Cada Manhã Eu Te Conheço de Novo
Ela acorda e não me reconhece.
Não todos os dias.
Alguns dias sim,
alguns dias não.
E nos dias em que não,
eu sou um estranho
que senta na beira da cama
e traz café.
Um estranho que chora
sem que ela entenda por quê.
Eu aprendi a me apresentar.
Não como marido.
Isso assusta.
Eu digo:
sou seu amigo.
Ela pergunta:
de onde?
Eu digo:
de sempre.
Ela ri.
Não acredita.
Mas aceita o café.
E, enquanto bebe,
ela me olha
como se me visse
pela primeira vez.
E, de certa forma,
é sempre
a primeira vez.
Hoje ela me chamou de outro nome.
O nome do pai.
Ela tinha sete anos
na memória que acessou.
Eu respondi.
Não corrigi.
Porque, se ela precisa
de um pai,
eu serei pai.
Se amanhã ela precisar
de um filho,
eu serei filho.
Se ela precisar
de um amante,
eu serei amante.
Eu serei tudo
que ela precisar
para não sentir
que está só
neste quarto
que ela não reconhece
como lar.
Ela me perguntou uma vez:
por que você fica?
Ela não lembra que perguntou.
Eu lembro.
Eu lembro de tudo.
Eu lembro da resposta
que eu não dei.
A resposta é:
porque amar você
não é mais uma escolha.
É uma profissão.
É um ofício
que eu exerço
sem folga,
sem salário,
sem aposentadoria.
É o único trabalho
que eu sei fazer
e que,
mesmo sendo inútil,
ainda me parece
o único sentido
de levantar.
Ontem ela me reconheceu.
Por cinco minutos.
Ela disse meu nome.
O nome verdadeiro.
Ela disse:
eu te amo.
Ela não diz isso
há meses.
Eu não chorei na hora.
Chorei depois,
no banheiro,
com a torneira aberta,
para que ela não ouvisse.
Porque eu não quero
que ela saiba
que eu choro.
Eu quero que ela pense
que sou forte.
Que sou eterno.
Que não vou embora.
Mesmo sabendo
que um dia
ela não estará aqui
para ver
se eu fui
ou se fiquei.
Eu a amo
nas formas que ela ainda é.
Eu a amo
quando ela é criança,
quando ela é mãe,
quando ela é estranha,
quando ela é ninguém.
Eu a amo
quando ela me olha
com medo,
como se eu fosse
um intruso
no quarto
da própria vida dela.
Eu a amo
mesmo quando ela me odeia,
mesmo quando ela grita,
mesmo quando ela joga
o café na minha cara
e diz
que eu a prendo
aqui,
neste corpo
que não obedece,
nesta mente
que trai.
Eu a amo.
E se isto não é romance,
eu não sei o que é.
Se isto não é poesia,
então a poesia
é uma mentira
que os poetas contam
para se sentirem
menos sós.
Eu não sou poeta
quando a amo.
Eu sou apenas
um homem
que todos os dias
se apaixona
pela mesma mulher
como se fosse
a primeira vez.
E que,
todos os dias,
é deixado
como se fosse
a última.
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