A Casa que Aprendeu a Esperar

A Casa que Aprendeu a Esperar

 

Hoje a casa amanheceu mais antiga.

 

Não porque o tempo tenha passado,

mas porque a cadeira onde você sorria

aprendeu a fazer silêncio.

 

Há um copo sobre a mesa.

Ninguém diria que um copo

é capaz de guardar ausências,

mas basta olhá lo demoradamente

para descobrir que o vidro

também sabe sentir frio.

 

Abri a janela.

 

O mundo seguia seu trabalho discreto.

Um cachorro atravessava a rua.

Uma mulher carregava flores.

O padeiro distribuía manhãs

em sacos de papel.

 

Tudo continuava.

 

E foi justamente isso

que mais doeu.

 

Descobri que a dor

não mora nas grandes tragédias.

 

Ela prefere as pequenas continuidades.

 

A chaleira que ferve para ninguém.

A toalha pendurada sem pressa.

O relógio insistindo

que ainda existe futuro.

 

À noite,

conversei com a fotografia.

 

Ela permaneceu imóvel,

como fazem todas as pessoas

que aprendem cedo demais

a linguagem da eternidade.

 

Então compreendi

que o amor não desaparece.

 

Ele troca de endereço.

 

Sai do corpo

e vai morar nas coisas.

 

Por isso as janelas pesam.

As gavetas respiram.

Os corredores têm memória.

 

E nós,

que imaginávamos sobreviver apenas com o coração,

descobrimos tarde

que também sangram

as paredes,

os objetos

e a luz da tarde

quando encontra uma casa

onde alguém continua esperando.

 

 

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Kleber Luis Antônio Pinheiro
Poeta e educador social.
Atuo com educação social e escrita, desenvolvendo projetos e textos que aproximam arte, escuta e transformação comunitária.

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Comentários

  • Sempre um prazer ler suas composições poéticas!!!! Parabéns.

  • Caro poeta Kleber

    Uma bela construção poética, com belos e sensíveis versos.

    Parabéns

    Abraços

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CPP