A Maçã Que Continuou Crescendo

 

Quando eu era menino,

acreditava que os perigos

vinham de fora.

 

Moravam nas florestas,

nas sombras,

nas madrastas dos contos.

 

A vida demorou pouco

para corrigir a história.

 

Descobri que a maçã

quase nunca é uma maçã.

 

Às vezes tem o formato

de uma lembrança.

 

Às vezes chega vestida

de saudade.

 

Às vezes carrega o rosto exato

daquilo que mais desejamos.

 

Branca de Neve dormia

porque havia mordido o engano.

 

Nós também.

 

Só que os nossos sonos

não acontecem em castelos.

 

Acontecem em dias inteiros

que atravessamos sem sentir.

 

Em amores que deixamos

decidir por nós.

 

Em medos que aprendem

a falar com a nossa voz.

 

Passei anos acreditando

que amadurecer

era aprender a distinguir

o bem do mal.

 

Hoje desconfio.

 

Talvez seja aprender

que quase tudo chega misturado.

 

A beleza e a armadilha.

 

A ternura e a ausência.

 

A promessa e a perda.

 

Como uma maçã vermelha

brilhando ao sol.

 

E ainda assim,

apesar de tudo,

continuamos estendendo a mão.

 

Não por ingenuidade.

 

Mas porque viver

é aceitar o risco.

 

Quem nunca mordeu

algum sonho impossível

permanece acordado para sempre.

 

E há despertares

mais tristes

do que qualquer feitiço.

 

No fim,

a verdadeira floresta

não estava ao redor do castelo.

 

Estava dentro de nós.

 

E a coragem

sempre foi esta:

 

atravessá-la

mesmo sabendo

que algumas maçãs

continuarão crescendo

nos galhos escuros

do coração.

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Kleber Luis Antônio Pinheiro
Poeta e educador social.
Atuo com educação social e escrita, desenvolvendo projetos e textos que aproximam arte, escuta e transformação comunitária.

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