Não me fales de amanhã.
Esta noite é o único idioma que ainda sei pronunciar com a boca colada à tua.
Tu vieste sem aviso, como a primavera que invade o jardim adormecido e faz as rosas se desculparem por terem demorado tanto.
Teus olhos: dois lagos onde o céu deixou cair o que ainda não ousava brilhar.
Eu me inclino sobre eles e bebo.
Não é sede. É a fome antiga de quem reconhece, no primeiro gole, a água de um rio que já correu em outra vida por nossas mãos.
Tua pele tem o tom exato que os anjos usam para mentir sobre o paraíso.
Eu a toco como quem toca um instrumento que só existe nesta dimensão.
E a música que sai de nós não tem nome, não tem partitura, não tem fim.
Se o mundo acabar neste quarto, que acabe.
Eu já guardei em minha língua o gosto do teu nome, em minhas mãos a curva do teu sono, em meu peito o peso exato de uma eternidade que cabe no espaço entre dois suspiros.
Não peço promessas.
As promessas são prisões para quem nasceu para voar.
Peço apenas que, quando a madrugada te pedir para partir, me deixes como lembrança o vazio que ficou em ti antes de eu chegar, para que eu possa habitá-lo como quem habita uma igreja que ainda não sabe se é ruína ou se é santuário.
Porque amar-te não é ter-te.
É saber que, em algum lugar do universo, existe um corpo onde minha alma ainda cabe inteira.
E que, por um instante, esse lugar me recebeu como quem recebe a luz que há muito já não esperava.
Comentários
Caro poeta Kleber
Um poema muito bem elaborado, inspirado.
Versos como: "É saber que, em algum lugar do universo, existe um corpo onde minha alma ainda cabe inteira", fazem o poema ser digno de aplausos.
Parabéns!
Abraços