A Casa que Aprendeu a Esperar
Hoje a casa amanheceu mais antiga.
Não porque o tempo tenha passado,
mas porque a cadeira onde você sorria
aprendeu a fazer silêncio.
Há um copo sobre a mesa.
Ninguém diria que um copo
é capaz de guardar ausências,
mas basta olhá lo demoradamente
para descobrir que o vidro
também sabe sentir frio.
Abri a janela.
O mundo seguia seu trabalho discreto.
Um cachorro atravessava a rua.
Uma mulher carregava flores.
O padeiro distribuía manhãs
em sacos de papel.
Tudo continuava.
E foi justamente isso
que mais doeu.
Descobri que a dor
não mora nas grandes tragédias.
Ela prefere as pequenas continuidades.
A chaleira que ferve para ninguém.
A toalha pendurada sem pressa.
O relógio insistindo
que ainda existe futuro.
À noite,
conversei com a fotografia.
Ela permaneceu imóvel,
como fazem todas as pessoas
que aprendem cedo demais
a linguagem da eternidade.
Então compreendi
que o amor não desaparece.
Ele troca de endereço.
Sai do corpo
e vai morar nas coisas.
Por isso as janelas pesam.
As gavetas respiram.
Os corredores têm memória.
E nós,
que imaginávamos sobreviver apenas com o coração,
descobrimos tarde
que também sangram
as paredes,
os objetos
e a luz da tarde
quando encontra uma casa
onde alguém continua esperando.
Comentários
Sempre um prazer ler suas composições poéticas!!!! Parabéns.
Caro poeta Kleber
Uma bela construção poética, com belos e sensíveis versos.
Parabéns
Abraços