Minhas mãos são dois animais treinados
para o gesto de alguém
que já não chega.
Ainda abrem a porta
antes da hora,
ainda ajeitam o travesseiro
do lado vazio.
Há uma faca fria
no lugar onde o peito
costumava bater
duas vidas ao mesmo tempo.
Agora bate uma só.
E mesmo essa
soa como excesso.
Eu me deito
como quem se opera:
o corpo aberto
sobre a mesa branca,
os pontos de sutura
ainda frescos,
onde alguém arrancou
o nome que eu dizia mais.
Não choro.
Aprendi a congelar por dentro,
a manter o gelo fino
sobre o fogo,
fingindo calma
enquanto tudo arde
sob a pele lisa
que mostro ao mundo.
Às vezes sonho
que sou uma casa
com as luzes acesas
e ninguém dentro,
as janelas abertas
para um vento
que só sabe entrar,
nunca ficar.
E quando acordo,
toco meu próprio peito
como quem confere
se a ferida é real.
E é.
Está lá.
Bate baixo,
teimosa,
esperando um corpo
que decidiu
não voltar.
Comentários
Muito lindo!!! Parabéns.
Show de poesia!