MIMOS

Vida Dupla

Vida Dupla

 

Jorge era aquilo a que todos costumam chamar um homem Santo. Casado com a bela Carmem e pai de dois bonitos garotos, não olhava a esforços para ir conseguindo proporcional tudo do melhor à sua família.

Todos os dias, ainda muito antes das oito horas da manhã, lá ia ele a caminho do seu trabalho. Todos sabiam que se tratava de um jovem engenheiro agrónomo que decidira aceitar o convite do dono de uma grande herdade no Alentejo e deixar a sua terra Natal, a qual ninguém sabia onde ficava.

Foi já em Beja que os caminhos de Jorge se cruzaram com os de Carmem, uma bela moça que ali fora colocada como professora. Daí até ao casamento e ao nascimento dos filhos, foi tudo muito rápido.

Os fins-de-semana eram aproveitados para passearem pelas ruas de Beja, sempre em grande ambiente de romantismo e carinho, o que levava a que as colegas de Carmem, normalmente à segunda-feira, se atrevem-se a provoca-la, dizendo-lhe:

- Eh, isso é foi mais um fim-de-semana de Love!

Foi no dia do 4º aniversário do filho mais velho, que o mundo de Carmem se começou a desmoronar. Bastaram dois ou três toques da campainha na porta da belíssima casa do casal, dois agentes da Polícia Judiciária, munidos de uma ordem de detenção, vinham buscar Jorge.

Carmem, sem compreender nada do que se passava, via a Polícia levar-lhe o marido, logo no dia de aniversário do filho e sem lhe darem a mínima explicação.

A notícia não tardou a espalhar-se por toda a cidade de Beja, “O marido da professora Carmem tinha sido preso.” Era essa a verdade, todos conheciam a professora Carmem, alguém que ali chegara sem avisar e que, rapidamente conquistara o coração daquelas gentes, pelo que na segunda-feira, Carmem não conseguiu arranjar coragem para ir dar aulas. Não só se sentia angustiada por continuar sem saber nada do marido, como também se sentia demasiado envergonhada para encarar as colegas, algumas das quais, tinha a certeza disso, lhe viriam dar beijinhos e abraços de conforto, mas que la no bem no fundo do seu ser, se sentiam felizes por verem aquele estado de felicidade que tanta inveja lhes causava, chegar ao fim. Carmem não ignorava como a sua felicidade ao lao de Jorge, fazia nascer inveja em muitas, e muitos, que se diziam suas amigas e amigos.

Os dias foram passando sem que Carmem conseguisse saber do marido. Finalmente teve notícias, estava detido, em Lisboa, acusado de tráfico de droga.

Carmem sentiu-se desesperada, sem saber que norte dar à sua vida. Só lhe restava um caminho, pedir ajuda aos pais, que, imediatamente se dispuseram a ir até Beja. Se nunca tinham deixado de apoiar a filha, não seria numa hora de tanta aflição que a iriam deixar sozinha.

O pai, entretanto, falou com um advogado amigo, o qual se prontificou a diligenciar no sentido de Carmem poder visitar o marido. Assim foi, arranjou os filhos, deixou-os com sua mãe e rumou a Lisboa, acompanhada de seu pai e com a promessa do advogado que lá os esperaria.

O que Carmem ignorava, era que o seu mundo se começara a desmoronar com aqueles toques da campainha, esse mesmo mundo que acabaria por ruir por completo, quando voltasse a estar frente a frente com o marido. Após longos momentos de angústia na portaria do EPL, lá chegou a autorização para ir ao encontro de Jorge:

- Porquê Jorge? Porquê tudo isto? Diz-me que é tudo uma mentira, um engano.

- Não Carmem, antes pelo contrário, é tudo bem verdade. Tu não me conheces, nunca me conheceste. Eu já estive preso antes, sempre pelo mesmo motivo.

- Mas porquê? Nós não precisamos deste dinheiro para nada.

- Carmem, tu não percebes nada da vida, podes ser a melhor professora de matemática, mas da vida, não sabes nada. Eu nunca trafiquei por dinheiro, faço-o por vicio. Eu sou um viciado em adrenalina. Percebes o que te estou a dizer? Não, deixa pra lá. Vou-te dizer uma coisa, quando te conheci, acalmei, isto é, toda a minha adrenalina se transferiu para o jogo de te conquistar, assim que o consegui, tudo voltou a ser como antes, tu, diga-se de passagem, também não ajudaste nada, deixaste-te conquistar com demasiada facilidade, não deste luta.

Carmem estava atónita com tudo o que ouvia, como fora possível amar aquele homem que agora se revelava um verdadeiro monstro:

- Depois foi a tua gravidez do Jorginho, a princípio ainda me senti tentado a parar, mas tu voltaste a não ajudar, foste uma mãe galinha, sem nunca reclamares da minha ausência como pai. Acredita Carmem, nunca foste a mulher que eu preciso ter a meu lado. Nem na cama, tu me conseguiste conquistar, sempre demasiado dócil, sem vontade própria nem imaginação para apimentares a nossa relação. Não te preocupes, saberei perdoar-te o facto de teres sido uma desilusão para mim.

Carmem levantou-se, olhou o marido bem nos olhos e, sem lhe dizer uma palavra que fosse, rodopiou sobre os calcanhares e foi-se rumo a um futuro que desconhecia, mas no qual, sabia-o bem, não haveria lugar para Jorge.

 

Moral: “Quando amamos, é fácil enganarem-nos, mas quando descobrimos, é melhor não nos enfrentarem.”

 

Francis D’Homem Martinho

25/11/2019

Enviar-me um e-mail quando as pessoas deixarem os seus comentários –

Para adicionar comentários, você deve ser membro de Casa dos Poetas e da Poesia.

Join Casa dos Poetas e da Poesia

Sobre

Ainda que vivendo "um dia de cada dia", acabamos, muitos de nós, a não perceber que o Mundo Gira... O relógio do tempo não para... E assim, pela correria do dia-a-dia, deixamos de brincar com os Filhos que crescem...

Deixamos de dizer aos Avós, Pais, Filhos, Netos, Amigos, Semelhantes outros o quanto dependemos uns dos outros... Que vivemos em função da existência do outro...

E... Nos esquecemos de Homenagea-los, seja com u'a singela Flor (a qualquer dia, e não apenas em seus Nívers)... - Seja com um "Alô - CVV = Como Vai Você! - Seja com um Mimo por mais singelo, em forma de Poesia.

É neste sentido, que este Blog - sem cronologia de tempo, visa deixar aos Poetas da Casa, Mimos a eles destinados, sem a preocupação da retórica... da semântica... SIM com a preocupação unica e prioritária de dizer de Algum Modo: CVV - TA = Como Vai Você - Te Amo!!!

CPP - Todos Nós

(( em constructo ))

SSOQA

SSOQA (construindo...)

CPP