A Poeira do Tempo
Há poeira nos móveis que ninguém mais toca, fina camada onde os dias se depositam como quem esquece de lembrar.
Passo o dedo sobre a mesa antiga e escrevo, sem querer, um nome que o vento da casa já apagou.
O relógio da sala parou numa hora que não interessa mais a ninguém, mas os ponteiros continuam ali, enferrujados de espera, guardando um instante que foi meu e que o tempo, devagar, engoliu.
Não é saudade de pessoas, é saudade do jeito que a luz entrava pela janela numa tarde qualquer, sem importância, que hoje pesa como se fosse tudo.
A poeira é isso: o que resta quando a vida termina de passar e esquece de levar consigo os rastros.
Eu sou também um pouco desse pó que se acumula sobre o que foi vivido, cada gesto antigo, cada porta que um dia bati sem saber que estava fechando um tempo inteiro.
E quando alguém, por fim, limpar a casa, vai encontrar nos cantos, nas gretas do assoalho, o que ficou de mim: não cinzas, mas poeira, leve, quieta, permanente, prova de que existi mesmo depois que o tempo me apagou.
Comentários
Somente poeira restará de cada um de nós.
Muito belo seu texto, Poeta.