Do Instante Antes do Grito
Há um segundo, só um,
em que ainda não sei que perdi.
É o segundo mais puro que existe:
o mundo inteiro, intacto,
antes de a notícia atravessar o ar
e quebrar tudo que eu era.
Depois disso, não sei explicar.
A dor não tem sintaxe,
não obedece a começo, meio e fim.
É uma coisa que simplesmente é,
como uma pedra é,
como um instante é,
sem pedir licença para doer.
Descobri que o luto não é sentimento.
É estado. É como estar vivo,
mas de um jeito que ninguém ensinou.
Como respirar debaixo d'água
e perceber, de repente,
que era isso, sempre foi isso,
que a vida também é isto:
aprender a afogar-se sem morrer.
Não procuro consolo.
Desconfio de quem oferece explicações
para o que não tem explicação nenhuma.
Só quero, às vezes, tocar de leve
no lugar onde doeu,
como quem toca uma ferida
para ter certeza de que é real,
para ter certeza de que amei.
E é isto que fico sabendo, aos poucos,
enquanto o mundo continua girando
sem me perguntar se estou pronto:
que a ausência também tem corpo,
que a saudade também respira,
e que eu, no fundo, no fundo,
não perdi o que amei.
Apenas aprendi a amá-lo
de um jeito que dói para sempre.
Comentários
Maravilhoso texto, Kleber!!!! Parabéns.