A lua foi encontrada.
Estava escondida
no lugar mais improvável:
no lado esquerdo do teu sorriso,
entre a ternura e o silêncio.
Durante semanas
os jornais da madrugada
anunciaram sua ausência.
Os poetas entraram em greve.
As marés perderam o compasso.
E eu,
feito homem sem céu,
atravessei noites
como quem atravessa incêndios.
Mas ontem ,
ah, ontem ,
você me olhou
com aquela calma antiga
de quem sabe o nome secreto das coisas,
e o quarto inteiro
voltou a ter maré.
A lua foi encontrada.
Não acima dos prédios,
nem entre as nuvens fatigadas do inverno.
Foi encontrada
na curva da tua voz
quando disseste meu nome
como se ele ainda merecesse existir.
Descobriram também
que a luz dela
não vinha do céu.
Vinha de você o tempo todo.
Por isso as ruas ficaram menos frias.
Por isso os cães voltaram a dormir tranquilos.
Por isso as flores reapareceram
nas rachaduras da cidade.
Há milagres discretos
que ninguém noticia.
Uma mulher abrindo a janela.
Um homem voltando a acreditar.
Dois corpos cansados
aprendendo novamente
a dividir o escuro.
Hoje arrancaram os cartazes
dos postes da madrugada.
“Procura-se a lua desesperadamente.”
Não são mais necessários.
A lua foi encontrada ,
e pela primeira vez em muito tempo,
a noite
parece um lugar seguro.
Comentários
Aplausos, Kleber!!
Abraço