Há uma xícara na minha casa que não é minha.
É azul, com uma flor que não sei o nome. Você sabia. Disse uma vez, enquanto eu fingia ouvir, absorto no jeito que seus dedos seguravam o cabo torto, como quem segura algo que não quer soltar.
Você foi embora. Ou eu fui. Nunca ficou claro quem abandonou quem, e isso, convenhamos, é o tipo de detalhe que importa apenas para quem ainda tem dignidade para discutir. Eu não tenho. Guardei a xícara.
Uso-a às vezes, de manhã, quando o café fica mais amargo e o silêncio mais comprido. O cabo torto não me incomoda. Ao contrário: encaixa-se na minha mão como lembrança de algo que um dia encaixou em outra parte de mim.
Já pensei em devolvê-la. Mas como se devolve uma xícara sem devolver o que se derramou dentro dela? O café. O chá. As conversas que não tivemos porque estávamos ocupados demais sendo felizes, ou fingindo, ou apenas ocupados demais.
Ontem, quebrei o pires. Não por raiva. Por distração, que é a forma mais honesta de raiva que conheço. O pires era branco, sem flor. Não combinava com a xícara. Talvez por isso tenha caído: incompatibilidade existencial entre quem serve e quem é servido.
A xícara, agora, fica sozinha na prateleira, sem companheiro. Parece-me, de certo ângulo, mais bonita assim. Mais triste, é claro, mas a tristeza, quando assume a própria forma, tem uma dignidade que a felicidade fingida nunca alcançará.
Hoje, alguém me perguntou por que guardo uma xícara que não uso direito. Respondi que é boa para café. Menti. É péssima para café. O café esfria rápido nela, como se o azul com flor sem nome absorvesse não só o calor, mas também a ilusão de que alguma coisa, nesta vida, permanece quente o suficiente para ser bebida sem queimar a língua.
Ainda guardo. Não por você. Por mim, que um dia soube segurar algo com dois dedos, soprando para não queimar, esperando que você dissesse de novo o nome daquela flor que eu, propositalmente, sempre esquecia.
Comentários
Maravilhosos versos!!! Um encanto de poema! Quantas recordações guardadas...
Parabéns, Kleber.