Inspirações

Sonhos De Um Avô

Sonhos De Um Avô

          Raquel de Queiroz descreve perfeitamente, essa arte. Entendendo-a ou não, eu sei que amo ainda mais os netos que ainda não tenho. Ela achava e escrevia, declarando que os meus também vão ser como pingos de esperança que Deus deposita no banco da vida de um avô. Uma noite, parecia sentir a presença dela ou, era a presença de seus escritos - não sei ao certo, só sei que ela sussurrava ao meu ouvido dizendo que; eles são como heranças que eu ganho sem ter merecido, sem ter feito nada para isso, e que, de repente, POW! Cai um no meu colo.

          Ouvi da sua boca literária que o avô, não fez um esforço se quer para isso, mas de repente lhe caem do céu..., sem passar as penas do amor, sem sentir a dor do parto, sem os compromissos do matrimônio. Enquanto ouvia Raquelzinha falar, eu mais que sonhava com um neto, na nossa conversa ficava muito claro que, um neto não se trata de um suposto filho - neto é, realmente, o sangue do seu sangue, o filho do seu filho, mais que filho - uma segunda chance de ser feliz..., eu me embriagava ouvindo tudo isso e, ela não parava, quanto mais eu ouvia, mais ela falava.

          Raquelzinha dizia que a idade pesa no lombo do avô, no meu caso - um septuagenário - e, nada de um neto - você sente, nos ossos, que o tempo passou mais depressa do que você esperava. Era como se eu visse dez bocas de minha amiga (cearense) teclando o teclado de sua velha maquina dizendo que, no entanto, o envelhecer não incomoda um avô verdadeiro (o que incomoda é o tempo que passa). Nosso papo continuava e a poeta me explicou que a velhice do avô tem as suas alegrias, as suas compensações, todos dizem isso, embora você, pessoalmente, ainda não as tenha descoberto, mas acredita. Eu dei uma cochilada de segundos, mas não perdi nenhuma palavra da poetisa preferida, pois, ela percebendo meu cochilo parou de falar. Foi só abrir meus olhos e ouvi sua voz iniciando nossa prosa poética do mesmo ponto em que paramos. Obscuramente, é sentida a nostalgia da mocidade nos seus ossos. Não de amores com paixões: mas da doçura da meia idade que não lhe exige essa efervescência. A saudade é de alguma coisa que você tinha e que lhe fugiu sutilmente junto com a mocidade.

          Tornar-se avô é desfrutar de uns poucos prazeres da vida, para os quais as consequências já foram pagas.

          Bracinhos de criança. O tumulto da presença infantil ao seu redor. Meu Deus, para onde foram as minhas crianças que gerei na minha mocidade?

          Elas estão naqueles adultos cheios de problemas que vivem hoje, mas vivem distantes são os meus filhos, que hoje têm sogro tem sogra, tem cônjuge, emprego, apartamento e prestações - você não encontra de modo algum suas crianças perdidas. São homens e mulheres - não são mais aqueles que eu me recordo.

          Novamente eu perco contato com Raquel, meus olhos cansados embaçam e, fecham, dessa vez por minutos, no entanto, não muito distante, eu ouvia sua voz dizendo que, ser avô é dar duas vezes carinho e amor - ser avô é ser de paz amor e afeto; avô cuida, avô ensina, avô brinca, avô protege, avô dá bronca, agrada, perdoa, avô beija, abraça, avô ama..., tudo isso, porque Deus nos dá de presente nossos netos.

          Pense comigo, relembre dum belíssimo dia, sem nenhuma das agonias da gestação ou do parto, o pediatra lhe coloca junto ao seu peito um bebê. Completamente grátis - analise - neste ato é que está a maravilha.

          Percebo que a poeta Raquel de Queiroz tem razão, pois, sem dores, sem choro, aquela criancinha da qual você morria de saudades, símbolo ou penhor da mocidade, longe de ser um estranho, é um filho seu que é devolvido. Ela continua sussurrando aos meus ouvidos que embora, ninguém tire meus direitos - o espanto é visível, o direito de amar com extravagância ninguém lhe tira - ao contrário, causaria espanto e decepção se você não o acolhesse imediatamente com todo aquele amor recalcado e desdenhado que há anos se acumulava, no seu coração.

          As palavras de Raquelzinha ecoam e, não tenho a mínima dúvida de que a vida nos dá netos para compensar de todas as perdas trazidas pela velhice, pois, meu corpo dói e está "crocante". Deveras, são amores novos, profundos e felizes, que vem preencher aquele lugar vazio, nostálgico, deixado pelos arroubos juvenis - amores esses que fortalecem as fibras d'alma e do coração.

          Deveras (de novo), é muito lindo, você embalar um menino ou uma menina e ele/a, tonto de sono abre o olho e diz: "Vô!", nesse momento seu coração estala de felicidade, como broa no forno - lágrimas rolam em seu rosto, como rios de águas salgadas, rolando pelas rugas feitas pelo tempo.

          E, de repente, sinto e vejo Raquel sentada ao meu lado e me contando com seria a vida de um avô. Dizia ela que o misterioso entendimento que há entre avô e neto, na hora em que a mãe o castiga e ele olha pra você, sabendo que, se você não ousa interferir abertamente, pelo menos lhe dá incondicional cumplicidade.

          Entendo sua fala que, até as coisas negativas se viram em alegrias quando se intrometem entre avô e neto: - o bibelô de estimação quebrado porque o menininho - involuntariamente! - bateu com a bola nele. Está quebrado e remendado, mas, enriquecido com preciosas recordações; os cacos nas mãozinhas, os olhos arregalados, o beiço pronto pra o choro, e depois o sorriso malandro e aliviado porque ninguém se zangou, o culpado foi a bola mesmo, não foi, vô. Era um simples boneco que custou caro. Hoje é relíquia; não tem dinheiro que pague...

          Neste momento a voz de Raquel some, some também sua silueta e, eu acordo. Estou com o livro de Raquelzinha em minhas mãos - será que foi um sonho?

João Carreira

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Comentários

  • Gestores

    Sonho ou não o texto é lindíssimo!

    • Marso, um poeta já é emotivo (calcula  poeta septuagenário), cheio de saudades, sem netos então...,

      #JoãoCarreiraPoeta

  • Excelente texto!  Conheço esse escrito e acho lindo.  Você o reproduziu de uma forma encantadora. Parabéns, João!!!

    Abraço

     

    • Marcia, Raquel de Queiroz minha Raquelzinha) sempre foi fora da curva, fora da caixa, na minha viagem ao passado quero abraçar e beijá-la.

      #JoãoCarreiraPoeta

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