Primeiro vem o sal.
Não o sal da terra, mas o sal
que a terra nunca pediu,
o mineral da memória,
que se deposita nos cantos
onde os olhos guardam
o que a boca não nomeia.
Depois vem a água.
Não a água que bebemos,
mas a que bebemos sem saber,
a que bebemos quando bebemos
o rosto de quem partiu,
quando bebemos o espaço
que o rosto deixou no ar.
E entre o sal e a água,
o que ninguém conta,
vem o tempo.
Não o tempo que passa,
mas o que se recusa a passar,
o que fica parado
na garganta como pedra,
na pálpebra como peso,
no peito como quarto
que se fecha por dentro.
Há quem diga que a lágrima é simples.
Há quem diga que é apenas
o corpo chorando o que a alma
não consegue dizer.
Eu digo: a lágrima é arquitetura.
É o palácio que construímos
para habitar a ausência.
É a ponte que lançamos
sobre o abismo
que separa o que fomos
do que ainda não sabemos ser.
Cada lágrima tem sua geologia.
Camadas de dias que não voltam,
de noites em que acordamos
com o nome de quem partiu
na ponta da língua,
como se o sono
ainda não tivesse aprendido
a pronunciar o verbo
"estar no passado".
E quando a lágrima cai,
quando finalmente cai,
depois de tanto resistir,
tanto segurar,
tanto fingir que era apenas
um olho irritado,
um vento forte,
uma poeira qualquer.
Quando cai,
ela não cai sozinha.
Cai com o peso de tudo
que não dissemos,
de tudo que dissemos mal,
de tudo que dissemos bem
demais, e agora
não há mais quem ouça.
A lágrima é o último diálogo.
É a carta que o corpo escreve
para o corpo que partiu,
na única língua que ambos
ainda compreendem:
a língua do que não precisa
de tradução,
porque nunca teve
palavras para começar.
E depois que cai?
Depois que cai,
há um silêncio novo.
Um silêncio que não é ausência,
mas presença de outra coisa.
Algo que não tem nome ainda,
algo que ainda não sabe
se é paz ou resignação,
se é cura ou apenas
a dor que aprendeu
a não fazer barulho.
Mas há algo.
Sempre há algo.
Mesmo na lágrima que seca,
mesmo no rosto que a secou,
mesmo na mão que tocou
o rosto que secou a lágrima,
há algo que permanece.
Não sei o nome disso.
Mas escrevemos assim mesmo,
na esperança de que,
numa noite qualquer,
alguém que chora
encontre nestas palavras
o sal que precisa,
a água que lhe falta,
e o tempo, ah, o tempo,
que finalmente,
finalmente,
aprenda a passar.
Comentários
Muito belo!
Parabéns.
MARAVILHOSO!!
PARABÉNS POETA!!