Imersivo

 

Há dias em que o mundo

não acontece do lado de fora.

 

A rua continua passando.

Os carros seguem inventando distâncias.

As pessoas atravessam a tarde

com seus compromissos,

seus relógios,

suas urgências.

 

Mas alguma coisa me puxa

para dentro.

 

Como um mergulho.

 

Não em água.

 

Em mim.

 

Desço.

 

Primeiro encontro as lembranças.

 

Elas ficam na superfície,

boiando como folhas

num lago antigo.

 

Desço mais.

 

Ali estão os nomes

que já não pronuncio,

as vozes que o tempo levou da boca

mas não dos corredores da memória.

 

Desço mais.

 

A luz diminui.

 

E é curioso perceber

que certas tristezas

não querem ferir ninguém.

 

Querem apenas ser vistas.

 

Como quartos fechados

que passaram anos esperando

alguém abrir a porta.

 

Continuo.

 

No fundo,

onde quase não existe linguagem,

encontro uma espécie de silêncio.

 

Não o silêncio da ausência.

 

O da compreensão.

 

Como se tudo aquilo

que passei a vida tentando explicar

estivesse finalmente sentado

ao meu lado.

 

Sem perguntas.

 

Sem defesa.

 

Sem necessidade de tradução.

 

Então percebo:

 

a profundidade não é um lugar.

 

É um encontro.

 

E voltar à superfície

depois disso

não significa sair.

 

Significa carregar o oceano

dentro dos olhos.

 

E caminhar entre as pessoas

 

sabendo que há mundos inteiros

 

vivendo em segredo

 

sob a pele de cada um.

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Kleber Luis Antônio Pinheiro
Poeta e educador social.
Atuo com educação social e escrita, desenvolvendo projetos e textos que aproximam arte, escuta e transformação comunitária.

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