A Poeira do Tempo

 

A Poeira do Tempo

 

Há poeira nos móveis que ninguém mais toca, fina camada onde os dias se depositam como quem esquece de lembrar.

 

Passo o dedo sobre a mesa antiga e escrevo, sem querer, um nome que o vento da casa já apagou.

 

O relógio da sala parou numa hora que não interessa mais a ninguém, mas os ponteiros continuam ali, enferrujados de espera, guardando um instante que foi meu e que o tempo, devagar, engoliu.

 

Não é saudade de pessoas, é saudade do jeito que a luz entrava pela janela numa tarde qualquer, sem importância, que hoje pesa como se fosse tudo.

 

A poeira é isso: o que resta quando a vida termina de passar e esquece de levar consigo os rastros.

 

Eu sou também um pouco desse pó que se acumula sobre o que foi vivido, cada gesto antigo, cada porta que um dia bati sem saber que estava fechando um tempo inteiro.

 

E quando alguém, por fim, limpar a casa, vai encontrar nos cantos, nas gretas do assoalho, o que ficou de mim: não cinzas, mas poeira, leve, quieta, permanente, prova de que existi mesmo depois que o tempo me apagou.

 

 

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Kleber Luis Antônio Pinheiro
Poeta e educador social.
Atuo com educação social e escrita, desenvolvendo projetos e textos que aproximam arte, escuta e transformação comunitária.

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