Aprendi tarde que a água não guarda,
só atravessa
e talvez seja por isso que a manhã
não me pergunta nada, apenas passa
pelas frestas da cortina como quem
já sabe o que vai encontrar.
Há uma leveza que dói,
uma clareza que corta sem lâmina:
o copo na mesa, o pão ainda quente,
minha mão que treme um pouco
ao segurar o que não posso deter.
Talvez viver seja isto
uma sede de rio que aceita ser vento,
uma casa de vidro onde o tempo
entra sem bater
e me atravessa como luz atravessa
o que não tem vontade de escurecer.
Não guardo o instante. Deixo que ele me guarde,
por um segundo apenas,
e depois se desfaça
como se nunca tivesse pesado
nada além do ar.
Comentários
Kleber, sempre maravilhoso texto. Cada verso impressiona.
Aplausos, Kleber!
Lindos versos
Abraços