A Casa de Vidro do Instante

 

Aprendi tarde que a água não guarda,
só atravessa
e talvez seja por isso que a manhã
não me pergunta nada, apenas passa
pelas frestas da cortina como quem
já sabe o que vai encontrar.

Há uma leveza que dói,
uma clareza que corta sem lâmina:
o copo na mesa, o pão ainda quente,
minha mão que treme um pouco
ao segurar o que não posso deter.

Talvez viver seja isto
uma sede de rio que aceita ser vento,
uma casa de vidro onde o tempo
entra sem bater
e me atravessa como luz atravessa
o que não tem vontade de escurecer.

Não guardo o instante. Deixo que ele me guarde,
por um segundo apenas,
e depois se desfaça
como se nunca tivesse pesado
nada além do ar.

 

 

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Kleber Luis Antônio Pinheiro
Poeta e educador social.
Atuo com educação social e escrita, desenvolvendo projetos e textos que aproximam arte, escuta e transformação comunitária.

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