A menina de Poucas Palavras

 

Ninguém notava muito a menina de poucas palavras.

Ela passava pelas ruas como um sopro — discreta, sem pressa, com os olhos cheios de silêncio. Mas havia algo ali, algo que quem prestasse atenção perceberia: um tipo de profundidade que não fazia barulho, mas pesava como quem carrega muitos mundos dentro.

No colégio, diziam que ela era tímida. Em casa, que era reservada. Mas nenhuma dessas palavras a definia por completo. A verdade era que ela estava ocupada — não com lições, nem com afazeres comuns. Estava em obras. Por dentro.

a menina de poucas palavras.

Tinha andaimes invisíveis nas costelas, escadas internas onde subia para alcançar sentimentos guardados em prateleiras altas. Todos os dias, acordava e reerguia alguma parte de si. Não porque estivesse quebrada, mas porque sabia que crescer exigia estrutura. E estrutura se faz com tempo, com silêncio, com paciência.

Enquanto os outros corriam atrás de coisas urgentes, ela caminhava devagar, carregando no peito tijolos de lembranças, cimento de sonhos, ferragens de traumas e colunas de esperança. Tudo seria usado. Nada desperdiçado.

Sabia a que veio. Não era sobre fama, aplausos ou ruídos. Era sobre construção sólida, sobre se tornar inteira antes de tentar ser parte de algo maior. Sabia também para onde queria ir — um lugar onde pudesse viver sem precisar se diminuir, onde seu silêncio não fosse visto como ausência, mas como presença densa.

Os processos do caminho, ela aceitava com a maturidade de quem compreendia que toda demolição traz ensinamentos. Aprendeu que alguns sentimentos precisam ruir para dar espaço ao novo. Que há dores que preparam o terreno. Que o vazio também pode ser fértil, se a gente souber o que plantar nele.

E assim ela seguia — quieta, mas nunca parada.

Seus olhos calados continuavam a carregar mundos. E enquanto ninguém notava, ela se tornava uma catedral por dentro.

Uma construção feita com amor, silêncio e intenção.


 


 

 

Enviar-me um e-mail quando as pessoas deixarem os seus comentários –

Rocha (Isa)

Para adicionar comentários, você deve ser membro de Casa dos Poetas e da Poesia.

Join Casa dos Poetas e da Poesia

Comentários

  • Muito bonito Isa....mesmo. Deus a abençoe

    • Meu amigo, meu coração se alegra demais 

      em ter você aqui!

      Obrigada pelo carinho Bjinho 

  • OI nobre poetisa Rocha (Isa)

    Um bela composição poética, onde você mostra ao mundo da sua quietude o que é ser deverás alguém que deseja muito trazer à realidade seus mais apaixonantes sonhos.

    Enquanto lia me veio à mente alguém que conheci muito bem, eu mesmo.

    Grato por seu belíssimo e verdadeiro texto.

    Parabéns

    Um abraço

    • Olá poeta,

      Bom te-lo em meu pequeno jardim,

      todos nós temos aquela

      pessoa interior que ningúem vê

      Obrigada, volte mais vezes

      Um abraço!

       

  • A menina de poucas palavras!

    Hella, não dormitava:

    habitava o limiar entre o silêncio e o

    prelúdio da própria insurreição.

    Abdicava do ruído,

    abstêmia de pressas,

    tampouco ambígua em sua essência.

    Seu caminhar parecia borboletear entre lembranças e

    sonhos poisados no peito.

    Evocava mundos com o olhar,

    escrevendo um silabário íntimo de reconstrução.

    Cada passo era um gesto de amor

    — não à perfeição, mas à coragem de se tornar inteira.

    Uaaaaaau!

    Acabo de ler uma bela alcatifa poética,

    Simplesmente, aos poucos nós vamos entendendo a profundeza da poetisa.

    Um carinhoso abraço — 

    ©JoaoCarreiraPoeta.

    • Olá amigo poeta, 

      sempre bom receber você 

      em meu pequeno jardim, a poesia da poetISA,

      sempre terá um pouquinho de mistério...( rsrs)

      fico feliz que tenha gostado.

      Bjinho

  • Belo conto, que delicia ler. Meus aplausos

    • Olá linda menina,

      Meu coração sempre se alegra ao recebe-la 

      no jardim das minhas letras!

      Bjinho

  • Exuberante seu conto. Leitura imperdível. 

    • Olá menina, 

      sinto-me muito privilegiada em recebe-la,

      gratidão!

      Bjinho

This reply was deleted.
CPP