanhã.

 

Esta noite é o único idioma que ainda sei pronunciar com a boca colada à tua.

 

Tu vieste sem aviso, como a primavera que invade o jardim adormecido e faz as rosas se desculparem por terem demorado tanto.

 

Teus olhos: dois lagos onde o céu deixou cair o que ainda não ousava brilhar.

 

Eu me inclino sobre eles e bebo.

 

Não é sede. É a fome antiga de quem reconhece, no primeiro gole, a água de um rio que já correu em outra vida por nossas mãos.

 

Tua pele tem o tom exato que os anjos usam para mentir sobre o paraíso.

 

Eu a toco como quem toca um instrumento que só existe nesta dimensão.

 

E a música que sai de nós não tem nome, não tem partitura, não tem fim.

 

Se o mundo acabar neste quarto, que acabe.

 

Eu já guardei em minha língua o gosto do teu nome, em minhas mãos a curva do teu sono, em meu peito o peso exato de uma eternidade que cabe no espaço entre dois suspiros.

 

Não peço promessas.

 

As promessas são prisões para quem nasceu para voar.

 

Peço apenas que, quando a madrugada te pedir para partir, me deixes como lembrança o vazio que ficou em ti antes de eu chegar, para que eu possa habitá-lo como quem habita uma igreja que ainda não sabe se é ruína ou se é santuário.

 

Porque amar-te não é ter-te.

 

É saber que, em algum lugar do universo, existe um corpo onde minha alma ainda cabe inteira.

 

E que, por um instante, esse lugar me recebeu como quem recebe a luz que há muito já não esperava.

 

 

 

 

Saiba mais…

A Beleza que é Verdade

 

 

Se o teu nome fosse fruta, eu diria: pêssego maduro,

polpa que se entrega antes mesmo do meu toque.

E eu, colhedor tardio, aprendendo a devagar,

descubro que a pressa é a única fome que erra o alvo.

 

Há uma luz de outono presa no teu ombro

quando dormes de lado, virada para a janela.

Não é sol.

É o resto do sol, o que ele esquece quando vai embora.

E é esse resto que eu quero guardar.

 

Sei que tudo isso vai passar.

A pétala escurece.

A taça esfria.

O verão vira lembrança de verão.

 

Mas há uma verdade que só o efêmero ensina:

a beleza não precisa durar

para ser inteira.

 

Deixa-me, então, ser breve contigo.

Não por pressa.

Mas porque aprendi, com os poetas do fogo pálido,

que o instante perfeito não pede eternidade.

 

Pede apenas

que alguém, comovido,

o tenha visto.

Saiba mais…

O Relógio da Cozinha

 

O relógio da cozinha não anda mais.

Parou às três e dez,

hora em que a luz entra torta pela janela

e ilumina a poeira que dança

sem saber para onde vai.

 

Minha mãe dizia que relógio parado

é casa sem alma.

Mas eu acho que é apenas uma pausa

necessária ao tique-taque das obrigações.

 

Olho para os ponteiros imóveis

e penso nas contas que não paguei,

nas cartas que não escrevi,

nos "bom dia" que engoli seco

no elevador do prédio vizinho.

 

Há uma dignidade nesse silêncio mecânico.

Ele não corre atrás do tempo,

não se afoba com a chegada do ônibus,

não se angustia com o atraso do jantar.

 

Ele apenas está.

Como a xícara rachada na pia,

como a sombra do vaso de gerânio

que cresce teimosa no cimento.

 

Talvez eu devesse aprender com o relógio:

parar não é morrer.

É apenas deixar que o mundo gire

enquanto a gente descansa

a vista cansada de tanto olhar

para coisas que não têm resposta.

 

Fico aqui, sentado à mesa de fórmica,

ouvindo o silêncio das três e dez,

e sinto, pela primeira vez no dia,

que estou exatamente onde devo estar:

nem antes, nem depois.

Agora.

Saiba mais…

Inventário do Que Nos Faltou

 

 

Quem me dera descobrir em qual esquina do tempo deixamos cair a parte mais humana de nós.

 

Não foi de uma vez.

 

Foi aos poucos, como uma casa que continua de pé mesmo depois de abandonar seus moradores.

 

Aprendemos cedo a chamar de vitória o que era apenas acúmulo.

 

Aplaudimos vitrines, colecionamos ausências, e esquecemos o nome das árvores que faziam sombra sobre a infância.

 

Há um espelho encostado na parede do mundo.

 

Nele, não aparece o nosso rosto.

 

Aparecem as máscaras que vestimos para convencer o vazio de que estamos completos.

 

Ainda há crianças desenhando sóis em folhas amassadas.

 

Ainda há velhos conversando com fotografias porque elas são as únicas que nunca interrompem.

 

Ainda há rios tentando lembrar o caminho que tinham antes de aprenderem o gosto do concreto.

 

E nós seguimos, erguendo monumentos para aquilo que não nos abraça.

 

Às vezes penso que o futuro não chegou atrasado.

 

Foi apenas embora quando percebeu que ninguém o esperava de mãos vazias.

 

Se eu pudesse pedir apenas uma única graça,

 

não pediria riqueza, nem respostas, nem eternidade.

 

Pediria a coragem de olhar outra vez para o rosto de alguém como quem encontra uma terra desconhecida e decide não conquistá-la, mas pertencer a ela.

 

Talvez então o mundo deixasse de parecer uma ferida tentando se convencer de que nasceu cicatriz.

 

E talvez eu finalmente entendesse essa saudade estranha que mora em mim

 

não daquilo que perdi,

 

mas daquilo que a humanidade ainda pode ser.

 

 

Saiba mais…

Inventário da Manhã

Há uma xícara na prateleira

que não combina com as outras,

asa gasta, esmalte em silêncio,

sobrevivente de um serviço que já não existe.

 

Guardo nela o café de todo dia

como quem guarda um endereço antigo:

não porque precise do caminho,

mas porque o caminho ainda respira.

 

A casa inteira aprendeu esse hábito

de transformar restos em relicário,

a cadeira que range no lugar certo,

a luz que entra sempre pela mesma fresta,

o relógio que atrasa e ninguém conserta

porque seu erro já virou família.

 

Não sou homem de grandes naufrágios.

Sou feito destes pequenos museus:

um pires rachado, uma colher torta,

o gesto repetido de segurar

o calor entre as mãos antes do mundo começar a exigir pressa.

 

Talvez seja isto envelhecer,

não perder as coisas,

mas aprender o nome exato

de cada uma que insiste em ficar.

Saiba mais…

A Xícara que Guarda o Mundo

Há uma xícara na pia
que ninguém lavou ainda,
resto de café da manhã,
de alguém que saiu com pressa
e deixou o silêncio inteiro
dentro dela, quase cheio.

Eu olho para essa xícara
e penso: é assim que eu fico
depois que você atravessa
a cozinha da minha vida
e some porta afora, rápida,
deixando um gosto morno
onde antes era um gole certo.

Não é tristeza grande,
é só o tipo de saudade
que cabe numa caneca:
pequena, doméstica, exata,
do tamanho da distância
entre o fogão e a porta.

Às vezes penso que a vida
também deixa as coisas assim,
pela metade, esfriando,
como se o mundo inteiro
fosse só uma louça suja
esperando por quem ame
o suficiente para lavar.

E eu lavo. Todo dia eu lavo
essa xícara e essa falta,
não porque a sujeira pese,
mas porque é bonito ver
como o comum resiste,
como o barro vira casa
e a casa, sem avisar,
vira o único lugar
onde ainda cabe você.

 

Saiba mais…

 

 

Há um cheiro de café frio que insiste na cozinha

mesmo depois que a xícara foi lavada três vezes.

Talvez a saudade seja isso: um resíduo

que a água não alcança, um sabor

que mora no material da louça

e não no líquido que passou por ela.

 

Eu guardo a cadeira do lado errado da mesa,

a que ninguém senta, mas que ninguém move,

porque mover seria admitir

que o lugar não espera mais ninguém.

 

As dobradiças da porta do quarto

ainda rangem no mesmo ponto exato

onde ela costumava empurrar com o quadril,

e eu deixei assim, sem óleo, de propósito,

porque um som pode ser tudo que resta

de um gesto que o tempo já roubou do corpo.

 

Há uma carta na geladeira, presa por um ímã de peixe,

a tinta desbotando devagar, como se a ausência

também tivesse ritmo de maré.

Leio-a sem precisar ler:

já sei de cor o que nunca mais será dito de novo,

e talvez essa seja a definição mais honesta.

Não é a falta da voz,

é a certeza de que aquela frase

não terá continuação.

 

Quanto mais os dias avançam,

mais a saudade pesa,

como se a distância tivesse aprendido

o ofício da gravidade.

 

As coisas pequenas, o cabo da colher, o chinelo torto,

a mancha de vinho que nunca saiu do tapete,

carregam mais massa do que os grandes retratos na parede,

porque retrato é pose,

e mancha é vida acontecendo sem aviso.

 

Eu já não choro nas datas certas.

Choro nas erradas, nas banais,

numa terça qualquer, no meio do trânsito,

quando uma música toca só o refrão

e o resto do corpo lembra a estrofe inteira.

 

Talvez a saudade não seja dor.

Talvez seja arquivo:

o jeito que a matéria tem

de recusar o esquecimento total,

de insistir em ocupar espaço

mesmo depois que o nome

já não responde mais quando é chamado.

 

E é por isso que não jogo fora a xícara,

nem a cadeira, nem o ímã de peixe na geladeira,

porque enquanto a casa guardar essas ruínas pequenas,

ainda existe um lugar no mundo

onde ela não terminou de acontecer.

 

 

Saiba mais…

O Quarto das Coisas que Não Dissemos

O Quarto das Coisas que Não Dissemos

 

Há uma cadeira na casa que ninguém mais senta. Ela sabe o peso exato do que ficou suspenso entre duas bocas que se fecharam no meio de uma frase.

 

Os copos na pia ainda esperam o toque de mãos que não voltarão. A água esqueceu de secar. Há umidade no ar que cheira à promessa nunca dita em voz alta.

 

Eu abro a gaveta e encontro cartas que não escrevi. Elas já têm endereço, já têm selo, já têm a data de um dia que não existe.

 

O relógio parou na hora em que você disse talvez. Desde então, o talvez habita aqui como um gato que não se deixa tocar, mas come na minha mão toda noite, em segredo.

 

Às vezes, às três da manhã, eu ouço passos no corredor. Não são os teus. São os passos de tudo que não fomos caminhando sozinho pelos cômodos vazios desta casa que ainda não aprendeu a ser só minha.

 

E eu deixo a porta aberta. Não por esperança. Por educação. Porque as coisas que não dissemos merecem um lugar para voltarem e se sentarem nessa cadeira que ninguém mais senta, mas que, de vez em quando, estranhamente, ainda aquece.

 

 

 

Saiba mais…
CPP