A ELASTICIDADE DA PALAVRA
A palavra nasce quase sem matéria:
primeiro, fonema … um sopro articulado;
depois, morfema … fragmento de intenção;
enfim, palavra …
pequena arquitetura do significado.
Mas a palavra, fechada em si mesma,
quase nada traduz.
É o contexto que lhe abre as janelas,
a entonação que lhe troca as vestes,
e outra palavra, posta ao seu lado,
pode mudar-lhe inteiramente o destino.
Pois não …
e o não, extraordinariamente, diz sim.
Pois sim ….
e o sim, conforme a voz que o pronuncia,
pode carregar uma recusa,
uma ironia,
um descrédito vestido de concordância.
Que beleza!
pode admirar uma flor
ou censurar um desastre.
Muito obrigado!
tanto agradecer uma gentileza
quanto, ferido pela ironia,
devolve uma indignação.
Eis a elasticidade:
o dicionário oferece a margem,
mas a vida movimenta o rio.
Saudade não é somente ausência:
pode ser presença sobrevivendo à distância.
Silêncio não é apenas falta de som:
pode ser consentimento, protesto,
medo, sabedoria ou despedida.
Vazio pode ser carência,
mas também espaço disponível
para aquilo que ainda chegará.
E borboletear …
mais que imitar o voo de uma borboleta
pode ser a alma mudando de pouso
entre pensamentos e afetos.
Até os pequenos habitantes da gramática
participam dessa alquimia.
Um artigo particulariza.
Um pronome desloca o sujeito.
Um advérbio modifica certezas.
Uma preposição constrói relações.
Uma simples conjunção
pode colocar duas ideias em confronto.
Ainda acredito não é o mesmo que
acredito ainda:
às vezes, mudar o lugar da palavra
é mudar a temperatura do pensamento.
Há palavras que afirmam negando,
negações que concedem,
elogios que ofendem,
perguntas que acusam
e respostas que nada respondem.
Porque a palavra também nos engana.
Diz sempre
quando sabe que talvez seja nunca.
Diz nunca
quando secretamente espera outra vez.
Diz estou bem
enquanto alguma tristeza
fecha as cortinas por dentro.
Talvez nenhuma palavra caminhe sozinha.
Artigo, pronome, verbo, pausa,
reticências, vírgula, silêncio:
cada vizinhança altera sua fisionomia.
A palavra é uma espécie de matéria elástica:
estende-se entre quem fala
e quem escuta;
entre aquilo que foi dito
e aquilo que se quis dizer.
Por isso, uma palavra em si,
encarcerada em sua própria definição,
é apenas uma possibilidade.
Quando encontrar outra palavra,
um gesto,
uma circunstância,
uma memória,
uma voz,
ganha faces que o dicionário
nem sempre consegue enumerar.
A palavra possui significado;
o ser humano lhe acrescenta sentidos.
E talvez esteja aí seu mais belo paradoxo:
a palavra foi inventada
para explicar o mundo
mas, algumas vezes,
é ela quem torna o mundo
maravilhosamente inexplicável.
Fim
Antonio Domingos
02 de agosto de 2026
Comentários
UAU! Mui belo! Impressionante! Um filosofar de maestria de quem tem experiência de muitas coisas da vida, cotidiano. Superinteressante! Algo mui bem elaborado! Parece que ti Antônio está se superando! Estou encantado! Parabéns!!!!!
Muito obrigado por seu apoio ao nosso trabalho poético
De fato a palavra que decifra pode ser indecifrável...
Abraços fraternos prezado Poeta Luiz Anthony
Belissima página. Leitura sempre cativante, caro poeta. Parabens
A palavra que decifra pode ser indecifrável...
E aí..... é boa noite.....
Muito obrigado amiga Poetisa Lilian... Abraços fraternos
Nobre amigo e poeta Antonio Domingos
Uma maravilhosa expliação do significado das palavras, principalmente as uadas pelos criadores de versos, os poetas.
"a palavra foi inventada
para explicar o mundo
mas, algumas vezes,
é ela quem torna o mundo
maravilhosamente inexplicável".
Tudo resumido nestes belos versos.
Parabéns!
Abraços
Abraços
Muito obrigado Poeta amigo JC Bridon.
Olha lá.... É tenha cuidado....
A palavra decifravel pode ser indecifrável
Muito obrigado de coração
Sempre com excelência! Obrigado, exímio poeta, por nos agraciar com essa beleza! Parabéns!
Olha lá....Pode ser tenha cuidado....
Muito obrigado por seu valioso apoio ao nosso trabalho poético...
Esteja bem é tenha saúde...
Abraços fraternos Maurício