Espelhos do cárcere

 

Vi aprisionar corpos e vestes

Vi açoitar a derme

Vi torturar membros e olhos

Vi ofender a vida, sangrando

Mas não vi a prisão da coragem

Não vi o cárcere do sorriso

Não vi o sequestro do olhar

Não vi a prisão dos sonhos

Mas vi a liberdade pulsando

Vi os desejos brotando

Vi pensamentos circulando

Vi o coração amante, latente

Vi as fardas, os coturnos

Capitão, coronel, tenente

A camuflagem dos covardes

Um ódio febril, ardente

Vi a morte viva nos canalhas

Que já estavam soterrados

Na amargura da obediência

no desespero dos seus limites.

Não os vi suportarem a paixão

Nem a brisa invasora da cela

Não vi algemarem o amanhecer

Nem as noites brindando os pares

Não vi açoitarem a chuva lá fora

Nem o aroma das flores

Nem afogarem o cantar do sabiá 

Me dei conta, e sorri!

Não são tão canalhas, 

São tolos…

...reflexos sem vida!

 

(M.Bessa)

Anúncio da Primavera

 

Era outro dia chegando

Estava a espera do brilho do sol

A madrugada fria partia, intacta

Minhas vizinhas já acordaram lindas

Eram azaléias, orquídeas, margaridas

Entre rosas, begônias e camélias

A terra ainda encharcada da noite úmida

Surgia meu poeta a observar, rotina

Procurava entre nós o amor perfeito, 

Mas lá não estava, era ausente

Seus olhos ávidos tinha o doce do mel

Caminhava com passos sutis pelo jardim

Suas mãos delicadas tocavam as rosas

Com o cuidado precioso de um amor

Eu, entre tantas, aguardava seu olhar

Já estava virado ao sol, imponente

Meu amarelo transbordava alegria

Meu caule gigante já fora sua inspiração

Minhas sementes saciam as aves,

E o sol, nunca me deixou desfalecer

Meu poeta era terra, mar e luar

Tinha a fertilidade desse solo

Inundava nossas cores com sua poesia

E anoitecia trazendo a lua de companhia

E o sol o queimava pelas manhãs, embriagado

Minhas amigas o enfeitavam em suas poses

Éramos sua vaidade, seu divã

Recitava às margaridas seus sonetos

Seus versos nos regavam de vida

Matava  nossa sede com suas rimas

A cada estrofe, citava uma de nós

Éramos sua revolução contra o canhão

Suas palavras escritas e famintas

Incendiavam sua espécie, seus irmãos de vida

Seus desejos viajavam nos horizontes

As orquídeas eram suas amantes

O doce aconchego materno, margaridas

As azaléias eram doses de ternura, irmãs

Seu juízo perdia-se nas begônias, atraentes

Murmurava às rosas, como confissões

Acariciava as camélias, ruborizado, súdito

Quase não me olhava ao alto

Mas meu caule era seu encosto, desabafo

Nesse dia, as nuvens chegaram sem aviso

Esconderam meu amigo sol, tímido

Traziam notícias, saudades talvez, um sinal

Nesse dia, fitou seu olhar em mim

Sacou do bolso um botão, não era de rosa

Era da camisa vermelha e puída

Vermelha sangue, puída de luta e poesia

Que vestia em dias de conquistas

Era um botão de camisa

Que guardava a última casa 

Que encobria seu peito, seu coração

Cavou ali ao meu lado no solo

Um breve buraco, não era cova

Era cultivo, era lembrança 

E recitou com voz embargada 

Seu último verso naquele jardim

"Guardarei nesta terra, neste jardim

Às minhas senhoritas flores

Para meu fiel girassol, irmão

Guardião desse jardim, nosso éden

Um atalho de lembrança, amuleto

Pequeno mas valoroso

Desse botão, que num dia 

grudou-lhe  uma semente de girassol

Bem no perto do coração

Num dia de luta e sangue

Que aqui um dia plantei, esperança

E minha poesia se fez vida 

Entre tantas sementes, 

Versos semearam, e hoje

Tenho aqui um jardim, 

Que floresce colorido, com aromas

Regado aos sonhos e devaneios

Cultivados pela vida ao sol

Sob o bailar das estrelas ao redor da lua

Nesse jardim que repousei pensamentos

Dessa metamorfose que somos, 

Que se chama poesia! Vida!"

Disse isso e cutucou-me, traquino

Partiu acenando, deixando só um botão enterrado

Como se esperasse dele, nascer outro poeta

Um outro que nos amasse como nos amou

Seus pés caminhavam descalços

Levando consigo a terra deste solo

As cores e as fragâncias destas flores

A procura do amor perfeito, inexato!

Um orvalho, ainda que tardia

Despencou de mim, sobre o solo

Como um alento, um sopro, já saudade

Era uma lágrima, dessa notícia de botão

Despedida, inequívoca e pungente, 

Desse poeta que um dia

Plantou a gente!

 

(M.Bessa)











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Sobre Mim

Aniversário:

Janeiro 4


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Mauricio Bessa Luna


3) Data de nascimento (não é necessário o ano)

04/01


4) Local de residência (apenas Cidade, Estado e País)

São Paulo


5) Mini Currículo (trabalho, experiências, gostos e ou preferências, família, produção poético-literária...).

"Admirador e leitor de Friedrich Nietzsche, Dante Alighieri, Leonardo Boff, Cecília Meireles, Plínio Marcos, Paulo Coelho, entre outros autores e filósofos da literatura!  Amante das revoluções, apaixonado pela simplicidade na vida, carregando no coração a amizade, a ternura e o amor de todos que os cercam e caminham juntos pela igualdade e solidariedade humana! "


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