Aprendi a ser rio: não retenho a água,
deixo que ela passe e me leve um pouco também.
O que foi, foi, e mesmo assim não há mágoa,
fica apenas leve, como quem sabe que vem.
Há um jeito manso de guardar o que se perdeu:
não numa gaveta, não num nó na garganta,
mas num canto simples, quase meu,
que não chora a ausência, apenas a canta.
As coisas pequenas ainda estão comigo:
o vapor do café, a luz de certa hora,
o som de um nome que já não digo,
mas que a manhã, sem querer, ecoa.
Não se trata de esquecer nem de sofrer.
É aprender que o tempo também é morada,
que dentro do rio há sempre onde viver,
mesmo quando a margem já ficou vazia e calada.
E assim eu sigo, devagar, sem alarme,
colhendo o que foi doce no que passou,
porque a saudade, quando não pede que se ame,
apenas lembra, baixinho, o que ficou.
Comentários
Belíssimo!!!! Parabéns
Caro poeta Kleber
Um poema que retrata o que nosso eu consegue viver
Com versos como:
"Não se trata de esquecer nem de sofrer.
É aprender que o tempo também é morada,
que dentro do rio há sempre onde viver,
mesmo quando a margem já ficou vazia e calada".
Parabéns!
Abraços