A XÍCARA E O RESTO

 

Há uma xícara na mesa

e ela não sabe

que é apenas uma xícara.

 

Eu é que sei

e essa é a minha desgraça,

saber o nome das coisas

enquanto elas continuam sendo,

inteiras,

sem precisar de mim.

 

Bebo o café frio

como quem cumpre

uma sentença pequena.

 

O mundo não pediu explicação

e eu ofereço mesmo assim,

palavra por palavra,

como quem tapa um buraco

com areia.

 

Há um jeito de estar vivo

que se parece com estar quieto demais

numa sala onde tudo se move.

 

Eu sou o resto da conta

que ninguém veio buscar.

 

E no entanto,

pasme-se,

isto também é festa:

 

o resto que sobra é meu,

e é nele que eu moro.

 

 

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Kleber Luis Antônio Pinheiro
Poeta e educador social.
Atuo com educação social e escrita, desenvolvendo projetos e textos que aproximam arte, escuta e transformação comunitária.

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