Anatomia da Espera

 

Minhas mãos são dois animais treinados

para o gesto de alguém

que já não chega.

 

Ainda abrem a porta

antes da hora,

ainda ajeitam o travesseiro

do lado vazio.

 

Há uma faca fria

no lugar onde o peito

costumava bater

duas vidas ao mesmo tempo.

 

Agora bate uma só.

 

E mesmo essa

soa como excesso.

 

Eu me deito

como quem se opera:

 

o corpo aberto

sobre a mesa branca,

os pontos de sutura

ainda frescos,

 

onde alguém arrancou

o nome que eu dizia mais.

 

Não choro.

 

Aprendi a congelar por dentro,

a manter o gelo fino

sobre o fogo,

 

fingindo calma

enquanto tudo arde

sob a pele lisa

que mostro ao mundo.

 

Às vezes sonho

que sou uma casa

com as luzes acesas

e ninguém dentro,

 

as janelas abertas

para um vento

que só sabe entrar,

nunca ficar.

 

E quando acordo,

toco meu próprio peito

como quem confere

se a ferida é real.

 

E é.

 

Está lá.

 

Bate baixo,

teimosa,

 

esperando um corpo

que decidiu

não voltar.

 

 

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Kleber Luis Antônio Pinheiro
Poeta e educador social.
Atuo com educação social e escrita, desenvolvendo projetos e textos que aproximam arte, escuta e transformação comunitária.

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