Há dias em que o mundo
não acontece do lado de fora.
A rua continua passando.
Os carros seguem inventando distâncias.
As pessoas atravessam a tarde
com seus compromissos,
seus relógios,
suas urgências.
Mas alguma coisa me puxa
para dentro.
Como um mergulho.
Não em água.
Em mim.
Desço.
Primeiro encontro as lembranças.
Elas ficam na superfície,
boiando como folhas
num lago antigo.
Desço mais.
Ali estão os nomes
que já não pronuncio,
as vozes que o tempo levou da boca
mas não dos corredores da memória.
Desço mais.
A luz diminui.
E é curioso perceber
que certas tristezas
não querem ferir ninguém.
Querem apenas ser vistas.
Como quartos fechados
que passaram anos esperando
alguém abrir a porta.
Continuo.
No fundo,
onde quase não existe linguagem,
encontro uma espécie de silêncio.
Não o silêncio da ausência.
O da compreensão.
Como se tudo aquilo
que passei a vida tentando explicar
estivesse finalmente sentado
ao meu lado.
Sem perguntas.
Sem defesa.
Sem necessidade de tradução.
Então percebo:
a profundidade não é um lugar.
É um encontro.
E voltar à superfície
depois disso
não significa sair.
Significa carregar o oceano
dentro dos olhos.
E caminhar entre as pessoas
sabendo que há mundos inteiros
vivendo em segredo
sob a pele de cada um.
Comentários
Disse tudo!Adorei o seu poema! Parabéns!
Imersivo e muito expresssivo de uma alma sensivel. Abraços
Parabéns pelos lindos versos, Kleber!