A Única Hora em que os Relógios Morrem

 

Não me fales de amanhã.

 

Esta noite é o único idioma que ainda sei pronunciar com a boca colada à tua.

 

Tu vieste sem aviso, como a primavera que invade o jardim adormecido e faz as rosas se desculparem por terem demorado tanto.

 

Teus olhos: dois lagos onde o céu deixou cair o que ainda não ousava brilhar.

 

Eu me inclino sobre eles e bebo.

 

Não é sede. É a fome antiga de quem reconhece, no primeiro gole, a água de um rio que já correu em outra vida por nossas mãos.

 

Tua pele tem o tom exato que os anjos usam para mentir sobre o paraíso.

 

Eu a toco como quem toca um instrumento que só existe nesta dimensão.

 

E a música que sai de nós não tem nome, não tem partitura, não tem fim.

 

Se o mundo acabar neste quarto, que acabe.

 

Eu já guardei em minha língua o gosto do teu nome, em minhas mãos a curva do teu sono, em meu peito o peso exato de uma eternidade que cabe no espaço entre dois suspiros.

 

Não peço promessas.

 

As promessas são prisões para quem nasceu para voar.

 

Peço apenas que, quando a madrugada te pedir para partir, me deixes como lembrança o vazio que ficou em ti antes de eu chegar, para que eu possa habitá-lo como quem habita uma igreja que ainda não sabe se é ruína ou se é santuário.

 

Porque amar-te não é ter-te.

 

É saber que, em algum lugar do universo, existe um corpo onde minha alma ainda cabe inteira.

 

E que, por um instante, esse lugar me recebeu como quem recebe a luz que há muito já não esperava.

 

 

 

 

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Kleber Luis Antônio Pinheiro
Poeta e educador social.
Atuo com educação social e escrita, desenvolvendo projetos e textos que aproximam arte, escuta e transformação comunitária.

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Comentários

  • Caro poeta Kleber

    Um poema muito bem elaborado, inspirado.

    Versos como: "É saber que, em algum lugar do universo, existe um corpo onde minha alma ainda cabe inteira", fazem o poema ser digno de aplausos.

    Parabéns!

    Abraços

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