A casa dorme e eu não. Fico aqui, sócio do relógio, contando os segundos que não voltam, como quem conta moedas que já gastou.
Quarta-feira. Só isso. Um nome pequeno para tanta noite. Lá fora, julho é seco e não pergunta se estou pronto para o dia que ainda não chegou.
Penso nas coisas que não pensei de dia: o telefone que não toquei, a palavra que engoli na hora errada, o nome de alguém que já não sei se dói.
O teto tem uma mancha que de noite parece um mapa. Talvez seja só um mapa mesmo, sem tesouro, sem promessa, sem saída.
Mas há um instante, bem no meio da escuridão, em que o corpo cansado desiste de lutar contra o sono que não vem, e aí, só aí, alguma paz se instala,
não porque o sono chegou, mas porque parei de esperá-lo.
A madrugada não me deve nada. Eu é que ainda devo a ela o silêncio de aceitar que nem toda noite precisa de sentido.
Se estas palavras encontraram você, talvez a madrugada tenha escolhido a mesma mesa para nós dois. Diga, de que lugar você também atravessa esta insônia?
Comentários
Há noites, Kleber
em que o sono se perde de propósito,
apenas para que a alma
se encontre.
Sento-me também
à mesa silenciosa da madrugada.
Não para esperar respostas,
mas para ouvir
o que o dia abafou.
As horas passam descalças.
O relógio continua seu trabalho,
e eu continuo o meu:
costurar versos
nas frestas do silêncio.
Talvez seja esse
o verdadeiro descanso:
não dormir...
mas deixar de lutar
contra aquilo que a noite deseja nos dizer.
Hoje,
suas palavras encontraram as minhas.
E, por alguns instantes,
a madrugada deixou de ser solidão
para tornar-se poesia compartilhada.
— Ciducha
De Mogi Mirim - SP.
Apelo para um comes e bebes extra.
Resultado: Não faço um texto bonito, ganho peso.