Elegia para o que Ainda Não Queimou

Elegia para o que Ainda Não Queimou

 

Não me fales de fronteiras

quando o teu corpo é a única pátria

onde não preciso de passaporte

nem de perdão.

 

Tu vieste das montanhas,

não das que aparecem nos mapas,

mas das que o sangue levanta

quando a noite se faz lenta

e a pele inventa continentes.

 

Eu te encontrei no meio da batalha:

não havia exércitos,

apenas o silêncio

se armando contra nós dois.

Me ofereceste as costas

como quem oferece uma estrada

para que o exílio passe

e não volte mais.

 

O teu ventre é o vale

onde a revolução dorme:

não a dos gritos e bandeiras,

mas a que se faz com a boca

junto à clavícula,

com a mão descendo devagar,

como quem desarma uma mina

e prefere explodir contigo

a sobreviver sozinha.

 

Eu queria ser o cobre em tuas veias,

o mineral que te faz vermelha

quando a vergonha chega

e se transforma em fogo.

Queria ser o salitre dos teus ossos,

a substância que explode

quando alguém te toca

como terra prometida,

não para conquistar,

mas para habitar.

 

Tu me ensinaste que o amor

não é um jardim:

é uma cordilheira que se nega,

um vulcão guardando no peito

a lava que ainda não queimou,

a paciência da pedra

esperando milênios

para ser chamada de abrigo.

 

E quando me deitas sobre o lençol,

não me deitas:

me plantas.

Me enterras com as unhas,

me regas com a boca,

me esperas florescer

na estação que só tu conheces,

aquela que vem depois do inverno,

depois da fome,

depois de todos os homens

que passaram por ti

sem perceber

que eras solo fértil

e não estrada.

 

Eu te amo como se ama uma causa perdida:

com a certeza de que perder é impossível

enquanto houver em ti

um centímetro de pele

que ainda não foi libertada

pelo meu nome.

 

Não me peças para ser cauteloso.

Já fui cauteloso em outras vidas

e morri de velhice

sem sentir o terremoto que provocas

quando, de joelhos,

me ofereces a nuca

como quem oferece a última cidade

depois dos bombardeios.

 

Tu és a minha América escondida,

a minha prisão de onde não quero fugir.

 

E se um dia me levarem

para os campos onde os homens

aprendem a não amar,

leva contigo este verso:

eu fui feliz

porque exististe

e porque, por uma noite apenas,

o mundo inteiro

cabia dentro do teu quarto.

 

 

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Kleber Luis Antônio Pinheiro
Poeta e educador social.
Atuo com educação social e escrita, desenvolvendo projetos e textos que aproximam arte, escuta e transformação comunitária.

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