Há silêncios que pesam mais do que qualquer palavra dita.
A cadeira que não se move.
O telefone que não toca na hora em que sempre tocava.
A xícara sobrando na mesa, como uma pergunta sem resposta.
Passei meses contando os dias desde que você partiu.
Como quem conta moedas para comprar algo que já não existe mais.
Mas o luto, esse matemático cruel, não soma.
Ele multiplica.
Cada ausência vira dez lembranças inesperadas.
Cada quarto vazio se enche de você nos detalhes mais pequenos:
no jeito de dobrar o jornal,
na mancha de batom no copo,
na música que ninguém colocou para tocar.
A casa aprendeu a guardar você
em lugares que eu não alcanço.
E eu, que achava que a saudade era um rio
que secaria com o tempo,
descobri que ela é poço.
Não seca.
Só muda de profundidade.
Às vezes, de manhã, ainda preparo duas xícaras.
Uma eu bebo.
A outra eu deixo esfriar,
conversando com a ausência.
Não é loucura.
É o jeito que encontrei de dizer
que você ainda é parte do meu café,
do meu dia,
do modo como o sol entra pela janela
e eu olho para a cadeira vazia
e sorrio.
Porque o luto, no fim,
não é só o que nos falta.
É também o que nos sobra.
E o que nos sobra de quem amamos
não é cinza.
É luz
que mudou de endereço.
Comentários
Belíssimo!!!
Parabéns, Kleber! Abraços