A Vida Não Soube Deixar Você Ficar

 

A vida tem dessas distrações.

Passa correndo pelas horas,
organiza o trânsito das manhãs,
empurra nuvens de um lado para outro,
faz nascer capim entre as pedras
e, de repente,
esquece alguém.

Não por maldade.

A vida raramente é cruel de propósito.
Ela apenas continua.

Você foi uma dessas coisas
que ela não conseguiu segurar.

Talvez porque fosse leve demais.
Talvez porque certas pessoas
pertençam mais ao mistério
do que aos calendários.

Sei apenas que um dia
a sua cadeira ficou vazia.

E continuou vazia.

Os relógios seguiram trabalhando.
Os jornais chegaram à porta.
O café esfriou na mesa
como sempre esfria.

Mas havia uma ausência nova
sentada entre os objetos.

Foi então que comecei
a carregar você comigo.

Não como quem leva um retrato
na carteira.

Retratos envelhecem.

Levo você no jeito
de olhar uma tarde de chuva,
na pausa antes de responder uma pergunta,
na estranha sensação
de que certas alegrias
ainda precisam ser divididas.

A vida não soube deixar você ficar.

E eu não soube deixar você partir.

Assim fizemos um acordo silencioso.

Você saiu do mundo visível.

Eu lhe dei morada
dentro de mim.

Desde então,
quando alguém pergunta
onde você está,

não sei responder direito.

Aponto o peito.

E fico em silêncio.

 

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Kleber Luis Antônio Pinheiro
Poeta e educador social.
Atuo com educação social e escrita, desenvolvendo projetos e textos que aproximam arte, escuta e transformação comunitária.

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Comentários

  • MARAVILHOSO!!

     

  • Maravilhosa inspiração, Kleber! Parabéns.

    Adorei 

    DESTACADO 

  • Adorável. Parabens caro poeta.

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CPP