Há uma xícara na pia
que ninguém lavou ainda,
resto de café da manhã,
de alguém que saiu com pressa
e deixou o silêncio inteiro
dentro dela, quase cheio.
Eu olho para essa xícara
e penso: é assim que eu fico
depois que você atravessa
a cozinha da minha vida
e some porta afora, rápida,
deixando um gosto morno
onde antes era um gole certo.
Não é tristeza grande,
é só o tipo de saudade
que cabe numa caneca:
pequena, doméstica, exata,
do tamanho da distância
entre o fogão e a porta.
Às vezes penso que a vida
também deixa as coisas assim,
pela metade, esfriando,
como se o mundo inteiro
fosse só uma louça suja
esperando por quem ame
o suficiente para lavar.
E eu lavo. Todo dia eu lavo
essa xícara e essa falta,
não porque a sujeira pese,
mas porque é bonito ver
como o comum resiste,
como o barro vira casa
e a casa, sem avisar,
vira o único lugar
onde ainda cabe você.
Comentários
Um encanto de texto! Parabéns.
Que liindooooooooooooooooooooo!!
Aplausos, Kleber!
Abraço
Parabéns poeta Cleber, bela poesia! Abraços fraternos!