Do Instante Antes do Grito

 

 

Do Instante Antes do Grito

 

Há um segundo, só um,

em que ainda não sei que perdi.

É o segundo mais puro que existe:

o mundo inteiro, intacto,

antes de a notícia atravessar o ar

e quebrar tudo que eu era.

 

Depois disso, não sei explicar.

A dor não tem sintaxe,

não obedece a começo, meio e fim.

É uma coisa que simplesmente é,

como uma pedra é,

como um instante é,

sem pedir licença para doer.

 

Descobri que o luto não é sentimento.

É estado. É como estar vivo,

mas de um jeito que ninguém ensinou.

Como respirar debaixo d'água

e perceber, de repente,

que era isso, sempre foi isso,

que a vida também é isto:

aprender a afogar-se sem morrer.

 

Não procuro consolo.

Desconfio de quem oferece explicações

para o que não tem explicação nenhuma.

Só quero, às vezes, tocar de leve

no lugar onde doeu,

como quem toca uma ferida

para ter certeza de que é real,

para ter certeza de que amei.

 

E é isto que fico sabendo, aos poucos,

enquanto o mundo continua girando

sem me perguntar se estou pronto:

que a ausência também tem corpo,

que a saudade também respira,

e que eu, no fundo, no fundo,

não perdi o que amei.

Apenas aprendi a amá-lo

de um jeito que dói para sempre.

 

 

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Kleber Luis Antônio Pinheiro
Poeta e educador social.
Atuo com educação social e escrita, desenvolvendo projetos e textos que aproximam arte, escuta e transformação comunitária.

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