A Geografia do Teu Silêncio
Tu chegas sem bater à porta
como a maré que não pede licença aos molhes,
e eu, que era continente árido,
me torno lago, me torno chuva,
me torno aquela terra escura onde
as raízes, sem aviso,
decidem nascer.
O teu pescoço é a longitude que eu nunca medi:
mapa de sal e de mel,
de lugares onde o sol demora
e o tempo, preguiçoso,
deixa de contar os dias.
Eu viajo por ti como quem atravessa
um país sem fronteiras,
onde cada curva é uma fronteira abolida,
cada sombra, uma pátria reconhecida.
Tu te deitas sobre o lençol
e o lençol se torna oceano.
Tu te levantas
e a casa inteira se inclina
como o carvalho se inclina para o vento
que vem de muito longe
e sabe o nome das coisas.
Eu queria ser o pão que tu partes,
o vinho que tu derramas,
o punhado de sal que tu lanças
sobre a carne ainda viva do jantar.
Mas sou apenas este homem
que te observa dobrar a roupa
e, na dobra da roupa,
encontra a curva do mundo.
À noite, quando o silêncio
se faz pesado como minério,
eu te escavo com as mãos:
encontro cobre nos teus cabelos,
prata na tua respiração,
ouro na curva do teu sono.
E quando acordas,
és a mina que nunca se esgota,
o poço que se recusa
a conhecer a sede.
Não me peças para te dizer
como se chama isto que nos une.
Não há nome para o rio
que corre para dentro do mar
e decide, impudente,
nunca mais voltar à montanha.
Tu és a minha geografia íntima:
o meridiano onde me perco,
a latitude onde me encontro,
o equador que me divide
em dois hemisférios de fogo.
E se um dia eu partir,
leva contigo esta certeza:
deixei em ti, como o navio deixa
a marca da quilha na água,
a prova de que existi,
não como homem,
mas como mar.
Kleber Luís Antônio Pinheiro
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