A Sombra que Cabe em Mim

 

Há um jeito de estar no mundo

que não exige barulho:

é ficar quieto na cadeira

enquanto a tarde desmancha

seus últimos assuntos.

 

Eu, que já fui tantas coisas urgentes,

aprendi a lentidão dos objetos,

a cadeira que não se queixa,

o copo que não pergunta nada,

a poeira que se deposita

sem pressa de ser notada.

 

O mundo continua girando lá fora,

inteiro de manchetes e de pressa,

mas aqui dentro

há um país pequeno e exato

onde as coisas se resolvem sem grito.

 

Não é resignação, é medida:

sei que a dor existe, tenho a sua conta,

mas também sei que ela cabe

num bolso qualquer da tarde,

ao lado das chaves e do troco.

 

Envelhecer é isto:

descobrir que os grandes dramas

moram nas coisas pequenas,

e que a alma, se for honesta,

se contenta com o barulho da chuva

batendo devagar

no zinco de tudo o que fomos.

 

 

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Kleber Luis Antônio Pinheiro
Poeta e educador social.
Atuo com educação social e escrita, desenvolvendo projetos e textos que aproximam arte, escuta e transformação comunitária.

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