A Cadeira que Faltava

No balcão da padaria, às sete da noite, sobra apenas o cheiro do pão que já foi vendido. Eu peço um café e fico olhando a chuva molhar as mesas de plástico do lado de fora.

 

Não há ninguém esperando em casa. Não há ninguém para não esperar.

 

A cidade é um grande armário de gavetas e eu sou a meia que se perdeu na lavanderia do mundo.

 

Às vezes penso em escrever para alguém. Mas para quem, se o correio fechou e as cartas agora são apenas notificações de que o pacote não chegou?

 

A melancolia é um bicho de estimação que não pede comida, só um canto quieto no sofá da garganta.

 

E eu, que um dia quis ser feliz, hoje me contento em ser exato: conto os degraus da escada, os dias do calendário, os fios brancos que a barba traiçoeira semeia.

 

Não é tristeza. É pior.

 

É a certeza de que o mundo continua, e continua sem pressa, como quem não notou que faltava uma cadeira na mesa do jantar.

 

Meu corpo é uma estação de trem onde os trens não param mais.

 

Só o vento entra, só o vento sai, e eu, de porteiro, aprendendo a não perguntar para onde vão as malas que nunca foram minhas.

 

A noite cai.

 

A padaria fecha.

 

Levo para casa a chuva na lapela e essa solidão tão bem acompanhada que até parece que alguém me esperou até o fim.

 

Kleber Luís Antônio Pinheiro

Enviar-me um e-mail quando as pessoas deixarem os seus comentários –

Kleber Luis Antônio Pinheiro
Poeta e educador social.
Atuo com educação social e escrita, desenvolvendo projetos e textos que aproximam arte, escuta e transformação comunitária.

Para adicionar comentários, você deve ser membro de Casa dos Poetas e da Poesia.

Join Casa dos Poetas e da Poesia

Comentários

  • Maravilhoso!!

    Sou tua fã. E ponto.

    Abraço

  • Belíssimo!! Parabéns.

    DESTACADO 

    Um abraço 

This reply was deleted.
CPP