Há um jeito de estar no mundo
que não exige barulho:
é ficar quieto na cadeira
enquanto a tarde desmancha
seus últimos assuntos.
Eu, que já fui tantas coisas urgentes,
aprendi a lentidão dos objetos,
a cadeira que não se queixa,
o copo que não pergunta nada,
a poeira que se deposita
sem pressa de ser notada.
O mundo continua girando lá fora,
inteiro de manchetes e de pressa,
mas aqui dentro
há um país pequeno e exato
onde as coisas se resolvem sem grito.
Não é resignação, é medida:
sei que a dor existe, tenho a sua conta,
mas também sei que ela cabe
num bolso qualquer da tarde,
ao lado das chaves e do troco.
Envelhecer é isto:
descobrir que os grandes dramas
moram nas coisas pequenas,
e que a alma, se for honesta,
se contenta com o barulho da chuva
batendo devagar
no zinco de tudo o que fomos.
Comentários
Essa maneira de escrever é um luxo. Adoro ler seus escritos, parabéns!!!!
Caro poeta Kleber
Um poema bem construído.
Parabéns
Abraços