Quando eu era menino,
acreditava que os perigos
vinham de fora.
Moravam nas florestas,
nas sombras,
nas madrastas dos contos.
A vida demorou pouco
para corrigir a história.
Descobri que a maçã
quase nunca é uma maçã.
Às vezes tem o formato
de uma lembrança.
Às vezes chega vestida
de saudade.
Às vezes carrega o rosto exato
daquilo que mais desejamos.
Branca de Neve dormia
porque havia mordido o engano.
Nós também.
Só que os nossos sonos
não acontecem em castelos.
Acontecem em dias inteiros
que atravessamos sem sentir.
Em amores que deixamos
decidir por nós.
Em medos que aprendem
a falar com a nossa voz.
Passei anos acreditando
que amadurecer
era aprender a distinguir
o bem do mal.
Hoje desconfio.
Talvez seja aprender
que quase tudo chega misturado.
A beleza e a armadilha.
A ternura e a ausência.
A promessa e a perda.
Como uma maçã vermelha
brilhando ao sol.
E ainda assim,
apesar de tudo,
continuamos estendendo a mão.
Não por ingenuidade.
Mas porque viver
é aceitar o risco.
Quem nunca mordeu
algum sonho impossível
permanece acordado para sempre.
E há despertares
mais tristes
do que qualquer feitiço.
No fim,
a verdadeira floresta
não estava ao redor do castelo.
Estava dentro de nós.
E a coragem
sempre foi esta:
atravessá-la
mesmo sabendo
que algumas maçãs
continuarão crescendo
nos galhos escuros
do coração.
Comentários
Parabéns pelo belo poema!
Lindo e verdadeiro... Parabéns, Kleber.